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Por que um prêmio a Angela Davis dividiu uma cidade nos EUA

Militante do movimento negro e escritora seria homenageada em Birmingham, onde nasceu

     

    O cancelamento de um prêmio de direitos humanos que seria concedido a uma das mais conhecidas ativistas negras dos Estados Unidos tem mexido com a maior cidade do estado do Alabama, Birmingham, onde vivem mais de 200 mil habitantes.

    Nascida no município, a militante Angela Davis, de 74 anos, havia sido escolhida para ser homenageada em 2019 com o Prêmio Fred Shuttlesworth de Direitos Humanos, a maior honraria concedida pelo Instituto de Direitos Civis de Birmingham. A instituição foi criada em 1992 e abriga um museu.

    A escolha de seu nome havia sido feita em setembro de 2018, e a entrega do prêmio ocorreria em 16 de fevereiro de 2019. Ingressos para o evento já tinham começado a ser vendidos. Em 4 de janeiro de 2019, porém, o instituto desconvidou Davis e cancelou a premiação.

    Palco de lutas

    Birmingham, uma das cidades mais marcadas pela segregação racial nos Estados Unidos nos anos 1960, ficou conhecida por ter sido palco de lutas pelos direitos civis dos negros naquela década. O local era um dos bastiões do Ku Klux Klan, movimento nacionalista e extremista de supremacistas brancos que contava com o apoio da polícia local.

    Em 1963, o pastor protestante e ativista Martin Luther King Jr. organizou protestos não violentos pela cidade, que acabaram sendo reprimidos. Ele foi preso e, da cadeia, escreveu um texto que ficou conhecido como “Carta da Prisão de Birmingham”, em que defendia o cumprimento de uma decisão de 1954 da Suprema Corte americana determinando o fim da segregação racial nas escolas públicas. Também incitava as pessoas a desobedecerem as leis de segregação por serem “moralmente erradas”.

    Em 1964, o presidente Lyndon B. Johnson assinaria a Lei dos Direitos Civis, proibindo a discriminação racial nos Estados Unidos.

    O prêmio

    O Prêmio Fred Shuttlesworth de Direitos Humanos é entregue anualmente, desde 2003, como reconhecimento à atuação de ativistas na defesa dos direitos humanos e civis. A premiação leva o nome de outro pastor e militante que apoiou Luther King durante a campanha antissegregacionista em Birmingham. Ele morreu em 2011, aos 89 anos.

    O instituto diz seguir alguns critérios para escolher os premiados. Eles precisam possuir as seguintes características:

    • Filosofia da não violência e reconciliação
    • Coragem moral e física diante das singularidades
    • Humildade
    • Liderança pelo exemplo
    • Compromisso estabelecido em defesa dos direitos humanos

    A honraria já foi concedida a nomes como o ator Danny Glover, o historiador e professor John Hope Franklin e a deputada Eleanor Holmes Norton.

    O cancelamento

    Ao anunciar o nome de Davis para o prêmio, em outubro de 2018, a presidente do instituto, Andrea Taylor, afirmou que a militante era “uma das mais reconhecidas defensoras globais dos direitos humanos” por “dar voz àqueles que não têm poder de fala”.

    “Por meio de seu ativismo e estudo ao longo de várias décadas, Angela Davis esteve profundamente envolvida em movimentos por justiça social ao redor do mundo. Seu trabalho como educadora — em nível universitário e na esfera pública — sempre enfatizou a importância de construir laços comunitários na luta por justiça econômica, racial e de gênero”, afirmou, à época, a instituição.

    Mas as coisas mudariam em dezembro de 2018. Naquele mês, esta revista judaica escreveu um artigo dizendo que o anúncio omitia que a ativista defendia o “movimento de boicote a Israel” e o “isolamento do estado judeu”, acusando-o de promover “limpeza étnica e ser ligado à violência policial contra afro-americanos nos Estados Unidos”.

    Outra crítica partiu do general reformado Charles Chandler Krulak, que dirigiu uma universidade em Birmingham. Segundo ele, a página do Wikipédia dedicada à militante informava que ela pertenceu ao Partido Comunista Americano nos anos 1980, apoiou o bloqueio soviético a outros países na década de 1970 e foi integrante dos Panteras Negras.

