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O que é fanfic. E como ela é abordada na Base Nacional Curricular

Narrativas ficcionais feitas por fãs utilizando personagens já existentes começaram a aparecer nos anos 1960 com o surgimento de séries, como ‘Jornada nas Estrelas’

 

O termo fanfic está na Base Nacional Comum Curricular, documento homologado em 2017 durante o governo de Michel Temer que vai definir nos próximos anos quais habilidades e competências deverão ser exigidas dos estudantes do ensino básico do país. As escolas têm até 2020 para adaptar seus currículos.

O uso da fanfic é sugerido em sala de aula como um instrumento que pode ajudar a formar um “leitor-fruidor, ou seja, um sujeito que seja capaz de se implicar na leitura dos textos, de ‘desvendar’ suas múltiplas camadas de sentido, de responder às suas demandas e de firmar pactos de leitura”.

Segundo o documento, a internet tem produzido e disseminado novos gêneros (a fanfic, por exemplo) e proporcionado formas inovadoras de edição de textos, vídeos, áudios e fotos. Mas há um porém: se por um lado é um espaço democrático, por outro tem se tornado um ambiente onde “as opiniões importam mais do que os fatos em si”.

Por isso, o texto homologado pelo MEC defende que os estudantes consigam “reconhecer os discursos de ódio, refletir sobre os limites entre liberdade de expressão e ataque a direitos, aprender a debater ideias, considerando posições e argumentos contrários”.

Para se chegar a isso, a progressão curricular das escolas deve se orientar pela diversidade, abordando diferentes gêneros e contemplando “os novos letramentos, essencialmente digitais”.

O que é a fanfic

A expressão vem do inglês fanfiction, ou seja, uma ficção criada por fãs. “Nas fanfics, os devotos de programas de televisão, filmes, livros, jogos escrevem histórias, músicas, poemas ou fazem desenhos sobre seus personagens”, explicam os pesquisadores Michele Knobel e Colin Lankshear neste artigo de 2006, publicado num periódico de uma universidade norueguesa. Os personagens de histórias que já existem são, portanto, realocados em novos universos, encaixados em tramas diferentes e em enredos alternativos.

“Essa escrita surgiu de forma distinta e passou a ser reconhecida como uma prática social desde o advento das séries de televisão, como o ‘Jornada nas Estrelas’. Começou em 1966 e era cultuado por escritores que distribuíam suas narrativas em convenções de fãs e clubes de encontro, ou pelos correios”, escrevem os pesquisadores.

Com a internet, as narrativas ficcionais se proliferaram. Elas foram ganhando diferentes classificações internas ao longo do tempo.

  • Canon: significa “cânone”. Tenta manter o máximo possível da originalidade do texto
  • Crossover: personagens de diferentes lugares (de um filme e de um jogo, por exemplo) se misturam numa nova história
  • Shipper: estabelece e explora relações íntimas entre um casal
  • Universo alternativo: um personagem original é transportado para um mundo completamente diferente
  • Autoinserção: o autor se inclui na história

Segundo Knobel e Lankshear, a maioria dos escritores de fanfic preza pela qualidade do texto, com personagens bem desenvolvidos, enredos lógicos e correção gramatical.

A Base Nacional Comum Curricular faz uma ressalva quanto à recomendação do uso de fanfics: “devem observar a faixa etária mínima permitida de acesso a esses ambientes/sites”. Isso porque uma grande quantidade delas disponíveis na internet tem conteúdo pornográfico.

Uso em sala de aula

A professora Raquel Zandonadi, que dá aulas de português na Escola Municipal Sebastião Tavares de Oliveira, na Praia Grande (SP), desenvolveu uma atividade de fanfic com seus alunos em 2018.

Ela já havia testado outras iniciativas, como pedir aos estudantes que escrevessem um livro de memórias dividido em oito capítulos, cada um com um tema, para incentivar a “contação de histórias, o compartilhamento de vivências e a valorização dos saberes e experiências de cada um”. Pelo projeto, ela venceu o Prêmio Professores do Brasil de 2018, oferecido pelo governo federal.

No caso da fanfic, tema que ela estuda no mestrado que está fazendo na Unesp sobre o uso do gênero fanfic no ensino fundamental, a ideia foi analisar em sala de aula a série “La Casa de Papel”, disponível na Netflix (a escolha foi feita pelos próprios estudantes). 

Houve debates sobre diferentes gêneros narrativos, sobre a construção de personagens e do enredo e sobre as “brechas” na história.

Depois, os alunos escreveram suas próprias fanfics (elas foram publicadas num site que abriga narrativas ficcionais; uma delas por ser lida aqui). Ao final do projeto, os estudantes produziram um fanzine, ferramenta também indicada na Base Comum Curricular.

O Nexo conversou com a professora para saber mais sobre sua experiência com as fanfics.

Como você entrou em contato com o tema?

RAQUEL ZANDONADI Descobri esse gênero em 2008, quando lecionava literatura em uma escola particular. Algumas alunas daquele ano sempre reclamavam das obras abordadas pela disciplina. Elas eram leitoras assíduas; no entanto, liam outro tipo de literatura, uma literatura que eu, professora, desconhecia. Contudo, mesmo seguindo o cronograma da escola, eu tentava organizar as aulas de modo que a interação entre a turma — da turma com a literatura e deles comigo — fosse presente e constante.

