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Por que esquecemos o que aprendemos, segundo a ciência

Seleção feita pelo cérebro do que é ou não armazenado tem ligação com herança evolutiva e teve adaptação devido ao volume contemporâneo de consumo de informação

 

Um dos aspectos da memória conhecidos pela ciência é que o cérebro realiza uma seleção do que será ou não armazenado. Nesse sentido, o esquecimento é fisiológico: uma de suas funções é permitir que se continue a aprender coisas novas, fazendo com que detalhes menos importantes deem lugar a informações mais recentes.

A questão é que não se esquece somente aquilo que é desimportante – conhecimentos adquiridos e informações que se deseja muito lembrar também acabam sendo “deletadas”.

Em entrevista ao podcast The Why Factor, da BBC, Blake Richards, neurocientista e professor da Universidade de Toronto, no Canadá, afirma que a escolha feita pelo cérebro daquilo que é benéfico esquecer tem a ver com a evolução.

Desde nossos ancestrais distantes, o sistema da memória teria evoluído para ajudar a sobrevivência, privilegiando o armazenamento de informações essenciais para a subsistência.

Como a definição do que virá a ser útil nesse aspecto é complexa, uma estratégia possível do cérebro, levantada por Richards, consiste em guardar, a princípio, uma grande quantidade de informações (sobre algo que foi lido ou vivido), para então ir dispensando boa parte dessa informação à medida que o tempo passa, sem que haja algum “sinal” de que aquela informação será usada.

Essa hipótese vai ao encontro da experiência de pessoas que se queixam de não reter quase nada da leitura de um livro, por exemplo. Informações e até detalhes estão frescos na memória no dia seguinte, mas vão se apagando à medida que o tempo passa se não se voltar ao livro ou tentar, com alguma frequência, reacessar aquele conhecimento na memória.

O esquecimento, nesse caso, também se relaciona com a divisão, estabelecida pela psicologia cognitiva nas últimas décadas, da memória em dois sistemas, distintos quanto ao período de armazenamento e o nível de detalhe com que retém as informações: a memória de curto prazo, ou “memória de trabalho”, e a memória de longa duração.

Dois sistemas

Memória de curto prazo/de trabalho

Temporária, fornece informações, inclusive minúcias, sobre lembranças recentes

Memória de longa duração

Armazena grande quantidade de informações adquiridas durante toda a vida, dando uma imagem mais imprecisa sobre o que foi visto ou vivenciado

Se o conteúdo de um livro ou uma informação aprendida ficam somente na memória de trabalho, sem nunca ser revistos ou reacessados, se perdem.

Isso acontece sobretudo quando o consumo é rápido: quando se lê um livro inteiro de uma vez durante um voo, por exemplo (o mesmo vale para assistir uma série em maratona versus assistir um episódio dela por semana: uma pesquisa mostrou que os espectadores se lembravam melhor do conteúdo no segundo caso).

Da mesma maneira, espaçar a leitura de um livro, voltar a ele vez ou outra ou a anotações feitas sobre o conteúdo, são estratégias para reter as informações mais a longo prazo, forçando-as a não ficarem somente na memória de trabalho.

A informação está lá, só não se consegue acessá-la

Um artigo sobre o tema publicado na edição brasileira da revista Scientific American sugere que o problema pode não residir somente em reter ou não a informação, mas no “mecanismo de busca voluntária” do cérebro, que, apesar de guardar representações detalhadas de eventos e objetos, pode apresentar dificuldade de encontrar espontaneamente uma informação requisitada.

Faria Sana, professora assistente de psicologia na Universidade de Athabasca, no Canadá, também admite que alguns dados estejam retidos na memória e, ao mesmo tempo, inacessíveis, até serem liberados pela “pista” correta.

Em uma reportagem da revista The Atlantic, republicada pela Folha de S.Paulo em 2018, Sana definiu a memória como “essencialmente associativa”, necessitando por vezes de algum tipo de “gatilho” para que a determinada lembrança seja resgatada.

A maneira atual de consumir informação

Além da herança evolutiva que influi no discernimento do que guardar ou não, de acordo com um critério de sobrevivência, o modo contemporâneo de consumir informação e entretenimento, mais veloz e em um volume muito maior a partir da internet, também impactou o tipo de memória considerada digna de ser armazenada pelo cérebro.

É o que diz Jared Horvath, pesquisador da Universidade de Melbourne, na Austrália, na mesma reportagem da revista The Atlantic.

Com a internet, a memória declarativa (capacidade de acessar  espontaneamente fatos ou nomes) se tornou muito menos necessária, já que a rede funciona como uma espécie de memória externa. Além disso, a quantidade de informação a que se é exposto atualmente é tão grande que a seleção do que deve ficar ou ser apagado se tornou ainda mais necessária.

A forma de absorver conteúdo pela rede também faz diferença.

“O tipo mais comum de leitura é provavelmente a leitura de consumo – lemos, especialmente na internet, para adquirir informação, uma informação que não tem chance de se tornar conhecimento, a menos que seja retida”, escreve a jornalista a Nikkitha Bakshani em um artigo chamado “binge reading disorder” (“distúrbio da leitura compulsiva”, em tradução livre).

“Não estamos falando de aprender alguma coisa, e sim sobre uma experiência momentânea que leva a pessoa a sentir que aprendeu alguma coisa”, disse Horvath à Atlantic.

Nesse caso, não se trata de ter esquecido algo que foi aprendido, mas de nunca ter fixado a informação, em primeiro lugar.

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