    Após as críticas, o instituto decidiu cancelar o prêmio de 2019. Ele se manifestou assim:

    “Em dezembro, apoiadores, organizadores e pessoas preocupadas com o anúncio dentro e fora de nossa comunidade local começaram a fazer pedidos para que reconsiderássemos a decisão. Após exame mais aprofundado das declarações e registros públicos de Davis, concluímos que ela, infelizmente, não preenche todos os critérios nos quais o prêmio se baseia. Embora a gente reconheça sua importância como acadêmica e figura proeminente na história dos direitos civis, acreditamos que o cancelamento é consistente com os ideais de quem o prêmio empresta o nome, o reverendo Shuttlesworth”

    O instituto ainda lamentou a decisão e pediu desculpas aos apoiadores, às comunidades e a Davis, pela “confusão causada”.

    As reações

    Na quarta-feira (9), ativistas protestaram em frente ao instituto. O prefeito de Birmingham, Randall Woodfin, disse ter ficado “consternado” com o cancelamento e disse que a controvérsia empurra a comunidade para o passado, enquanto a cidade deveria estar caminhando para um ideal do que deseja ser. Segundo um jornal local do Alabama, a prefeitura contribui com US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões) ao museu anualmente.

    Em pronunciamento divulgado em sua página oficial no Facebook, na terça-feira (8), Angela Davis se disse “chocada” com o cancelamento. Ela rebateu algumas críticas.

    “Eu devotei muito do meu ativismo à solidariedade internacional e, especificamente, a unir esforços ao redor do mundo em prol de campanhas fundamentais americanas contra a violência policial, ao complexo industrial prisional e, mais amplamente, ao racismo”
    “Apoio os prisioneiros políticos palestinos da mesma forma que apoio prisioneiros no país Basco, na Catalunha, na Índia e em outras partes do mundo”
    “Expressei, de fato, oposição a políticas e práticas do estado de Israel como expresso semelhante oposição ao apoio dos Estados Unidos à ocupação israelense da Palestina e a outras políticas americanas discriminatórias”
    “Aprendi a ser tão ardentemente contrária ao antissemitismo quanto ao racismo. Tenho orgulho de ter trabalho ao longo da vida ao lado de pessoas e organizações judaicas em questões que preocupam nossas comunidades. De várias maneiras, esse trabalho contribuiu para minha conscientização crescente da importância de protestar contra a ocupação israelense da Palestina”

    Em sua fala, Davis lembrou ainda que conheceu pessoalmente Fred Shuttlesworth (ele era 22 anos mais velha que ela), que foi colega de escola de sua filha, Patricia, e que sua mãe, Sally Davis, “trabalhou incansavelmente” para o instituto em Birmingham.

    Ela anunciou ainda que irá à cidade em fevereiro para participar de um evento alternativo organizado “por quem acredita que o movimento pelos direitos civis, no momento, inclui uma discussão robusta sobre todas as injustiças que nos rodeiam”.   

    Quem é Angela Davis

    Filha de professores, Davis já disse que mantinha na memória os sons das bombas atiradas por membros da Ku Klux Klan em Birmingham, o que deu à cidade o apelido de Monte Dinamite, por causa dos atentados contra a população negra.

    Nos anos 1960, ela entrou para os Panteras Negras enquanto estudava na Universidade da Califórnia, em San Diego. Em 1970, apareceu na lista dos mais procurados do FBI (a polícia federal dos Estados Unidos), tendo sido relacionada a um sequestro que supostamente envolvia o uso de uma arma registrada em seu nome. Ela foi presa naquele ano, em Nova York, e passou 18 meses na cadeia até ser inocentada.

    Filiada ao Partido Comunista, pelo qual concorreu duas vezes nas eleições americanas como candidata à vice-presidente, nos anos 1980, passou períodos de sua vida na União Soviética, Alemanha Oriental e Cuba. Filósofa e professora universitária, é autora de mais de dez livros.

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