Por que conteúdos de jornais são usados em vestibulares

Provas que garantem vagas em grandes universidades públicas utilizam a produção de veículos de notícias na elaboração de suas questões

 

Os mais de 4 milhões de estudantes que prestaram o Enem em 2018 tiveram que escrever uma redação sobre o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Para ajudar na argumentação, a prova disponibilizou quatro textos motivadores, sendo três deles trechos de conteúdos publicados nos veículos El País, BBC e Outras Palavras.

A prova do ensino médio, que é usada como etapa de seleção para o ingresso em diversas universidades, está alinhada com outros processos seletivos. O uso de conteúdos jornalísticos na elaboração das provas é comum nos grandes vestibulares, que garantem vagas em instituições públicas e privadas.

A Fuvest, prova de seleção para a USP, utilizou na edição 2019 um texto do Nexo no qual o curador e antropólogo Hélio Menezes faz uma análise das obras da exposição “Histórias afro-atlânticas”. O trecho, que analisava a obra “Amnésia”, de Flávio Cerqueira, foi utilizado como apoio para a produção da redação de tema “A importância do passado para a compreensão do presente”.

No início de 2018, o vestibular também utilizou um conteúdo do Nexo: parte da entrevista da curadora Solange Farkas serviu de apoio para uma dissertação que questionava os limites da arte. Na primeira fase da Unicamp deste ano, um texto da colunista do jornal Lilia Schwarcz foi utilizado em uma questão de português.

Foto: Reprodução
Artigo da colunista Lilia Schwarcz em questão de português da Unicamp 2018
Artigo da colunista Lilia Schwarcz em questão de português da Unicamp 2018
 

Algumas provas, como a da Unicamp, também cobram formatos típicos do jornalismo em suas redações. Desde 2011, quando houve uma mudança na estrutura do vestibular, estudantes já tiveram que escrever artigos de opinião, uma carta de um leitor a um jornal e um texto de divulgação científica.

O coordenador executivo da Comvest (Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp), José Alves de Freitas Neto, explica que os vestibulares usam esses conteúdos como uma forma de adequar a linguagem da prova ao repertório cultural que está disponível para os estudantes.

“Se espera que essa pessoa que está pleiteando uma vaga no ensino superior tenha conhecimento e domínio do mundo que está ao seu redor, o que é feito por meio do contato com a mídia e o jornalismo”, afirma. 

O uso de recursos do campo jornalístico-midiático na educação está previsto nas Diretrizes do Ensino Básico do Brasil e foi recentemente reforçado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da etapa básica, aprovada em 2017.

O documento, que estabelece um conjunto de aprendizagens essenciais e indispensáveis para o ensino nacional, afirma que a exploração dos discursos da mídia informativa na escola é responsável por:

  • Propiciar experiências que permitam desenvolver nos adolescentes e jovens a sensibilidade para que se que acontecem na sua comunidade, na sua cidade e no mundo e afetam as vidas das pessoas
  • Fazer com que os estudantes incorporem em suas vidas a pertencentes a gêneros da esfera jornalística em diferentes fontes, veículos e mídias
  • Permitir que os estudantes para se situar em relação a interesses e posicionamentos diversos e possam produzir textos noticiosos e opinativos e participar de discussões e debates de forma ética e respeitosa

Argumentação e crítica

Para Freitas Neto, “o contato com linguagens midiáticas é fundamental para a formação do repertório cultural e informativo do estudante que quer conseguir uma vaga”.

Uma pesquisa do Datafolha publicada em 2016 mostrou que estudantes que acompanham o noticiário se saem melhor na Fuvest, o vestibular mais concorrido do país. Segundo o estudo, 85% dos aprovados na USP naquele ano são leitores de sites jornalísticos. O número cai para 78% entre os reprovados.

“O aluno que lê jornais tem uma opinião mais consolidada e consegue construir melhores argumentos na prova”, afirma a coordenadora de redação do colégio Poliedro, Fabiula Neubern. No colégio e curso preparatório para o vestibular, jornais são oferecidos como material de estudo para os alunos.

Além de se atualizar sobre os acontecimentos mais importantes, o estudante também entra em contato com diferentes formatos textuais que são cobrados pelas provas. “O aluno pode, por exemplo, usar o conteúdo de um infográfico como um dado estatístico. Ou então aproveitar citações de colunistas para a construção de argumentos de autoridade em uma dissertação”, afirma.

Não é só a redação ou as questões de ciências humanas ou linguagens que podem abordar conteúdos jornalísticos. Na segunda fase da Unesp 2018, por exemplo, um gráfico do Nexo foi adaptado em uma questão de matemática, na qual os estudantes deveriam interpretar os dados apresentados e aplicá-los em duas questões sobre porcentagem.

Foto: Reprodução
Gráfico do Nexo utilizado em questão de matemática na segunda fase da Unesp 2018
Gráfico do Nexo utilizado em questão de matemática na segunda fase da Unesp 2018
 

Neubern também ressalta que é importante que os estudantes explorem as notícias de maneira crítica. “Não adianta só ler a manchete, é necessário perceber os diferentes olhares que são dados para cada matéria e por cada veículo, analisando os contextos em que eles estão inseridos.”

Educação midiática

Segundo Claudemir Edson Viana, coordenador da Licenciatura em Educomunicação da USP, o uso do jornalismo na educação é uma das formas de se promover a “educação midiática” – uma série de técnicas para ensinar estudantes e a sociedade de forma geral a usar os suportes midiáticos e tecnológicos de modo responsável.

A Educomunicação é um dos campos de pesquisa que explora a relação entre mídia e a educação para potencializar a capacidade de expressão das pessoas, facilitar o entendimento sobre como os meios de comunicação funcionam e permitir um empoderamento frente às tecnologias de informação.

“O contexto cibercultural fortemente presente no cotidiano de todos exige dos sujeitos muitas habilidades que precisam ser qualificadas para o uso crítico e criativo da comunicação”, afirma Viana.

O avanço das tecnologias de comunicação e informação também permitiu que novos veículos jornalísticos ganhassem relevância diante de meios tradicionais, o que se reflete nas provas de ingresso a universidades. “Há uma tendência nos vestibulares de explorar novas fontes de informação para criar contrapontos argumentativos, que são muito bem-vindos e necessários”, explica Freitas Neto, da Unicamp.

Segundo ele, além do contato com o jornalismo, é necessário que o estudante esteja atento às novas linguagens que surgiram e circulam nas redes sociais, como os memes, que também podem ser abordados de forma crítica pelos avaliadores.

5 dicas para estudar com jornais

Fabiula Neubern, do Poliedro, indica, a seguir, formas como os estudantes podem usar conteúdos jornalísticos na preparação para os vestibulares.

  1. para identificar quais temas e assuntos estão em destaque no debate público
  2. Ao ler um artigo ou notícia, e quais argumentos o autor utilizou para defendê-los
  3. Procure sempre como saúde, educação, violência, cultura, habitação e democracia
  4. , em caso de versões digitais. Algumas provas podem cobrar esses formatos em suas redações
  5. . Muitas vezes eles demandam menos tempo de quem os consome e possuem uma linguagem mais divertida

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