Foi, então, que em um debate sobre um fragmento de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, minhas alunas me intimaram a ler “Crepúsculo”, primeiro livro de uma saga que viraria febre entre adolescentes do mundo. O livro já tinha sido publicado três anos antes e as alunas esperavam ansiosas pela continuação da trama. “Lua Nova”, segundo livro da série, seria lançado no Brasil no final daquele ano. Decidi encarar o desafio. A leitura dessa obra me fez não apenas aproximar essas alunas da literatura canônica exigida nos vestibulares, já que eu pude fazer muitas relações a partir dela, mas também fez com que eu conhecesse o mundo das fanfics.

O que aconteceu foi que, de certa forma, dividi a angústia da espera pela continuação da trama com minhas alunas e, então, descobri que elas eram leitoras e escritoras de fanfic. Foi quando conheci esse ambiente de leitura e escrita do mundo jovem. Fiquei entusiasmada com a riqueza dos sites e com a quantidade de jovens usuários, que escreviam e liam fora do ambiente escolar, já pensando que seria um excelente objeto de estudo para uma pós-graduação. Nessa época, não observava muitos usuários dessas plataformas no ensino fundamental.

Anos mais tarde, pensando que a escola não pode ficar alheia à diversidade de gêneros que a internet oferece e tentando inserir práticas de linguagem que favorecessem o gosto dos alunos, propus um trabalho com o gênero no 9º ano do ensino fundamental. Minha ideia foi o de criar um ambiente de fandom (reino dos fãs, um espécie de ambiente onde se compartilham informações a respeito do objeto com o qual se mantém uma relação de fã) a partir de um objeto cultural escolhido pelos alunos.

Seu projeto promoveu debates, produção de textos e de um fanzine. Como foi feita a avaliação dos alunos? Quais habilidades e competências você acha que eles adquiriram?

RAQUEL ZANDONADI O trabalho durou cerca de quatro meses e duas turmas do 9º ano participaram das atividades. A avaliação aconteceu em todo o processo, já que não foram apenas fanfics que produziram. Para a análise da série escolhida pela turma, com a qual fizemos um trabalho de leitura bem aprofundado — já que produzir uma boa fanfic pressupõe uma leitura atenta do objeto cultural com o qual se relaciona — os alunos fizeram painéis, seminários e debates.

No processo de escrita, usamos a plataforma spiritfanfiction.com, onde os alunos publicaram suas histórias e eu pude lá mesmo fazer os comentários. Conforme eles iam publicando suas histórias, eu ia fazendo interferências e dando sugestões em sala de aula. Para isso, analisamos obras de autores consagrados, como Gabriel García Márquez, Machado de Assis e o contemporâneo Daniel Galera. Os alunos também foram avaliados pela participação dentro da plataforma, com os comentários feitos nas fanfics dos colegas.

Além de um letramento dito tradicional, em que pude ajudá-los na escrita das narrativas, o que demandou conteúdos normalmente trabalhados em língua portuguesa, como construção do enredo, desenvolvimento das personagens, conectivos e coerência textual, consegui fazer um letramento multiletrado, uma vez que foi possível trabalhar com a multiplicidade semiótica exigida nas interações linguísticas digitais, como comentar e favoritar, e com a multiplicidade cultural, trabalhando com o seriado escolhido pelos alunos, “La Casa de Papel”. Em uma próxima aplicação, pensei em fazer não com um seriado, mas com um livro.

O termo aparece já na base curricular. Você acha que há abertura nas escolas para adotar a ideia?

RAQUEL ZANDONADI Não vejo empecilhos para o trabalho com o gênero fanfiction em si. É apenas um gênero narrativo, construído a partir de elementos de uma obra original. O desafio das escolas é trabalhar com o gênero no ambiente onde hoje ele está inserido: a internet. Esse trabalho exige que olhemos para o ensino da língua de forma dialógica, em primeiro, sabendo que a interação é premissa desse olhar; e segundo, que a escola ofereça estrutura para que os alunos possam interagir nesse ambiente, ou seja, computadores e acesso à internet, fato ainda distante da maioria das escolas brasileiras.

A fanfic ganhou impulso com a internet, que abriga uma linguagem própria dos jovens. Se a escola não se apropriar dessas linguagens, pode haver reflexo na formação dos alunos? 

RAQUEL ZANDONADI Sim, uma vez que estamos imersos em práticas de comunicação e interação com o uso da linguagem, e a escola tem por princípio a introdução dos aprendizes em práticas sociais letradas, a expansão da internet nos impulsiona —ou pelo menos deveria— a pensar em novos paradigmas para a educação.

E um desses paradigmas se relaciona ao mote da web 2.0, a interatividade, que envolve habilidades de autoria multimidiática e análise crítica multimidiática, e que, apesar de se relacionarem às habilidades tradicionais de produção textual e de leitura crítica, sem a prática contextualizada nossos alunos correrão o risco de serem tão marginalizados quanto àqueles que hoje são analfabetos.

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