Por que uma performance com nudez foi cancelada no Rio

Trabalho do coletivo carioca ‘És Uma Maluca’ foi encenado do lado de fora da Casa França-Brasil como forma de protesto. Governo declarou o fim da exposição um dia antes do previsto

 

Uma performance artística encerraria, no domingo (13), a exposição “Literatura exposta”, em cartaz na Casa França-Brasil, que esteve em cartaz no centro do Rio de Janeiro desde 4 de dezembro de 2018.

A Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, porém, declarou o fim da exposição um dia antes do previsto, cancelando a apresentação do trabalho. O centro cultural pertence à secretaria estadual e as criações apresentadas pela mostra tinham como premissa se basearem em textos de escritores periféricos.

A performance seria encenada no centro cultural pelo coletivo de artistas És Uma Maluca, fundado em 2014 na zona norte do Rio. Seu conteúdo trata das torturas ocorridas durante o regime militar no Brasil e conteria nudez feminina.

O grupo anunciou que irá encená-la na rua na segunda-feira (14), às 18h, em frente à Casa França-Brasil como forma de protesto ao que consideram censura ao trabalho artístico.

Na via pública, no entanto, a performance será apresentada sem nudez, decisão tomada pelas artistas após consultarem advogados e outros coletivos.

A performance é uma extensão da instalação “A Voz do Ralo é a Voz de Deus”, obra do coletivo apresentada na exposição.

Em dezembro, antes da troca de gestão do governo do estado, um dos aspectos da concepção original da obra já havia sido vetado pelo diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak, e pelo então secretário estadual de Cultura, Leandro Monteiro: o uso de uma gravação da voz do presidente Jair Bolsonaro, que sairia de um bueiro instalado sobre azulejos, no piso da instituição, sobre o qual se encontram espalhadas milhares de baratas de plástico.

Em alusão à substituição feita por jornais que tinham reportagens censuradas na ditadura militar, uma receita de bolo entrou no lugar da gravação.

“A Voz do Ralo É a Voz de Deus” foi inspirada por um conto do escritor Rodrigo Santos que trata de uma mulher torturada durante a ditadura militar com a inserção de baratas em sua vagina.

Justificativa apresentada

Em nota, o atual secretário de Cultura e Economia Criativa, Ruan Lira, afirmou que o cancelamento aconteceu porque a programação do domingo (13) não fazia parte do contrato firmado.

Segundo o comunicado, “a decisão foi tomada devido ao descumprimento do contrato assinado entre as partes em 3 de julho de 2018 e que prevê o cancelamento unilateral em caso de descumprimento das obrigações estabelecidas. O referido contrato não inclui em seu objeto a programação informada para o último dia do evento. Também exige que as atividades sejam autorizadas pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Artístico Nacional], com pedido feito com 45 dias de antecedência, o que não ocorreu – impedindo, portanto, a realização do programa agendado para este domingo”.

O secretário de cultura teve acesso à informação de que uma performance com nudez seria exibida na exposição somente na sexta-feira (11), de acordo com uma reportagem da Folha de S.Paulo.

Segundo informou ao jornal a assessoria da secretaria, não haveria tempo hábil para que a programação fosse avaliada pelos órgãos responsáveis por definir a classificação etária da atividade.

Uma postagem compartilhada na conta no Instagram do curador da exposição Álvaro Figueiredo afirma que o cancelamento foi uma ordem do governador do Rio, Wilson Witzel.

Figueiredo disse ainda que a direção da Casa França-Brasil havia sido previamente comunicada sobre a realização da performance.

“Comuniquei com antecedência o teor das performances à direção da Casa, foi autorizado e ontem à noite enviaram esse comunicado. Esse é o governo que temos. A arte vai sobreviver aos ignorantes”, escreveu.

Ao jornal O Globo, o curador afirmou não fazer sentido que a secretaria de cultura exigisse detalhamento do que seria apresentado na exposição no momento em que o contrato foi firmado, uma vez que os artistas desenvolveram as obras após a contratação e seu conteúdo não estava previamente definido.

Figueiredo disse nunca ter sido cobrado pela Casa França-Brasil de informar o conteúdo das obras que seriam apresentadas pelos artistas, mas que, ainda assim, encaminhou à instituição informações sobre o encerramento.

No Twitter, o governador Wilson Witzel se pronunciou, reafirmando que o veto à performance decorreu de um “descumprimento de contrato”.

“Temos que saber previamente o conteúdo a ser exibido em um local administrado pelo Governo, como está previsto em contrato”, escreveu.

Proibição da nudez

Em 2017, outras performances artísticas realizadas em instituições culturais nacionais foram alvo de debate e intervenção de autoridades por envolverem nudez.

Em julho de 2017, o artista paranaense Maikon Kempinski foi preso pela Polícia Militar do Distrito Federal durante a apresentação da performance “DNA de DAN”, sob a justificativa de praticar “ato obsceno”.

Kempinski se encontrava nu no contexto da performance, em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília. A apresentação era parte da programação do evento Palco Giratório, mostra teatral promovida pelo Sesc (Serviço Social do Comércio).

Em outubro do mesmo ano, a performance “La bête” (A fera, em tradução livre), apresentada pelo artista Wagner Schwartz na abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (o MAM) de São Paulo, foi alvo de protestos que culminaram em agressões físicas a funcionários do museu e ameaças anônimas, feitas por telefone, de dano ao acervo da instituição.

A controvérsia decorreu circulação de um vídeo, no qual uma criança é mostrada tocando a perna do artista durante a performance. Ele se encontrava nu, deitado no chão. Uma investigação aberta pelo Ministério Público Federal sobre a interação concluiu não ter havido crime de pornografia infantil e foi arquivada em fevereiro de 2018. 

Também em 2017, outras exposições, entre elas a “Queermuseu”, e obras sofreram ataques sob a alegação de serem pornográficas ou fazerem “apologia à pedofilia”.

 

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