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Como sátiras e paródias confundem o debate político na internet

Perfis falsos poluem ambiente informativo e minam credibilidade da imprensa e dos jornalistas, enquanto conquistam simpatia do presidente da República

     

    A proliferação de perfis falsos e satíricos no Twitter tem aumentado a confusão sobre o que é verdade e o que é desinformação deliberada no jornalismo e na política.

    Paródias com postagens maliciosas, ou apenas humorísticas, têm sido reproduzidas por pessoas influentes – sendo a principal delas o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro –, levando milhares de usuários desavisados a consumir informação falsa como se fosse verdadeira.

    Jornais influentes como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, além de noticiários televisivos de grande audiência, como o Jornal Nacional, da TV Globo, têm suas contas imitadas por outros usuários. Logotipos, fotos e outros elementos gráficos copiados dessas empresas dão ao usuário menos atento a impressão de estar consumindo conteúdo jornalístico, quando se trata na verdade de desinformação.

    Além dos meios de comunicação, também os próprios políticos são parodiados. Os números podem flutuar rapidamente, mas, até esta quarta-feira (9), havia pelo menos cinco perfis falsos de Bolsonaro, sendo quatro deles com a mesma foto de perfil e com o mesmo visual do perfil oficial.

    Ao longo desta quarta-feira (9), perfis de paródia que são mencionados ao longo deste texto foram sendo retirados do ar pelo Twitter, que sabia que o Nexo estava escrevendo a respeito. A empresa havia recebido perguntas por escrito antes de os perfis começarem a desaparecer.

    A confusão no Twitter pode chegar a tal ponto que o próprio presidente do Brasil dialogou inadvertidamente com um perfil falso do presidente dos EUA, Donald Trump, quando quis agradecer pelos cumprimentos recebidos da Casa Branca por ocasião de sua posse, em Brasília, no dia 1º de janeiro.

    A troca de mensagens abaixo mostra Bolsonaro se dirigindo a um perfil falso de Trump, cuja única diferença para o nome da conta oficial do presidente americano é a ausência da letra “d”, em “Donald”.

    O mesmo Bolsonaro que é parodiado e que é vítima de paródias também segue perfis dessa natureza e replica conteúdos dessas fontes. A “Falha” de S.Paulo e a “Trolha” de S.Paulo, por exemplo, fazem paródia da Folha, e são replicados pelo presidente – que não adverte se tratar de uma piada.

    Reprodução de postagem de Jair Bolsonaro
     

    Bolsonaro também replica postagens de perfis que fazem paródia de colunistas como Reinaldo Azevedo, que tem adotado uma postura crítica ao atual governo em muitos aspectos, tanto na Folha quanto na rádio Band News e na Rede TV.  No caso do texto reproduzido abaixo, a postagem original foi excluída pela empresa Twitter enquanto esta reportagem estava sendo escrita pelo Nexo. O perfil de paródia, que era encontrado com o nome @Reginaldoazedo, não existe mais.

     

    Alguns desses perfis falsos trazem o aviso de que se trata de “perfil não oficial, apenas uma sátira”. Muitos usuários não atentam para a advertência da “Falha”, que diz ainda: “não leve nada a sério o que você vir por aqui, todas as notícias são fictícias”.

    O próprio presidente faz piada indiretamente de toda a confusão causada. Nesta segunda-feira (7), por exemplo, Bolsonaro replicou postagem de um usuário com a seguinte ironia: “Vamos dar boas vindas aos temidos perfis de paródia. Entraram no seleto grupo que ‘ameaça a democracia’, ao lado da tia da igreja, tiozão do churrasco, zap-zap, piadas e feique news [sic].”

    Post de Bolsonaro sobre perfis de paródia
     

    Parodiando a si mesmo

    No campo da sátira com linguagem jornalística, o The Piauí Herald ocupa um lugar incomum. O site é um braço humorístico da própria revista Piauí. É como se, em vez de se deixar parodiar por terceiros, a editora tivesse, ela mesma, se antecipado.

    A diferença é que a piada, nesse caso, está mais sobre os políticos do que sobre a imprensa – da qual a publicação toma emprestada a linguagem. Ao contrário do que fazem perfis como “Falha” (paródia da Folha) e “Estabão” (paródia do Estadão), o The Piauí Herald não ecoa a postura depreciativa do presidente Bolsonaro em relação aos jornais e aos jornalistas.

    O Nexo perguntou à direção da revista se, ainda assim, o “The Piauí Herald não contribui para a confusão existente entre notícias verdadeiras, notícias falsas e satíricas”. A resposta foi: “Se Deus quiser, sim”.

    “Trabalhamos para isso”, disse “Olegário Ribamar”, pseudônimo do responsável pelas piadas da publicação, identificado como “interventor e censor da rede social mais patriótica do Brasil”.

