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Como a música latina migrou para o centro do pop dos EUA

Graças a artistas como J Balvin, Bad Bunny, Ozuna, Maluma e Daddy Yankee, a música latina já é mais consumida que o country naquele país

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    É na música pop que se encontra uma das frentes do avanço latino nos Estados Unidos. Na terra do presidente Donald Trump, artistas como J Balvin, Bad Bunny, Ozuna, Maluma e Daddy Yankee atravessam as fronteiras por meio dos cabos da internet, resultando em milhões de plays no YouTube e Spotify.

    Em diversos indicadores importantes, a música latina já aparece como mais consumida nos EUA do que o country, o gênero americano de viés tradicionalista e mais consumido nos estados do meio-oeste e sul.

    De acordo com um estudo publicado em janeiro de 2018, a categoria “latin” respondeu por 10,9% do consumo de músicas americano, contabilização que engloba vendas e plays em streaming de músicas individuais. Ficou em quinto lugar, na frente de “country”, em sexto, com 7,9%. Em primeiro está o hip hop, com 24,7%.

    Na categoria de consumo de álbuns, os sons latinos também bateram o country: 9,4% contra 8,7% das vendas. A pesquisa leva em conta o método padrão da indústria fonográfica atualmente para calcular o desempenho de álbuns: uma unidade vendida não corresponde apenas a um álbum vendido “na íntegra” (seja em vinil, CD ou download), como também cada dez músicas do álbum vendidas separadamente ou em blocos menores e cada 1.500 plays ou streams de músicas do álbum.

    O poder do streaming

    A pesquisa mostra que o sucesso dos artistas latinos se deve ao streaming. Cerca de 95% de todo o consumo musical do gênero ocorre por essa via, em sites ou aplicativos como YouTube e Spotify.

    Com o rádio americano geralmente devotado a artistas que cantam em inglês, em gêneros como rock e hip hop, os hits que vêm do sul da fronteira dependem da internet para acontecer.

    A pesquisa da BuzzAngle mostra o poder do streaming em geral nos números da indústria. Essa modalidade de audição responde por uma fatia de 77% do consumo de álbuns, contra 17,3% de álbuns vendidos (digital ou físico). O total de plays via streaming bateu a marca dos 534,6 bilhões em 2018, 42% a mais que o ano anterior.

    De acordo com a definição da entidade que representa a indústria fonográfica americana, “música latina” é qualquer música com 51% ou mais de seu conteúdo gravado em espanhol

    Há cerca de dez anos, a contabilização da parada de músicas mais vendidas/tocadas dos EUA, o Hot 100, realizada pela revista Billboard, começou a introduzir algumas métricas de streaming. Em 2013, plays no YouTube para uma música passaram a fazer parte do cálculo. Com o tempo, as tocadas via streaming em diversas plataformas foram ganhando peso.

    O ano de ‘Despacito’

    O ano de 2017 foi marcante para a música latina, sinalizando a nova tendência. Foi, claro, o ano em que Luis Fonsi e Daddy Yankee estouraram com “Despacito”. A música hoje é co-detentora do recorde de maior tempo em primeiro lugar na parada americana, em qualquer língua ou gênero musical.

     

    Naquele ano, segundo números da Billboard, foram 19 músicas cantadas em espanhol na lista Hot 100, o principal ranking de popularidade de músicas no país. Em 2016, foram apenas quatro músicas e, em 2015, três. O ano de 2018 registrou 16 faixas latinas na lista.

    O fenômeno do streaming sozinho não explica o êxito das músicas latinas. Um fator igualmente importante é estético: artistas latinos começaram a se destacar por mais músicas dançantes e a incorporar referências de pop, R&B, hip hop e música eletrônica em sua sonoridade.

    As duas tendências ajudaram na aceitação dos sons: músicas para a pista de dança conseguem superar barreiras linguísticas e o hibridismo tornou a sonoridade menos regional e mais globalista. “Flexibilidade” é uma característica fundamental no que o jornal The New York Times recentemente chamou de “pop 2.0”, onde subgêneros e linguagens coexistem e se cruzam sem fricções ou questionamentos, ecoando o espírito multirreferencial da cultura da internet.

    Hibridismo está no cerne do reggaeton, o gênero do grande hit latino dos anos 2000: “Gasolina”, de Daddy Yankee. Imensamente popular em Porto Rico, o reggaeton filtra hip hop e dancehall (música jamaicana de baile) através de uma sensibilidade latina urbana contemporânea. O reggaeton é o ritmo de boa parte dos hits latinos nos EUA nos últimos anos, de “Despacito” a “Mia”, de Bad Bunny.

    “Mia” tem participação do astro do rap canadense Drake. Parcerias e endossos de artistas americanos também contribuem no impulsionamento de vários sucessos latinos. O caso mais famoso é “Despacito”. Graças a um remix que contou com a participação de Justin Bieber, a música que já era um hit latino-americano se tornou um êxito monumental nos Estados Unidos.

    Por vezes, artistas brasileiros acabam englobados como “música latina”. A premiação do Grammy Latino conta com categorias para artistas que cantam em português

    Em termos de negócios, a Billboard chama a atenção para o fato de que departamentos de gravadoras especializados em sons latinos agora trabalham com mais frequência com divisões globais ou pop. “Músicas como ‘Despacito’ e ‘Mi Gente’ se tornaram tão grandes globalmente não por causa da música, mas por causa do seu som. Num mundo em que o hip hop é tão grande, agora podemos incluir o gênero latino como algo de grande alcance em um público mais amplo”, disse um executivo à revista.

    A etiqueta “música latina”

    De acordo com a definição da Riaa, entidade que representa a indústria fonográfica americana, “música latina” é qualquer música com 51% ou mais de seu conteúdo gravado em espanhol.

    A divisão conta com um ranking próprio dentre os vários compilados pela revista Billboard. Chamada hoje de Top Latin Songs, a lista existe desde 1986. Segundo os registros da publicação, o primeiro sucesso latino a figurar na parada americana foi “La Bamba”, de Richie Valens, em 1959. Uma nova versão da música, pelo grupo Los Lobos, trilha do filme de mesmo nome, chegou ao primeiro lugar em 1987.

    Em 1995, estourou o segundo maior hit latino da história dos Estados Unidos: “Macarena”, interpretada por Los Del Rio, uma dupla de senhores espanhóis que havia começado a tocar em 1962.

    Antes da onda atual, boa parte dos sucessos de artistas latino-americanos nos Estados Unidos estava dentro do rótulo de “latin pop”, ou seja, música pop cantada em espanhol, com regionalismos diluídos e produção contemporânea. Era o som de nomes como Ricky Martin, Enrique Iglesias, Shakira, Selena e Luis Miguel.

    Por vezes, artistas brasileiros acabam englobados como “música latina”. A premiação do Grammy Latino conta com categorias para artistas que cantam em português. Em 2018, nas duas categorias principais do prêmio, Gravação do Ano e Álbum do Ano, havia artistas do Brasil no páreo: “É Fake (Homem Barato)”, de Annadi, e “Caravans”, de Chico Buarque, respectivamente.

    Segundo uma previsão da Billboard do início de 2018, os mesmos fatores que alavancaram artistas de países de língua espanhola poderiam ajudar artistas brasileiros como Anitta e MC Fióti. Parcerias entre brasileiros e outros latino-americanos também fazem parte do repertório de estratégias de projeção continental: Anitta já gravou com o colombiano J Balvin e Nego do Borel se aliou a Maluma, cantor também da Colômbia.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informou que o rapper Drake era de origem norte-americana. A correção foi feita às 18h17 do dia 14/01/19.

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