O que pesou no bolso e o que aliviou a inflação de 2018

Índice oficial de preços terminou o ano em 3,75%, menos que os 4,5% perseguidos pelo Banco Central, mas dentro da margem de tolerância

     

    A inflação oficial no Brasil foi de 3,75% em 2018. O resultado foi conhecido na manhã desta sexta-feira (11), quando o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou os números do mês de dezembro do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

    O IPCA é o índice oficial de inflação porque é nele que o governo se baseia para tomar decisões de política econômica, inclusive o estabelecimento da meta de inflação. A cada ano, o governo define uma meta para a inflação. Cabe ao Banco Central dosar os juros, entre outros instrumentos de política monetária, para que o aumento de preços não fique muito fora do previsto.

    Em 2018, a meta estipulada era de 4,5%. Mas como os preços estão sujeitos a choques que não dependem do Banco Central, há uma tolerância: 1,5 ponto percentual para mais ou menos. Ou seja, a inflação de 2018, em 3,75%, ficou abaixo do centro da meta mas dentro da margem de tolerância.

    O Brasil adota o regime de metas de inflação desde 1999, quando o país passou por uma crise de desvalorização da moeda, no governo de Fernando Henrique Cardoso.

    Histórico recente

    O ano de 2018 foi o segundo consecutivo em que a inflação ficou abaixo do centro da meta. Em 2017, com os 2,95%, o IPCA fechou o ano abaixo inclusive da margem de tolerância.

    A inflação baixa dos últimos dois anos, sob o governo de Michel Temer, em nada se parece com o período do governo de Dilma Rousseff, em especial com seu segundo mandato (de 2015 a 2016, quando sofreu impeachment). Em janeiro de 2016, a inflação acumulada em 12 meses ultrapassou os 11%, muito acima do teto da meta — que era de 6,5% na época.

    Depois de atingir o pico, a inflação caiu forte e rapidamente no Brasil. Uma combinação de fatores explica o recuo dos índices. O IPCA foi puxado para baixo porque os alimentos, que têm o preço muito influenciado pelo clima, praticamente pararam de subir em 2016 — eles tiveram forte alta em 2015. Outros dois fatores que ajudaram na queda foram a forte recessão que freou o consumo e a política monetária do Banco Central de Michel Temer.

    Novo patamar

     

    O que aconteceu em 2018

    A inflação já começou o ano em patamares muito baixos, mas teve que lidar com pressões. A primeira delas foi o aumento do dólar que, durante todo o ano, impactou as importações.

    O dólar foi um dos motivos do maior choque de preços do ano: a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018. A paralisação foi motivada pelo aumento dos combustíveis, que têm os preços definidos com base na cotação do petróleo em dólar, e causou ainda mais inflação.

    A crise de desabastecimento gerada pela paralisação fez com que o IPCA de junho fosse o maior em 23 anos. Mesmo com esse choque, o IPCA esteve quase sempre abaixo do centro da meta.

    A greve dos caminhoneiros

     

    O que pesou e o que aliviou

    O IPCA do ano foi baixo, mas isso nem de longe quer dizer que os produtos não subiram. O preço de muita coisa explodiu em 2018. Por outro lado, alguns produtos ficaram estagnados e outros até tiveram preços menores, se comparados ao começo do ano.

    A tangerina, ou mexerica, subiu 76% em 2018. Apesar disso, ela impactou muito menos o bolso do brasileiro do que o tomate, que subiu 71%. Isso porque o brasileiro consome, em média, muito mais tomate que tangerina. Por isso o peso da tangerina é de 0,12% do índice total. O do tomate, 0,32%.

    A mesma lógica vale para todos os produtos. O IPCA mede os preços de uma cesta de 400 produtos, que o IBGE julga ser representativa do consumo do brasileiro. Assim, o quanto o produto vai efetivamente pesar no bolso do consumidor depende de dois fatores: o peso dele no índice e quanto ele aumenta em um ano.

    O grande exemplo disso em 2018 são os combustíveis para veículos e a energia elétrica. Esse tipo de item é essencial no orçamento de grande parte dos brasileiros. O gráfico abaixo mostra a variação, em cada mês, do preço de quatro tipos de combustíveis e da energia elétrica residencial. A comparação é com o preço do fim de 2017.

