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O centenário do autor sempre jovem J. D. Salinger

'O Apanhador no Campo de Centeio', maior sucesso do autor americano, continua vendendo aos milhares nos dias atuais

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    Jerome David Salinger foi um fenômeno literário do século 20. Em janeiro de 2019, o autor de “O apanhador no campo de centeio” faria 100 anos. Apesar de o livro ser uma presença óbvia em listas de obras importantes do período, o escritor permaneceu uma figura da qual pouco se sabia, até recentemente.

    Em “My Salinger years”, a escritora Joanna Rakoff relembra o período em que, no fim da década de 1990, trabalhou na agência literária que cuidava da carreira do consagrado autor. Jerry, como era conhecido, continuava recebendo quilos de cartas de fãs de toda parte. O autor não aparecia por lá, mas cada mensagem ganhava uma resposta.

    O cuidado era justificado. Até hoje, “O Apanhador” segue vendendo todo ano na casa das dezenas, talvez centenas, de milhares. Os dados são imprecisos e variam. Mas o Washington Post cravou em 2007 que o clássico de Salinger vendia 250 mil exemplares anuais em todo o mundo. O mesmo artigo calculou que até hoje o livro deveria ter vendido “mais, provavelmente muito mais” que dez milhões.

    Da fama ao isolamento

    Nascido em Manhattan, em Nova York, em 1° de janeiro de 1919, o autor serviu no Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, Salinger ficou na Alemanha participando de ações de “desnazificação”, o processo de remover pessoas, símbolos e referências do nazismo da vida pública do país.

    A decepção diante do que o mundo realmente revela ser, um traço comum da adolescência, está no centro da narrativa de 'O Apanhador no Campo de Centeio'

    O contato com os campos de concentração nazistas teve um forte impacto no autor. Segundo sua filha, Margaret, ele teria dito uma vez que “você realmente nunca consegue remover o cheiro de carne humana queimando do nariz completamente, não importa o quanto viva”.

    Em 1951, o autor lançou seu romance de estreia, “O Apanhador no Campo de Centeio”. Com crítica favorável no jornal The New York Times, o livro só viria a decolar em popularidade no final da década. Com o sucesso, Salinger se mudou para a minúscula vila de Cornish, no estado de New Hampshire, em 1953. Nos anos seguintes, se casaria com a psicóloga Claire e teria dois filhos, Margaret e Matt.

    O escritor passaria o resto da vida em Cornish, evitando imprensa e processando escritores e cineastas que tentaram de alguma maneira abordar sua vida e obra.

    Bastaram três anos de sua morte, em 2010, para que aparecessem duas biografias, um filme, três exposições de cartas e três contos que ele em vida não queria que fossem publicados. Há tempos, Salinger se satisfazia com escrever para si mesmo. Teria produzido muito material que ainda permanece inédito. Em uma rara entrevista de 1974 para o The New York Times, “existe uma paz maravilhosa em não publicar… gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo só para mim e para meu próprio prazer”.

    Do que se trata “O apanhador…”

    O personagem central de “Apanhador”, o adolescente Holden Caulfield, já havia aparecido como protagonista do conto “Slight Rebellion off Madison”, que o autor escreveu em 1946 para a revista The New Yorker. Ele tem 16 anos e vem de uma família de bom nível econômico. O local da história não é especificado.

    Foto: Reprodução
    salinger
    Edição brasileira antiga da obra de J.D. Salinger
     

    Caulfield não é bom aluno: sua escola atual é a quarta em que estuda, depois de três fracassos seguidos. Entre confusão e ressentimento, o protagonista busca sentido na vida. Ele se sente sozinho e incompreendido. Fica indignado com a “falsidade” do mundo adulto e contabiliza tentativas de flerte e sexo mal-sucedidas. Caulfield, que passa por tratamento em uma instituição psiquiátrica, se considera deslocado do mundo à sua volta.

    O título se refere a uma metáfora que o personagem usa para falar da perda da inocência. “Fico imaginando essas crianças pequenas jogando algum jogo nesse enorme campo de centeio e tal. Milhares de criancinhas, sem ninguém por perto — sem ninguém grande, quero dizer — exceto eu. E eu estou parado à beira de um precipício maluco. O que eu tenho de fazer, eu tenho de apanhar todo mundo se eles começarem a passar da beirada do precipício”.

    A decepção diante do que o mundo realmente revela ser, um traço comum da adolescência, está no centro da narrativa do livro. É uma das características que tornaram a obra tão atraente para adolescentes, assim como o que lhe dá uma data de validade tão nítida. Se você não leu até os 20 anos, melhor deixar para lá.

    O livro é uma peça fundamental na paisagem cultural das décadas de 1950 e 1960, quando a cultura popular produziu obras que “entendiam” o que era ser adolescente, das letras de rock’n’roll aos filmes de James Dean. Nem adulto, nem criança, o “teen” passava a ser abordado pelo mercado e pelas artes como algo distinto.

    Outros livros de Salinger

    “O Apanhador no Campo de Centeio” é o único romance do autor. Em vida, ele teve publicado duas coletâneas, “Nove Contos”, de 1953, “Franny e Zooey”, de 1961, e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira!”, de 1963. Estes dois últimos reúnem, cada um, duas novelas do autor.

    Depois de sua morte, foi editado “Three Early Stories” (três histórias iniciais, em tradução livre), com material escrito pelo autor ainda na década de 1940. O lançamento foi em 2014, a primeira nova publicação de Salinger em mais de 50 anos.

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