Por que a astrologia é popular entre millennials e geração Z

Consulta a profissionais e sites especializados em astrologia aumentam próximo ao Ano Novo. Astrólogos falam ao ‘Nexo’ sobre as razões do interesse renovado entre os jovens

     

    A jornalista mineira Malú Damázio conta que se interessa por astrologia desde pequena, quando lia os horóscopos semanais da revista W.i.t.c.h, que de 2002 a 2010 publicou reportagens sobre esoterismo, superstição, bruxaria e feitiços voltadas ao público pré-adolescente.

    Ela deixou de ler as revistas quando adulta e passou a consultar uma astróloga — com a qual, no fim de 2018, planejou como será o novo ano, a partir de previsões daquilo que, segundo ela, os planetas reservam para seu futuro.

    Damázio não é a única entre jovens da geração millennial (nascidos entre o início dos anos 1980 até a metade dos 1990) e da geração Z (a partir do meio da década de 1990) que, no Réveillon e durante todo o ano, estão recorrendo à astrologia como tentativa de compreender a si e o mundo.

    Desde meados dos anos 2010, o interesse renovado em astrologia provoca o que alguns têm chamado de nova “Era de Aquário”, momento nos anos 1960 e 1970 adotado pela geração de jovens que, cansados dos conflitos e opressão das guerras no século 20, começaram a se interessar pelo místico, a liberdade e a “emancipação” do pensamento.

    O que é a astrologia, além do horóscopo

    Criada por volta de 3.000 a.C., a astrologia entende que a ação dos corpos celestes e os ângulos aparentes entre os planetas no céu afetam os fatos na Terra, tanto objetos quanto a humanidade, incluindo a personalidade, o humor e destino das pessoas.

    A astróloga Bruna Paludo, que acumula mais de 25 mil seguidores nas redes sociais compartilhando previsões e memes sobre astrologia, considera o ofício uma linguagem, uma maneira simbólica de “estudar os ciclos” da vida das pessoas e dos eventos do mundo.

    “É uma arte milenar”, disse ao Nexo. “É muito antigo isso de a gente olhar para o céu e procurar entender o que acontece em nossa vida aqui.”

    Para entender

    Eclíptica

    A origem da astronomia e astrologia está na eclíptica, uma linha imaginária que indica o ‘caminho’ que o Sol faz ao cruzar o céu, do ponto de vista de um observador da Terra. Esse movimento é apenas aparente, pois não é o Sol que se move, mas a Terra ao seu redor. A Lua e alguns planetas do Sistema Solar também orbitam nessa faixa, que serve de ponto de partida para o sistema de coordenadas celestiais.

    Constelações

    As constelações são áreas da esfera celeste delimitadas em torno de padrões formados por algumas estrelas. Existem 88 constelações definidas pela União Astronômica Internacional, sendo 13 delas atravessadas pela eclíptica — ou seja, alinhadas com o “caminho do Sol”. Durante o ano, essas constelações se movimentam pelo céu.

    Zodíaco

    As constelações que cruzam a eclíptica compõem o zodíaco astronômico. O zodíaco da astrologia difere do astronômico porque se baseia numa divisão de 12 partes iguais da eclíptica, enquanto a astronomia faz 13 divisões de diferentes tamanhos, incluindo a constelação Serpentário. Para a astronomia, o zodíaco é o grupo de constelações vistas na faixa da eclíptica. Para a astrologia, corresponde a um conjunto de signos (como Áries, Touro, Gêmeos, Câncer etc.)

    Mapa astral

    A partir da mesma faixa zodiacal, a astrologia cria o mapa astral, um diagrama que funciona como um “retrato do céu” — dos planetas — no momento de nascimento de uma pessoa. O horóscopo é composto de elementos como signos (que indicam a identidade), planetas (que representam faculdades como sentir e raciocinar) e casas (que indicam os momentos da vida e os afazeres a que uma pessoa se propõe).

    A busca do autoconhecimento

    Antes do novo “boom” em 2010, a astrologia era popular em jornais e revistas femininas, com previsões e conselhos genéricos para pessoas de cada um dos 12 signos.

    Com a popularização do assunto e do conhecimento de outros elementos do mapa astral, jovens têm buscado astrólogos com o objetivo de conhecer mais de si mesmos.

    Malú Damázio diz que, ao fazer seu mapa astral — que traça sua personalidade — ou seu mapa da revolução solar — que mostra o panorama de sua vida por 12 meses, desde um aniversário até o seguinte —, busca uma “orientação”, um “cenário para caminhar”.

    Há diversas maneiras de se dar sentido e uso aos conhecimentos astrológicos, diz a astróloga Bruna Paludo. No caso de Damázio, a prioridade é saber menos de si e mais do cenário dos planetas para sua vida. “Mas a astrologia moderna é muito focada nos signos”, diz. “Tem a ver com ‘eu sou muito isso’. É como um teste do BuzzFeed, se identificar com alguma coisa.”

    As razões para a ‘nova era de Aquário’

    “As pessoas costumam procurar a astrologia quando estão passando por momentos de crise, de transição” — geralmente no plano pessoal, mas também influenciadas pelo cenário na sociedade, diz Paludo. “Além de tudo estar mudando, estamos numa era de hiperinformação, ‘fake news’. Nada faz sentido. A astrologia parece que filtra, dá esse sentido.”

    A busca pela astrologia como forma de “se encontrar” reflete também uma “carência religiosa” das novas gerações, afirma a astróloga. “Não considero a astrologia religião, porque não é uma igreja. Mas ela nos conecta com a espiritualidade, fala das coisas ocultas, sacia o desejo pelo mistério — aquilo que não conhecemos, mas sabemos que existe.”

