Ir direto ao conteúdo

O discurso linha dura e de austeridade na posse dos governadores

Parte dos novos chefes de Executivo, que na campanha se inspiraram no estilo Bolsonaro, levaram para a cerimônia o tom que marcou as eleições

     

    Parte dos 27 governadores eleitos em 2018 levou para a cerimônia de posse nesta terça-feira (1º) um discurso alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, com ênfase numa agenda de viés liberal na economia e de rigor no combate à violência.

    O tema da segurança pública foi mais relevante, por exemplo, nos discursos iniciais dos governadores de São Paulo e Rio. Já em Minas e Santa Catarina, os novos chefes de Executivos estaduais enfatizaram a necessidade de reequilíbrio fiscal e de corte de gastos, reflexo da crise financeira que atinge a maioria das unidades da federação.

    Em comum, esses novos governadores sinalizaram apoio ao governo Bolsonaro. Afirmaram também que ouviram “o recado das urnas” e, mesmo aqueles com longa carreira pública, disseram representar o desejo do eleitor por renovação na política. Para isso, prometeram medidas de combate à corrupção, de redução de gastos e fim de “mordomias”.

    Os governadores linha dura

    João Doria, em São Paulo, e Wilson Witzel, no Rio, estão entre aqueles que mais se inspiraram no estilo Bolsonaro durante a campanha. Eles defenderam iniciativas semelhantes às do capitão reformado na segurança, como a permissão para que a polícia atire para matar em confrontos e declarando apoio a medidas que Bolsonaro pretende apresentar, como proibir saídas temporárias de presidiários e reduzir a maioridade penal, atualmente em 18 anos.

    São Paulo: João Doria

    Ex-prefeito paulistano, o novo governador de São Paulo foi o tucano que mais vestiu o figurino de Bolsonaro. João Doria repetiu nos dois discursos oficiais que fez nesta terça-feira (1º) as críticas ao PT e a promessa de rigor no combate ao crime organizado. Na economia, ele mencionou um amplo programa de privatizações.

    “[Vamos] fazer concessões e privatizações. Sem medo de cara feia. Sem medo de bandeiras vermelhas. (...) Não tenho medo nem daqueles que estão no Legislativo, nem os que estão fora do Legislativo, nem os que estão na cadeia. Porque a partir de agora São Paulo vai mudar. Tem comando e o comando será exercido pelo governador eleito. (...) Vamos, sim, melhorar a saúde, a educação e a segurança pública, as três principais prioridades do nosso estado”

    João Doria

    governador de São Paulo, em discurso na Assembleia Legislativa

    Na Assembleia Legislativa, Doria falou para deputados estaduais e prefeitos, e no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo, empossou seus secretários. Apresentando-se como novo na política, Doria afirmou que vai “aposentar a velha política”. A eleição de Doria simboliza o sexto mandato consecutivo do PSDB à frente do Palácio dos Bandeirantes.

    Com um discurso mais acentuado à direita, o novo governador disse que pretende aproximar o PSDB dos anseios do eleitor e dar visibilidade nacional à sua gestão. Em parte, a fala de Doria reflete seu desejo de disputar a Presidência em 2022.

    “O governo de São Paulo não vai virar as costas para o Brasil. (...) E o meu partido, o PSDB, também não vai virar as costas para os brasileiros. Os partidos, como os governos, precisam de novas posições, novos compromissos, novos projetos, e terem coragem de mudar (...). Nada de apego ao passado. E o PSDB, meu partido, será um exemplo disso porque vai mudar e vai mudar para sintonizar à realidade da população do estado de São Paulo. E se souber fazer isso em São Paulo saberá fazer também no Brasil”

    João Doria

    governador de São Paulo, em discurso no Palácio dos Bandeirantes

    Rio de Janeiro: Wilson Witzel

    Estreante em eleições, o ex-juiz federal Wilson Witzel, eleito pelo PSC, comandará um estado que teve os dois últimos governadores presos em razão de denúncias de corrupção, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, ambos do PMDB. O combate aos desvios foi marcante no discurso de posse. Aos seus secretários, Witzel afirmou que não o governo não tem “o direito de errar”.

    “É chegada a hora de libertar o estado da irresponsabilidade e da corrupção que marcaram as duas últimas décadas da política estadual. Sob a proteção de Deus, eu renunciei a uma carreira, à toga, à magistratura federal; e iniciei uma jornada que simboliza todo o meu amor e a minha indignação com tudo o que vimos e ouvimos”

    Wilson Witzel

    governador do Rio, em discurso na Assembleia Legislativa

    Witzel falou também da necessidade de recuperar as finanças do estado, que passa por grave crise administrativa, e da reorganização da segurança pública. Em 31 de dezembro de 2018 foi encerrada a intervenção militar na segurança, decretada pelo ex-presidente Michel Temer.

