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Este estudo diz que associações positivas se aprendem rápido

Pesquisa da Universidade de Göttingen, na Alemanha, ensinou participantes a associarem palavras a recompensas ou perdas

 

Na psicologia, o termo valência é utilizado para indicar o valor emocional associado a algum estímulo. Avistar alguém amado se associa a uma forte valência positiva, que atrai. Avistar um conhecido qualquer tem pouca valência. E avistar alguém desagradável corresponde a uma valência negativa, que repele.

Estudos que empregam técnicas que captam sinais da atividade cerebral indicam que o cérebro reage a estímulos ligados a emoções rapidamente, em cerca de 200 milissegundos. A mesma rapidez se dá quando o estímulo é associado a recompensas ou perdas (monetárias, por exemplo).

Uma pesquisa realizada por pesquisadores ligados à Universidade de Göttingen, na Alemanha, e publicada em dezembro de 2018 na revista Neuropsychologia, buscou compreender se as primeiras respostas do cérebro a estímulos mudam quando há apenas o processamento de uma imagem associada a um desdobramento — como recompensas ou perdas- ou quando há também processamento semântico, que envolve a interpretação do significado de palavras a partir de conhecimento e associações a um vocabulário prévio.

Para tanto, o trabalho treinou 48 estudantes a associar 48 palavras a resultados negativos, positivos ou neutros. Metade dessas palavras eram inventadas, e não tinham significado nenhum. Por isso, eram antes símbolos formados por letras do que palavras imbuídas de significado.

O trabalho concluiu que pessoas aprendem associações positivas mais rápido do que aquelas neutras ou negativas. E que há diferenças nas primeiras reações do cérebro a palavras com significado ou sem significado associadas a resultados positivos ou negativos.

Como a pesquisa foi feita

Todas as participantes foram mulheres, estudantes da Universidade de Göttingen.

No primeiro experimento, participaram 24 estudantes mulheres, com entre 19 e 31 anos. Foram usados neste teste 24 substantivos em alemão. As participantes foram informadas de que as palavras que apareciam eram associadas a um de três botões: positivo, negativo ou neutro.

Elas foram instruídas a apertar um dos botões após as palavras serem exibidas, e informadas de que algumas delas eram associadas a recompensas monetárias, apesar de não terem significados positivos ou negativos.

Quando apertavam o botão positivo em resposta a palavras que geravam recompensas, ganhavam 20 centavos. Mas apenas 10 centavos eram ganhos quando davam respostas erradas.

Quando apertavam o botão positivo ou neutro em resposta a palavras aliadas a perdas, perdiam 20 centavos. Mas perdiam apenas 10 centavos quando pressionavam o botão negativo.

Dessa forma, perdiam sempre com os estímulos negativos, mas poderiam perder menos se realizassem a associação correta. Não responder levava à perda de 50 centavos.

Esses testes foram executados repetidamente com as palavras, até que as participantes passaram a realizar a associação correta em 48 de 50 testes, indicando que haviam assimilado quais eram relacionadas a algo positivo, neutro ou negativo.

O segundo grupo foi formado por outras 24 estudantes mulheres, de entre 19 e 31 anos. O mesmo treinamento foi realizado com outras 24 palavras. Dessa vez, no entanto, tratavam-se de pseudopalavras dissilábicas, sem nenhum significado em alemão, como “voti”, “metu” e “bano”.

O procedimento foi mantido para que os resultados do treinamento pudessem ser comparados entre si. Um teste foi realizado em entre um e dois dias após as sessões de treinamento ocorrerem.

Ele consistia em 16 blocos, nos quais as 24 palavras do treinamento eram apresentadas em meio a outras 384, usadas como distração. As participantes precisavam dizer se a palavra fazia parte do conjunto do treinamento ou não, e apertar um dos botões de resposta.

Nessas sessões, um eletroencefalograma estava conectado às cabeças das participantes, registrando sinais de sua atividade cerebral.

Diferenças no comportamento

O trabalho concluiu que a associação entre palavras e pseudopalavras a recompensas era aprendida mais rapidamente do que a associação entre palavras e pseudopalavras à ausência de recompensas.

Ou seja, estímulos associados a ganhos eram, portanto, assimilados de forma mais rápida.

Na interpretação dos autores do estudo, “em linha com pesquisas anteriores, esses resultados dão suporte à suposição de que há um processamento preferencial de recompensa ao invés de perda no nível comportamental”.

Na sessão de testes, as respostas a estímulos associados a ganhos ou a perdas eram mais rápidas nos casos das palavras verdadeiras. No caso das pseudopalavras, não se observou diferença.

Segundo o trabalho, “uma possível explicação é de que as palavras [reais] possuem um significado semântico que pode impulsionar a associações, por isso seriam mais fortemente associadas ao respectivo resultado [de ganhos, neutro, ou de perdas] do que as pseudopalavras”.

Diferenças nas respostas cerebrais

O trabalho também identificou que as respostas cerebrais eram diferentes durante as respostas às pseudopalavras e às palavras verdadeiras. “Palavras claramente diferem de pseudopalavras em relação a mecanismos primários de associação a resultados no estudo atual, e os mecanismos deveriam ser mais investigados em pesquisas no futuro”.

As respostas a pseudopalavras levavam a uma reação cerebral mais rápida do que ocorria com as palavras verdadeiras.

“A intensificação em P1 [sigla usada para se referir a um dos primeiros tipos de eventos cerebrais detectáveis por eletroencefalograma] em se tratando de pseudopalavras sem conteúdo semântico no atual estudo provavelmente refletem associações a traços visuais”, diz o estudo.

As palavras associadas a um significado levavam ao resultado oposto no cérebro. Outros resultados dos eletroencefalogramas levaram a crer que isso não se devia ao posterior processamento semântico. O trabalho afirma que mais estudos são necessários para compreender esse processo.

“Não está claro, pelo estudo atual, se esses efeitos se relacionam à familiaridade das palavras comparadas como as não-palavras, ou se a semântica diretamente influencia os primeiros estágios de percepção ou se palavras semânticas facilitam associações entre características visuais de uma palavra o resultado associado a ela [no caso, receber ou não dinheiro]”

Pesquisa ‘Efeitos diferenciais de associações aprendidas com palavras e pseudopalavras e potenciais cerebrais associados a eventos’, publicada em dezembro de 2018 na revista Neuropsychologia

 

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