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Como a masculinidade está sendo redefinida no contexto americano

Na psicologia e na propaganda da Gillette, atributos tradicionalmente valorizados nos homens, como resolver conflitos pela força e não demonstrar fragilidade, são colocados em xeque

     

    A masculinidade tóxica é apontada como um dos fatores por trás de problemas contemporâneos que afetam os Estados Unidos, como o número crescente de tiroteios em massa e o assédio sexual sistêmico que resultou no movimento #MeToo.

    Na esteira das denúncias de condutas sexualmente abusivas e violentas de homens poderosos, atributos do que se entende tradicionalmente por “ser homem” passaram a ser abordados e questionados em artigos de opinião da imprensa e em discussões nas redes sociais.

    O conceito, que se popularizou nos últimos anos, tem a ver com as normas sociais que levam homens a não falar sobre seus sentimentos, não cuidar da própria saúde, não demonstrar fragilidade e a tender a resolver conflitos fazendo uso da violência, por exemplo.

    Nas primeiras semanas de janeiro de 2019, dois eventos relativos ao debate sobre masculinidade ganharam repercussão nos Estados Unidos, e provocaram também reações contrárias nas redes sociais.

    O primeiro foi a divulgação, pela Associação Americana de Psicologia, de um documento com diretrizes inéditas na história da organização para terapeutas trabalharem com meninos e homens. A controvérsia decorreu da afirmação, contida no manual, de que a ideologia da masculinidade tradicional prejudica os homens.

    O segundo episódio que trouxe à tona questionamentos sobre o comportamento incentivado nos homens foi um novo vídeo publicitário da marca Gillette, no qual um slogan antigo é revisitado e modificado para refletir sobre padrões de comportamento masculino que precisam ser revistos para as novas e futuras gerações.

    O Nexo detalha abaixo o conteúdo e reverberações de cada um.

    Diretrizes da APA

    Lançada em 2018, a versão final das diretrizes que vinham sendo elaboradas pela Associação Americana de Psicologia desde 2005 ganhou repercussão ao aparecer na edição de janeiro de 2019 da Monitor on Psychology, publicação da APA.

    A “ideologia da masculinidade”, expressão que provocou críticas ao manual, é definida como “uma constelação particular de normas que dominam segmentos amplos da população, incluindo: anti-feminilidade, sucesso, evitar demonstrar fragilidade, aventura, risco e violência”.

    Embora haja muitas diferenças entre os homens e muitas “masculinidades”, segundo reconhece o documento, essa ideologia dominante está associada à homofobia, ao bullying e ao assédio sexual.

    Está conectada, além disso, a um leque de estatísticas alarmantes para a vida e a saúde dos homens, citadas pelo documento:

    • homens são autores de cerca de 90% dos homicídios cometidos nos EUA
    • têm maior probabilidade de serem presos e acusados de violência doméstica no país
    • globalmente, têm quatro vezes mais chance de cometer suicídio do que as mulheres, sendo mais resistentes a buscar ajuda de um profissional

    Diante de dados como esses e da centralidade que o comportamento masculino tóxico assumiu nas discussões trazidas pelo #MeToo, a ideia é que as instruções eduquem profissionais de saúde mental sobre as questões específicas enfrentadas por essa parte da população.

    Funcionam como sugestões de boas práticas, e não como regras estritas para a atuação dos profissionais – não serão alvo de nenhum tipo de cobrança ou punição para quem escolher não adotá-las. 

    Foram recebidas por alguns, porém, como uma patologização da masculinidade e de “características inerentes” aos homens. 

    Segundo Jared Skillings, psicólogo e um dos especialistas que contribuíram para as indicações da APA, a mensagem não é que ser homem seja necessariamente ruim – mas que o que faz mal aos homens e àqueles que os cercam é a rigidez dos papéis de gênero e ir longe demais em determinados aspectos da masculinidade.

    O poder e o privilégio de que gozam os homens, em oposição às mulheres, nesse regime da “ideologia da masculinidade” é abordado pelas diretrizes como uma faca de dois gumes.

    O custo desse privilégio é estar limitado a certas práticas e ter capacidade restrita de se adaptar para agir de maneira diferente daquela em que foram socializados (junto à família, amigos, colegas de escola e pela sociedade de modo geral, desde crianças).

    Entre as orientações dadas aos psicólogos, estão:

    • incentivar que o paciente reconheça que as masculinidades são construídas com base em normas culturais, sociais e contextuais;
    • levá-lo a entender o impacto do sexismo, do privilégio e do poder sobre o desenvolvimento de meninos e homens e sobre a forma como se relacionam com outras pessoas;
    • encorajar o envolvimento paterno positivo e relações familiares saudáveis
    • buscar reduzir a incidência dos problemas encarados mais significativamente por eles, como violência, abuso de substâncias e suicídio.

    ‘O melhor que os homens podem ser’

     

    No dia 13 de janeiro de 2019, a marca de aparelhos de barbear Gillette lançou um vídeo publicitário no qual resgata o slogan “the best a man can get” (“o melhor que um homem pode alcançar”, em tradução livre), que fez sucesso em 1989, reeditando-o como “o melhor que os homens podem ser”. Com isso, coloca em discussão a masculinidade tóxica e redefine o posicionamento da marca sobre o tema. 

    Enquanto o vídeo antigo estabelece os ideais de uma masculinidade desejável – ser um bom esportista, ter sucesso na carreira e formar uma família (heterossexual) –, o de 2019 se volta à desconstrução de condutas que levam ao bullying, às atitudes sexistas no ambiente de trabalho e ao assédio sexual.

    Partindo do movimento #MeToo e das mudanças provocadas por ele, o vídeo reforça a importância de, enquanto homem, dar o exemplo: “os garotos que observam hoje serão os homens de amanhã”, afirma o narrador.

    “Homens precisam cobrar responsabilidade uns dos outros”, disse o ator Terry Crews em seu depoimento como vítima de assédio ao Congresso americano, em junho de 2018, inserido no comercial.

    Elogiada por parte dos internautas, a iniciativa também fez com que muitos anunciassem, no Twitter, um boicote contra a marca.

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