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3 eixos do curto discurso de Jair Bolsonaro em Davos

Tentando atrair negócios, presidente faz fala de 6 minutos e 40 segundos e não dá detalhes sobre seus planos para mudar o Brasil

     

    Jair Bolsonaro fez seu primeiro discurso no exterior como presidente da República na tarde desta terça-feira (22), na Suíça. O brasileiro recebeu lugar de destaque dos organizadores do Fórum Econômico Mundial. Foi o primeiro chefe de Estado a fazer um "discurso especial" na edição de 2019 do evento que acontece em Davos e reúne líderes políticos, empresários e investidores de todo o mundo.

     

    O encontro que marca a estreia de Bolsonaro em fóruns internacionais não conta com a presença dos líderes de grandes economias mundiais, como Estados Unidos, China, Reino Unido e França. Por outro lado, a alemã Angela Merkel, o japonês Shinzo Abe e o italiano Giuseppe Conte receberam espaços parecidos com o dado ao presidente brasileiro.

     

    Jair Bolsonaro falou por exatos 6 minutos e 40 segundos. Em seguida, passou mais cerca de dez minutos respondendo a perguntas do fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab. A sessão com Bolsonaro durou bem menos que os 45 minutos reservados aos discursos dos líderes mundiais.

     

    Ao iniciar sua fala, o presidente se disse "emocionado" pela estreia diante de uma "plateia tão seleta" e agradeceu pela honra de abrir a sessão.

    “Esta é a primeira viagem internacional que realizo após minha eleição, prova da importância que atribuo às pautas que este fórum tem promovido e priorizado. Esta viagem também é para mim uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o momento único em que vivemos em meu país e para apresentar a todos o novo Brasil que estamos construindo.”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República

    O propósito do discurso, preparado com antecedência e lido pelo presidente, foi o de convencer que o Brasil é um bom investimento para agentes econômicos de todo o mundo. Bolsonaro ressaltou potencialidades da economia brasileira, disse abertamente que estava ali para atrair negócios para o país e prometeu, sem detalhar, que fará reformas para dar estabilidade à economia e aos cofres públicos.

    Na segunda parte da fala, depois de ler o discurso e respondendo a perguntas feitas por Schwab, Bolsonaro voltou a fazer críticas à esquerda e ao bolivarianismo na América Latina.

    Durante a conversa, o presidente foi perguntado sobre “passos concretos” na política econômica ou “seu plano exato” para o combate à corrupção, mas deu respostas sem detalhes. Pautas comuns a Bolsonaro foram citadas rapidamente quando ele disse que seu governo defenderia "a família e os verdadeiros direitos humanos". Ao dizer que quer um mundo de “paz, liberdade e democracia”, adaptou seu slogan de campanha.

    “Quero mais que um Brasil grande, quero um mundo de paz, liberdade e democracia. Tendo como lema ‘Deus acima de tudo’, acredito que nossas relações trarão infindáveis progressos para todos.”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República

    O Nexo resume a fala do presidente da República em três eixos principais.

    As potencialidades do Brasil

    “Estamos aqui porque queremos, além de aprofundar nossos laços de amizade, aprofundar nossas relações comerciais”, disse o presidente da República em um trecho de seu discurso. Bolsonaro passou então a apresentar potencialidades que o Brasil tem e prometeu, por exemplo, aumentar a segurança para incentivar o turismo.

    “Nossas ações, tenham certeza, os atrairão para grandes negócios, não só para o bem do Brasil, mas também para o de todo o mundo. Estamos de braços abertos.”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República

    O presidente deu destaque especial ao agronegócio que, segundo ele, cresce no Brasil graças a avanços tecnológicos e respeitando o meio ambiente.

    “Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura se faz presente em apenas 9% do nosso território e cresce graças a sua tecnologia e à competência do produtor rural. Menos de 20% do nosso solo é dedicado à pecuária. Essas commodities, em grande parte, garantem superávit em nossa balança comercial e alimentam boa parte do mundo.”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República

    Segundo a Agência Lupa, de checagem de fatos, o Brasil não é o que mais preserva o meio ambiente no mundo. Um estudo de 2018 feito com 180 países sobre performance ambiental coloca o Brasil na 69ª posição.

    Bolsonaro quer agora “avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico”. Ele não detalhou se esse “avanço” se dará com a flexibilização de regras ambientais, como defendeu na campanha eleitoral.

    Reformas e abertura econômica

    Bolsonaro disse à plateia em Davos que o objetivo de seu governo é “que o mundo restabeleça a confiança que sempre teve” no Brasil. Além de convidar investidores, Bolsonaro fez promessas de agir para resolver questões que são apontadas por empresários como entraves na economia brasileira.

    No discurso, disse que seu governo tem “credibilidade” para fazer “as reformas” que o país precisa e que o mundo espera que sejam feitas. Nessa parte da fala, pré-preparada, ele não citou a palavra Previdência.

    Já na entrevista, quando perguntado sobre que “passos concretos” pretendia dar para a transformação do Brasil, o presidente citou as reformas da Previdência e tributária.

    “Nós pretendemos diminuir o tamanho do Estado. Realizar reformas como, por exemplo, a da Previdência e a tributária. Queremos tirar o peso do Estado de cima de quem produz, quem empreende”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República

    Citando nominalmente o ministro da Economia, Paulo Guedes, Bolsonaro prometeu que ao fim de seu mandato o Brasil estará entre os 50 melhores países para se fazer negócios no mundo. No mais recente relatório Doing Business do Banco Mundial, o Brasil era o 109º colocado entre 190 países. O ranking leva em conta, por exemplo, indicadores de burocracia e tributação.

    Sem detalhar, o presidente disse que vai “diminuir a carga tributária, simplificar as normas” e vai trabalhar pela “estabilidade macroeconômica”. À plateia de Davos, prometeu “respeitar contratos”, “privatizar” e “equilibrar as contas públicas”.

    Na avaliação do presidente, o “Brasil ainda é uma economia relativamente fechada ao comércio internacional”, condição que ele se compromete a mudar. Ao falar do comércio exterior, o presidente disse mais uma vez que sua política não terá “viés ideológico” na escolha de parceiros, mas disse também que visa o comércio “com aqueles que comungam com práticas semelhantes”.

    A reforma do Estado e o significado de seu governo

    O presidente da República também tentou passar a ideia de que, desde sua eleição, o Brasil vive uma nova era. O novo governo, em suas próprias palavras, representa um “ponto de inflexão” na história do país.

    Bolsonaro usou seu baixo orçamento de campanha e pouco tempo de TV para enfatizar o peso de sua vitória nas urnas e disse que seu governo tem "credibilidade" para fazer as mudanças.

    “Assumi o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica. Temos o compromisso de mudar nossa história. Pela primeira vez no Brasil um presidente montou uma equipe de ministros qualificados. Honrando o compromisso de campanha, não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção.”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República

    Neste ponto, destacou a nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, chamando o ex-juiz de "o homem certo" para o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro. No posto, Moro teria “todos os meios para seguir o dinheiro no combate à corrupção e ao crime organizado”, inclusive mudando a legislação.

    Para além de Moro, Bolsonaro disse à plateia que toda a sua equipe de ministros foi indicada sem interferência político-partidária, que os nomes foram escolhidos apenas por critérios técnicos.

    “A equipe de ministros que nós colocamos, todos eles indicados de forma técnica, sem a participação político-partidária. Precisamos sim muito do parlamento brasileiro e confiamos que grande parte do mesmo nos dará respaldo na busca do combate à corrupção e da lavagem de dinheiro. Dessa forma, o Brasil será visto de forma diferente aqui fora.”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República

     

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