     

    O grande aumento desses produtos no ano fez com que eles tivessem uma representação bem mais significativa, no índice final, do que a que têm normalmente no IPCA. Os economistas dizem que esses produtos “puxaram o IPCA para cima” — ou seja, eles subiram mais que a média.

    O gráfico abaixo mostra três exemplos. O primeiro é a energia elétrica doméstica, que também está no gráfico acima, afetada pela adoção de bandeiras tarifárias nos meses de maior seca. O outro exemplo é o de combustíveis veiculares, que une todos os tipos de combustíveis representados no gráfico anterior. Por último, os planos de saúde. Eles subiram em média 11,17% em 2018, quase o triplo da inflação geral.

    Assim, esses três grupos multiplicaram sua influência no aumento. Juntos, eles têm peso de 13,5% no IPCA. Mas, no aumento geral de preços em 2018, eles são responsáveis por quase um terço: 1,13 ponto percentual.

     

    Por outro lado, há produtos importantes que tiveram pouco aumento ou até deflação em 2018 — o que puxa o índice para baixo. O preço médio de produtos de vestuário, que no IPCA têm peso parecido com combustíveis, ficou praticamente estagnado em 2018. Na mesa, diminuíram o preço do feijão preto, da farinha de mandioca e do café moído, por exemplo.

    Em resumo, os 3,75% registrados no ano são o resultado de aumentos e quedas de mais de 400 produtos. Tudo que aumentou mais que 3,75% puxou o IPCA para cima. Tudo que subiu menos que 3,75% ou diminuiu de preço puxou o índice para baixo.

    A explicação e as perspectivas

    Sobre o resultado do IPCA de 2018 e as expectativas para os preços em 2019, o Nexo entrevistou o economista Guilherme Moreira, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

    O que caracteriza a inflação do ano de 2018 ?

    Guilherme Moreira Chama atenção que foi um número baixo perto do cenário do ano. Houve fatores não normais. Entre eles a desvalorização cambial. O câmbio saiu de perto de R$ 3,30 e chegou a ser de R$ 4,20 em setembro, outubro. Isso tem um impacto fortíssimo na gasolina, no óleo diesel e diversos elos da cadeia de produção. Mesmo com todos esses efeitos, e mais a greve dos caminhoneiros, a inflação foi ultra comportada.

    Foi o segundo ano consecutivo de inflação abaixo do centro da meta, o que é bem incomum no Brasil. E mais incomum ainda é ter um número desses em um ano com desvalorização cambial e com um evento como a greve dos caminhoneiros que impactou leite, frango. Houve aumentos elevados [de preços] graças a eventos aleatórios.

    O que explica a inflação baixa em um ano de alta de combustíveis e greve dos caminhoneiros?

    Guilherme Moreira Primeiro é importante pensar que há uma crise ainda que limita muito repasse de preço. Grande parte dos aumentos foi absorvido por lojas, comércio e indústria. Um exemplo claro é: o aumento da farinha de trigo [18,1%] foi muito maior que o aumento do pão francês [6,46%]. E o pão é basicamente trigo, água e mão de obra. Onde ficou essa diferença? Muito desse aumento do câmbio foi absorvido pela padaria. E isso aconteceu em vários outros segmentos.

    Tomate subiu muito, frango subiu muito, leite subiu, mas a alimentação fora do domicílio sobe bem menos. Isso é por conta da crise. O comércio já está vendendo pouco sem subir o preço. Se subir, qualquer que seja o motivo, as vendas caem ainda mais. Na ponta, para o consumidor, como o consumo está muito fraco, esses aumentos são muito contidos.

    Qual a participação do alto desemprego e da fraca atividade econômica na inflação baixa?

    Guilherme Moreira Em parte é verdade que os preços não sobem porque a economia está devagar. A economia parou de cair, mas não voltou a crescer, isso é um componente. Mas não necessariamente voltar a crescer significa volta da inflação. E esse é o grande segredo da gestão da economia, crescer sem gerar inflação, isso é perfeitamente possível.

    O Brasil tem uma combinação interessante agora que é inflação e juros baixos. Em 2019 há a expectativa de uma retomada da atividade econômica, mas não vejo grandes problemas com relação à inflação. A própria gasolina começa a cair de preço, caiu na refinaria e agora começa a cair na bomba porque o câmbio está voltando. Então não vejo grandes pressões.

    Colaborou Rodolfo Almeida (gráficos)

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