Ir direto ao conteúdo

O papel das mulheres na produção de livros religiosos na Idade Média

Esqueleto feminino desenterrado na Alemanha sugere a participação de escribas femininas em um período do qual havia poucos registros antes

Temas
 

Uma descoberta arqueológica trouxe novas informações sobre o papel de mulheres na produção de livros religiosos no início da Idade Média. Um esqueleto desenterrado na Alemanha continha resquícios de pigmento azul-ultramarino nos dentes. O material era usado na confecção de obras que eram feitas à mão em monastérios.

Calcula-se que a mulher viveu entre 997 e 1162 d.C., de acordo com o exame de datação de carbono da arcada dentária. Os pesquisadores acreditam que os grãos de pigmentos foram parar em seus dentes pelo costume de lamber a ponta do pincel para deixá-lo mais fino.

O azul ultramarino é obtido a partir da moagem da pedra lápis-lazúli. Na Idade Média, era muito utilizado em manuscritos sagrados. Encontrado apenas em regiões da Índia, Paquistão e Afeganistão, o lápis-lazúli valia mais do que ouro durante aquele período.

Junto com ouro e prata, o pigmento azul era usado para “iluminar” obras religiosas, ou seja, decorar um texto com capitulares, margens e pequenas ilustrações. Dada a preciosidade do material, apenas os artistas mais capacitados e experientes teriam acesso a ele. Isso sugere que a mulher do esqueleto era de alto nível técnico.

Pesquisadores já sabiam que comunidades de freiras eram comumente encarregadas de produzir livros religiosos, especialmente na Alemanha e na Áustria. Há registros de mulheres envolvidas nesse tipo de trabalho desde o  ano 700. Entre os anos de 1200 e 1500, cientistas conseguem atribuir cerca de 4.000 livros a 400 escribas mulheres específicas.

Entretanto, havia poucos registros e livros sobreviventes do início do período medieval. Mesmo do que restou de antes de 1100, apenas 1% das publicações pode ser conectada com escribas e pintoras femininas.

A análise do esqueleto indicou que a mulher viveu até uma idade entre 45 e 60. Seus ossos indicaram uma vida de pouco esforço físico ou doença, o que pode ser considerado normal para alguém que passou a vida em um mosteiro.

“O caso de Dalheim levanta questões sobre quantas outras antigas comunidades de mulheres na Alemanha, incluindo comunidades que produziam livros, também foram apagadas da história”, declarou ao site Ars Technica a antropóloga Christina Warinner, do Instituto Max Planck, de Munique, na Alemanha, que encabeçou a pesquisa. “Me faz imaginar quantas outras artistas poderemos achar nos cemitérios medievais se procurarmos.”

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: