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O que parlamentares eleitos do PSL foram fazer na China

Futuros integrantes do Congresso recebem críticas por viagem ao país asiático, indicação de desencontro entre a base de apoio de Bolsonaro

    Uma comitiva de dez parlamentares eleitos do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, viajou à China na terça-feira (15). O fato gerou críticas entre apoiadores do governo, respondidas em seguida pelos políticos que participavam da viagem ao país asiático. Foi uma indicação de descompasso entre a base de apoio de Bolsonaro.

    Foram à China os deputados federais eleitos Aline Sleutjes, Bibo Nunes, Carla Zambelli, Charlles Evangelista, Daniel Silveira, Felício Laterça, Marcelo Freitas, Sargento Gurgel e Tio Trutis; e a senadora eleita Soraya Thronicke. O novo Congresso vai tomar posse em 1º de fevereiro, e o PSL terá a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, atrás apenas do PT, com 56.

    Segundo os eleitos, a viagem tem como objetivo se familiarizar com tecnologias de vigilância e câmeras com reconhecimento facial, conhecer as empresas chinesas da área e estabelecer laços do PSL com a China, país que é o maior parceiro comercial do Brasil. A viagem partiu de um convite do governo chinês e não foi paga com dinheiro público brasileiro.

    “Os chineses estão muito à nossa frente na questão da segurança pública, e como representante do estado do Rio de Janeiro essa tecnologia toda [de reconhecimento facial] muito me interessa”

    Felício Laterça

    deputado federal eleito (PSL-RJ), em entrevista ao UOL na terça (15)

    Os futuros parlamentares não têm prerrogativa legal de fechar qualquer acordo em nome do governo brasileiro, nem dizem que esse é o objetivo. Seria um contato inicial para conhecer as tecnologias e, no futuro, apresentar projetos de lei para a área de segurança, incluindo o reconhecimento facial. A diminuição da violência é uma bandeira política do PSL.

    A China usa a tecnologia em larga escala, desenvolvida sobretudo pela empresa chinesa Huawei, uma das visitadas pelos políticos.

    No Brasil, o reconhecimento facial na segurança não existe em nível nacional, mas é usado, por exemplo, pelo governo da Bahia e pela prefeitura de Campinas (SP). Também existe para fins comerciais, analisando emoções de consumidores.

    Qual o descompasso entre bolsonaristas

    Em geral, as críticas à viagem se baseiam no fato de que a China é governada, desde 1949, pelo Partido Comunista, num regime político autoritário e de partido único.

    Bolsonaro e os demais candidatos do PSL fizeram da rejeição ao “comunismo”, à esquerda e às “amarras ideológicas” uma das bases da campanha de 2018.

    O governo Bolsonaro tem se aproximado dos EUA e de Israel, em parte por causa das semelhanças políticas com os atuais governos desses países. A China é uma potência econômica e militar que vem contrapondo sua influência mundial aos EUA.

    O núcleo do governo Bolsonaro ligado às relações internacionais, politicamente conservador, desaprova aproximações com o governo comunista chinês. Por sua vez, o núcleo da economia vê o país asiático como parceiro comercial indispensável.

    As reações

    Segundo o presidente nacional do PSL, deputado Luciano Bivar (PSL-PE), Bolsonaro ficou “surpreso” com a viagem de políticos do seu partido à China e disse que integrantes do PSL precisam ter “responsabilidade”, por agora estarem atrelados ao governo federal. O presidente não se pronunciou diretamente sobre o caso.

    O escritor Olavo de Carvalho, influente no governo e citado como mentor por nomes do PSL e da extrema direita brasileira, publicou um vídeo na quarta-feira (16) dizendo que os parlamentares eleitos são “semianalfabetos”, “caipiras” e estão “fazendo uma loucura”. Afirmou que instalar o sistema significaria entregar diretamente ao governo chinês informações sobre todos os brasileiros.

    O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e que não participou da comitiva, fez uma crítica indireta à viagem em seu Twitter. Eduardo lembrou do caso da executiva chinesa da Huawei que foi presa no Canadá, a pedido dos EUA, em dezembro de 2018. Os americanos afirmam que a Huawei faz espionagem para o governo chinês, mas nunca apresentaram evidências públicas — a empresa nega. Formalmente, Meng Wanzhou é acusada de violar sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã. Ela agora está em prisão domiciliar no Canadá.

    As respostas dos parlamentares

    Criticados, os políticos postaram vídeos e mensagens na internet, relativizando a ida à China.

    Em geral, dizem que estão a serviço dos interesses do Brasil, apesar das diferenças com o governo chinês, que não usaram dinheiro público para a viagem e que a China é um parceiro vital para a economia brasileira, o que justificaria a ida.

    Eles chegaram a dar versões distintas. A deputada eleita Carla Zambelli disse que não pretende trazer a tecnologia chinesa em larga escala ao Brasil, que vai visitar outros países e que estão em jogo relações comerciais mais amplas com os chineses, em diversas áreas, que beneficiariam o Brasil.

    Já o deputado eleito Daniel Silveira disse ter interesse no reconhecimento facial e em apresentar projeto de lei na área. Ele chegou a relativizar, num vídeo, o regime chinês: disse que não é opressor “como as pessoas pensam” no Brasil e é “mais light” do que Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Nas suas redes, Silveira chegou a fazer transmissões ao vivo das palestras a que assistia na China, como uma resposta a quem questionou a transparência da visita.

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