    “Vamos reorganizar as estruturas policiais para serem capazes de investigar e de prender aqueles que comandam o crime organizado e fazem da lavagem de dinheiro a fonte que abastece o comércio de drogas e armas e a desgraça e o câncer da corrupção. (...) Cidadãos fluminenses, não permitirei a continuidade desse poder paralelo. (...) São narcoterroristas e como terroristas serão tratados”

    Wilson Witzel

    governador do Rio, em discurso na Assembleia Legislativa

    Goiás: Ronaldo Caiado

    Ex-deputado federal por cinco mandatos, senador pelo DEM e produtor rural, Ronaldo Caiado já tinha quando parlamentar um discurso de defesa de mais rigor na punição a criminosos. Como governador, afirmou que mudará a carreira dos policiais militares como sinal de incentivo à categoria.

    “Não teremos tolerância com a criminalidade e com tanta ousadia da bandidagem em nosso estado”

    Ronaldo Caiado

    governador de Goiás, em discurso na Assembleia Legislativa

    Na cerimônia, Caiado disse que representou o desejo de mudança do eleitorado goiano. O novo governador derrotou José Eliton, que buscava a reeleição, colocando fim a duas décadas de gestão do PSDB no estado. Caiado prometeu resgatar a credibilidade da classe política. Segundo ele, já na fase inicial da gestão vai assinar decretos para cortar gastos do governo.

    “[As bases do governo são] Tolerância zero com a corrupção. Segundo: valorização do servidor público. (...) Ao mesmo tempo, combater as desigualdades regionais. (...) Quero dizer que esta velha política foi sepultada”

    Ronaldo Caiado

    governador de Goiás, em discurso na Assembleia Legislativa

    O foco na austeridade e na economia

     

    Governadores que, na campanha, também recorreram a um discurso mais conservador e linha dura, na posse priorizaram a temática administrativa. Com cerimônias mais céleres, seguiram essa linha também os governadores Wilson Lima, do Amazonas, e Antonio Denarium, de Roraima.

    As questões econômica e fiscal foram unânimes também nos discursos de governadores de outras regiões e filiados a partidos de esquerda e centro-esquerda, como Rui Costa, na Bahia, e Camilo Santana, no Ceará.

    Minas Gerais: Romeu Zema

    Novo governador de Minas, Romeu Zema é estreante na carreira política, a exemplo de seu partido, o Novo. Empresário, Zema foi o primeiro e único governador eleito pela legenda, de viés liberal, que defende um estado enxuto, privatizações e novas práticas de gestão administrativa.

    “A situação do nosso Estado é de falência. A falta de austeridade dos últimos anos levou o Governo de Minas a um ponto sem volta”

    Romeu Zema

    governador de Minas, em discurso na Assembleia Legislativa

    Zema falou sobre a necessidade de aprovar reformas para poder pagar os salários dos servidores em dia. A jornalistas, antes da posse, Zema falou em abrir a “caixa-preta” das finanças do estado, renegociar a dívida com o governo federal e reduzir gastos públicos, cortando “mordomias, luxo e desperdícios”.

    “Passaremos por tempos difíceis, em que reformas administrativas e fiscais terão de ser levadas adiante, para que os servidores possam receber seus salários conforme determina a lei. (...) E a primeira e mais fundamental atitude a ser tomada é a de reduzir despesas, cortando na carne”

    Romeu Zema

    governador de Minas, em discurso na Assembleia Legislativa

    Santa Catarina: comandante Moisés

    Mesmo partido de Bolsonaro, o PSL, Carlos Moisés da Silva foi eleito pela primeira vez. Comandante Moisés, como é conhecido por ser coronel da reserva do Corpo de Bombeiros, ele tem perfil conservador, é favorável à pena de morte e à flexibilização do estatuto do desarmamento – pauta também defendida pelo novo presidente.

    Na sua posse, afirmou que sua atenção estará voltada às políticas públicas que busquem investimento e melhorem a execução dos serviços públicos. Sinalizou que fará reformas para reduzir gastos com pessoal e Previdência.

    “O governo começa com uma grande reforma, cujo foco será ajustar a gestão em áreas vitais. A economia gerada nos processos irá alavancar o poderio de investimento do estado”

    Carlos Moisés da Silva

    governador de Santa Catarina, em discurso na Assembleia Legislativa

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!