Ir direto ao conteúdo

Quais os métodos para armazenar os restos da mineração

Barragens como a de Brumadinho e a de Mariana, que colapsaram, usavam técnica insegura e barata. Presidente da Vale promete substituir reservatórios que restam em três anos

 

Em pouco mais de três anos, o estado de Minas Gerais registrou dois grandes desastres envolvendo barragens que armazenavam milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro.

Em 5 de novembro de 2015, a barragem do Fundão, em Mariana, colapsou, espalhando um mar de lama que deixou 19 mortos e um estrago ambiental sem precedentes no país. A dona da barragem é a Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton.

Em 25 de janeiro de 2019, uma barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, também ruiu, criando um novo mar de lama que deixou dezenas de mortos e centenas de desaparecidos. Na terça-feira (29), as equipes de resgate contavam 65 mortos e 288 desaparecidos. A dona da barragem é a Vale, novamente envolvida num desastre.

Nas duas tragédias, extraía-se minério de ferro e as barragens usavam a mesma técnica para armazenar os rejeitos do processo, chamada alteamento a montante. É um método menos seguro, mais propenso a rompimentos como os de Brumadinho e Mariana.

Na natureza, o minério de ferro é encontrado atrelado a rochas comuns, sem valor econômico. É necessário, portanto, separar os componentes. Um dos processos mais comuns envolve reagentes químicos e grande quantidade de água. O que sobra precisa ser armazenado de algum modo, para não ser despejado no meio ambiente.

O minério de ferro é hoje o terceiro principal produto exportado pelo Brasil — atrás apenas da soja e do petróleo — e é matéria-prima do ferro e do aço, metais de uso generalizado na indústria.

Métodos

Barragem em alteamento a montante

Rejeitos armazenados junto com a água. Um dique inicial é construído e, em cima dele, vão sendo erguidos outros diques, à medida que o reservatório é preenchido com mais rejeitos. Esses “degraus”, ou alteamentos, são construídos para dentro do reservatório, com uso do próprio rejeito solidificado. É comum no Brasil, está em desuso nos EUA e Europa e foi proibido no Chile, país mais suscetível a terremotos. É o método menos seguro, porém é o mais barato e rápido.

Barragem em alteamento a jusante

Rejeitos armazenados junto com a água. Também há um dique inicial, com novos “degraus” ao longo do tempo. Mas os alteamentos são construídos para fora da barragem, com material mais resistente. É mais seguro que o método a montante, porém é mais caro, demorado e necessita de mais espaço.

Empilhamento

Os rejeitos passam por filtros e espessadores, a fim de retirar a água. Após esse processo, o resultado é um material pastoso, que é depositado em um dique. Os rejeitos secam ao sol pouco tempo depois e formam uma “montanha” firme. Quando seca, pode vir uma nova camada pastosa por cima ou mesmo uma camada de solo, para reflorestamento. É um método seguro, porém ainda mais caro do que o alteamento a jusante.

Outros

Existem métodos alternativos, menos comuns e com diferentes tipos de limitação: sem barragem (o minério é separado sem adição de água e, portanto, não é necessária barragem, mas é uma tecnologia cara e para regiões com chuvas fartas), barragem seca (uma “piscina” feita de concreto para armazenar os rejeitos, viável para projetos de pequeno porte) e escavação subterrânea (rejeitos depositados em galerias de onde o minério já foi extraído, a baixo custo, mas, além do pouco espaço, é viável apenas quando a mina já foi desativada).

O que diz a Vale

Nesta terça-feira (29), o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, prometeu acabar com barragens que usam o sistema de alteamento a montante, como aquelas que ruíram em Mariana e Brumadinho.

Segundo o executivo, a mineradora ainda opera com dez dessas barragens. Elas não recebem mais rejeitos, mas estão cheias, assim como era o caso da barragem que colapsou em Brumadinho. Todas ficam em Minas Gerais.

Ainda de acordo com Schvartsman, o processo de substituição deve durar até três anos, com investimento de cerca de R$ 5 bilhões.

O que diz o governo

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já havia criticado o modelo de barragem a montante no Brasil e pediu a substituição pelo método de empilhamento seco. Disse que é necessário superar a técnica insegura.

“Havendo alternativa técnica, não tem por que manter algo superado, algo antigo e que tem um risco inerente, que é esse modelo de barragem, sobretudo essa construída a montante, que mostrou a fragilidade”, disse Salles na segunda-feira (28), em entrevista à GloboNews.

Ele afirma que o ministério pode propor incentivos a mineradoras para utilizar outros métodos, a fim de acabar totalmente com as barragens a montante no Brasil.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!