    Damázio diz ser cética com religiões — “tenho até vergonha de dizer que gosto de astrologia por causa disso”, conta a jornalista. Segundo ela, o interesse pelos planetas surgiu porque, ao contrário de religiões tradicionais, como o cristianismo, o estudo dos astros não é “dogmático” nem usado para “impor normas”.

    “A religião não consegue mais acolher as pessoas por causa dos moralismos, dos dogmas. A astrologia não moraliza, não julga, não diz o que é certo e errado. Não é errado ser gay na astrologia. Você pode tudo. Você aprende a respeitar e amar a si mesmo, seus processos”

    Bruna Paludo

    astróloga e ‘influencer’

     

    A alta conectividade como fator

    A internet ajudou a alavancar a popularidade do assunto. Tanto Bruna Paludo em suas redes quanto outros astrólogos famosos em sites especializados — dois exemplos são João Bidu, no Brasil, e Susan Miller, nos EUA — expandiram conhecimentos sobre o tema de maneira simples, rápida e acessível. No caso de Miller, seu site registra cerca de 100 milhões de visualizações anuais.

    “Acho que a astrologia e a internet, os memes, são um casamento perfeito”, diz Paludo. “Ao mesmo tempo em que a astrologia é genérica [os arquétipos são aplicáveis a muitas pessoas], ela nos fala de sentimentos, nos dá uma sensação de pertencer a algum lugar. Ela também é muito rica em símbolos e imagens. Está em memes, poesia, ilustrações, letras de música… É uma forma de falar das pessoas.”

    Segundo Antonio Facciollo, presidente do Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo, a internet é “folclórica” e contém “besteiras”, mas ao mesmo tempo é boa por “despertar a curiosidade”. “Depois da internet, a pessoa pode ir a um bom astrólogo”, disse ao Nexo.

    A astrologia e a ciência

    A astrologia surgiu na Antiguidade, foi estudada por cientistas como o grego Aristóteles e era indissociável da astronomia até o século 18. No entanto, com o avanço de descobertas astronômicas, a comunidade científica chegou a um consenso de que não existe base empírica para a influência da posição dos astros sobre o comportamento humano.

    No documentário “Inimigos da razão” (2007), estrelado pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins, o apresentador descreve a astrologia como uma pseudociência que “cria estereótipos sem fornecer evidências”, mencionando um estudo que refutou sua confiabilidade.

    Ao contrário da astronomia, que desde que surgiu manteve o status de ciência — porque estuda o universo e os corpos celestes do ponto de vista físico —, a astrologia não incorporou teorias como a gravitacional e a eletromagnética e “assume [erroneamente] que a Terra está no centro do universo, rodeada pelo Zodíaco”, diz o astrônomo Kepler de Souza Oliveira, em artigo para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

    5 estudos

    Divórcios

    Em pesquisa sobre o casamento e divórcio de mais de 3.000 casais, o psicólogo Bernard Silverman, da Universidade de Michigan, nos EUA, não encontrou correlação entre esses eventos e as previsões registradas nos horóscopos de compatibilidade ou incompatibilidade entre signos solares. No livro “A interpretação da natureza e da psique”, (1971), o psicólogo suíço Carl Jung tampouco encontrou correlação.

    Duplo-cego

    Em um experimento de 1985 com 28 astrólogos, o físico Shawn Carlson, da Universidade da Califórnia, propôs um teste duplo-cego em que voluntários respondiam a um questionário sobre sua personalidade e, depois, forneciam informações para que a equipe produzisse seu mapa astral. A proposta era que, no fim do processo, diante de três questionários do tipo, os astrólogos dissessem qual deles estaria associado a determinado mapa. A organização dizia que sua taxa de acerto ultrapassaria 50%, mas o resultado foi de 34% de associações — a probabilidade, numa escolha ao acaso entre três, é de 33% de acerto.

    Efeito errado

    O ilusionista James Randi, em um experimento em um colégio, disfarçou-se de astrólogo e fingiu fazer leituras de mapa astral dos estudantes a partir de informações como local e horário de nascimento. Ao conferir a leitura de personalidade, os estudantes as consideraram muito precisas. Randi pediu então que cada um mostrasse sua descrição ao colega ao lado. Feito isso, todos perceberam que os textos eram iguais, escritos de forma vaga o bastante para se aplicarem a uma grande quantidade de pessoas. Essa técnica tem um nome — efeito Barnum ou efeito Forer, a depender do texto que se lê.

    90% falso

    No livro “Astrology: True or False” (1988), os astrônomos Roger Culver e Philip Ianna registraram as previsões de astrólogos e organizações astrológicas conhecidas durante cinco anos. De 3.000 previsões envolvendo políticos, atores e pessoas famosas, 10% se concretizaram.

     

    A procura pela astrologia no Ano Novo

    “Fim de ano é nossa Copa do Mundo”, diz Bruna Paludo, para quem, de fato, a astrologia não pode ser tratada como ciência, numa posição que não é compartilhada por todos os colegas que lidam com a área. “Existem inúmeras coisas no mundo que não são científicas, mas que fazem bem às pessoas. Para mim, astrologia é arte. E isso não a torna inválida”.

    Paludo afirma que, mesmo não sendo dezembro o fim do ano astrológico — que termina quando o Sol entra no signo de Áries, em março —, “é uma tradição”, nesta época, as pessoas a consultarem mais. É um ritual que, segundo a astróloga, serve para “tirar lições” e “se preparar energeticamente” para um “novo ciclo”.

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