    “Ribamar” diz, com ironia, que “depois de anos publicando esse pasquim, finalmente as coisas tomaram o nosso rumo. As notícias verdadeiras soam falsas, as falsas soam verossímeis, e boa parte do que se ouve e vê nasceu para ser esculhambado”.

    Quando o humor confunde e dribla a checagem

    “Quando alguém se declara uma sátira, ganha uma licença para dizer qualquer coisa. Como você vai checar aquilo? Como você chama essa pessoa à responsabilidade?”, diz ao Nexo Eugênio Bucci, professor da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

    A jornalista Tai Nalon, diretora do Aos Fatos, site de checagem de fatos, diz ao Nexo que essa “parece ser uma estratégia deliberada de desinformação”. Ela afirma que “existem teóricos que acreditam que a ironia e o humor também são instrumentos persuasivos e instrumentos de normalização da mentira e da desinformação”.

    A jornalista identifica nisso uma tentativa deliberada de causar uma “poluição informativa”, como uma “estratégia de minar a confiança das pessoas na imprensa e nos jornalistas por meio do escracho e da confusão”. Para essas pessoas, diz, “não importa se as informações são verdadeiras ou falsas, desde que haja profusão de informações, provocando uma exaustão que impeça de categorizar o que é verdadeiro e o que é falso”.

    Um governo ‘desinformador’

    Para Bucci, a desinformação é uma marca distintiva deste governo.

    “Nem mesmo os apoiadores de Bolsonaro o levam tão a sério. A equipe de governo é obrigada a fazer correções em cima de declarações importantes do presidente. Isso mostra que, para eles, desmentir o presidente é um expediente de rotina. Nem eles mesmos levam tão a sério o que o presidente diz”, afirma o professor.

    Tai Nalon concorda com a percepção de Bucci a respeito da desinformação oficial. “O próprio governo às vezes sequer se propõe a desmentir esses fatos criados de maneira acelerada. Não é cortina de fumaça nem sequestro de agenda, é simplesmente vencer as pessoas pela exaustão, é ter um ambiente informativo muito acelerado, no qual não há capacidade de entendimento e de aprofundar qualquer assunto”.

    O discurso sobre o ‘politicamente correto’

     

    O presidente da República mistura postagens de humor com anúncios políticos sérios, tornando tênue a separação entre essas duas vozes concentradas na mesma conta.

    Bucci acredita que o discurso em que Bolsonaro criticou o “politicamente correto”, no parlatório do Palácio do Planalto, no dia 1º de janeiro, contém a chave para entender essa confusão de papéis e de discursos.

    “Quando Bolsonaro critica o ‘politicamente correto’, ele reivindica para si uma liberdade de expressão que é própria dos artistas, dos criadores, dos apresentadores de stand up comedy”, diz Bucci. “Mas o problema do politicamente correto se instala no campo da arte, não no campo da política. Então, ele [Bolsonaro] quer licença em relação ao politicamente correto por quê? Ele quer fazer piada de mau gosto? Por que ele quer faltar com respeito? Ora, qualquer coisa nessa linha fere os protocolos e não apenas a liturgia do cargo, não apenas o código de ética da alta administração pública, mas também o próprio decoro que deve pautar a conduta das autoridades públicas”.

    Para Bucci, o terreno da alta política “é o terreno, por excelência, do politicamente correto. O politicamente correto, no Estado, não apenas não é um problema, como ele é uma solução e é necessário”.

    “Se o presidente não pretende fazer comédia, não pretende fazer monólogos ou escrever romances, por que querer a abolição do politicamente correto? Isso seria a própria abolição da política. É um exemplo de que ele não entendeu do que se trata. Então, quando ele posta uma bobagem – e ele faz isso todos os dias – é mais um sinal de que ele não entendeu do que se trata”, afirma.

    Como o Twitter lida com a questão

     

    O Nexo perguntou ao Twitter como a empresa vê o papel desses perfis no ambiente informativo atual. A resposta foi: “No intuito de proteger a experiência do usuário, o Twitter tem regras que estabelecem os conteúdos e comportamentos permitidos na plataforma. Eventuais violações a essas regras estão sujeitas à aplicação das medidas cabíveis”.

    A empresa também apresentou o link que contém a informação padrão sobre as regras para abertura de contas de sátiras e paródias. Nesse link, o Twitter diz que respeita “imensamente o direito de expressão dos usuários”, que são “totalmente responsáveis pelo conteúdo que publicam”.

    Para abrir uma conta de paródia, há apenas duas condições: que o perfil tenha uma descrição explícita informando tratar-se de “paródia” ou “falso/fake”, e que o nome do perfil não seja idêntico ao nome do veículo ou da pessoa parodiada.

    O site também diz que não faz um monitoramento ativo das infrações, mas apenas reage a denúncias encaminhadas por outros usuários, através dos canais disponibilizados na própria plataforma.

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