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Os sucessos e desastres de 2018, na visão de 5 especialistas

O 'Nexo' pediu que pessoas de diferentes áreas destacassem os altos e baixos na cultura pop, tecnologia, política, ciência e sociedade

 

Como você prefere olhar para 2018? Cada ano que passa pode ser revisto em diferentes recortes. Aqui no Nexo oferecemos algumas opções:

  • O Extratos da Semana relembra importantes fatos políticos e sociais que marcaram o ano. Entre eles, a guinada do Brasil para a direita e a extrema direita; o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
  • O núcleo de Gráficos repassou 2018 por meio de diversas visualizações de dados. Neles, é possível verificar uma série de fenômenos, como o desempenho do Palmeiras durante o Campeonato Brasileiro, a dominação do Spotify por Anitta e a lenta e certeira ascensão de Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.
  • A seção Interativo traz um quiz em que o leitor é desafiado a lembrar detalhes sobre fatos e eventos do ano, do hit viral de Mc Loma e as Gêmeas Lacração ao questionamento de Mark Zuckerberg no Congresso americano.

Para complementar esses olhares no retrovisor, o Nexo pediu a cinco pessoas de áreas diferentes que trouxessem sua visão sobre o ano que se encerra. Cada um citou um sucesso e um desastre do período dentro de cinco áreas

Cultura pop

Cris Naumovs

diretora de conteúdo e fundadora do Bloco do Apego, falou do movimento de reação das mulheres contra o assédio e o abuso dentro da indústria cultural

“Em 2018, uma tragédia silenciosa foi um dos maiores movimentos que reuniu estrelas do cinema em torno de um assunto quase sempre secreto: assédio sexual e #metoo. Foi muito duro ouvir as histórias de Tarana Burks, a mulher que criou o Me Too em 1996, mas que viu virar uma hashtag gigantesca e poderosa em 2018, capaz de derrubar Harvey Weinstein, produtor de sucessos do [Quentin] Tarantino, por exemplo. Uma história que Hollywood toda parecia saber, mas que ninguém ousava falar alto, com medo de sofrer represálias. Vivemos um ano em que nós, mulheres, estamos aprendendo a força de encontrar as nossas vozes, de saber que não estamos sozinhas nessa treta gigantesca. E ganhamos uma certeza: a culpa nunca é da vítima.

Ao mesmo tempo, seguimos no Brasil achando que Silvio Santos tem salvo conduto para assediar mulheres e crianças em rede nacional (numa concessão pública, sempre bom lembrar). Talvez seja mesmo a hora de ele entender que esse tempo em que ele vive, em que ser escroto era natural, terminou.”

Tecnologia

Ronaldo Lemos

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e colunista da Folha de S.Paulo, ele destacou a inteligência artificial e a tensão geopolítica entre EUA e China

“Um sucesso do ano foi a consolidação da inteligência artificial como nova tecnologia do momento. Ela está cada vez mais presente hoje nas nossas vidas, ajudando a autocompletar nossos e-mails, nos assistentes de voz, melhorando a eficiência da chamada “economia compartilhada” e assim por diante. O desafio é que toda empresa terá de se adaptar a esse novo modelo.

Um desastre é a guerra comercial entre Estados Unidos e China, que está derrubando as bolsas do mundo todo. Uma das principais motivações é tecnológica e os dois países poderiam criar um ambiente global de cooperação para o desenvolvimento tecnológico, que fosse complementar e permitisse agregar outros países nesse esforço, inclusive no âmbito da inteligência artificial. No entanto, em 2018 houve movimentos no sentido de isolamento e disputa, e os mercados e o ambiente geopolítico sentiram isso negativamente.”

Política

Jairo Nicolau

cientista político e professor do departamento de Ciência Política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), considerou as eleições como desastre e sucesso do ano.

“No começo do ano, muitos acreditavam que sequer teríamos eleições esse ano. Durante a campanha, Bolsonaro e seus apoiadores disseram que não reconheceriam a derrota e sustentaram que a urna eletrônica podia ser facilmente adulterada.

Apurados os votos, mais uma vez, a vitalidade do processo eleitoral brasileiro foi revelado. A taxa de abstenção e votos nulos e em branco mantiveram-se no patamar de anos anteriores. A campanha foi bem mais barata do que as feitas na era do financiamento empresarial. E mais uma vez, os detratores da urna eletrônica ficaram em silêncio.

Entre os aspectos negativos da disputa de 2018 destaco a violência política, que saiu das redes sociais para as ruas; a incapacidade de a Justiça Eleitoral lidar com ampla difusão de fake news; a invasão das universidades por causa de supostas propagandas partidárias em diversos estados, a poucos dias antes do segundo turno.”

Ciência

Lygia da Veiga Pereira

cientista da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora pioneira de células-tronco no Brasil, apontou para a pesquisa com embriões e o duvidoso anúncio de edição genética de um cientista chinês

“Um sucesso que marcou o ano foi o desenvolvimento de técnicas para se cultivar o embrião humano in vitro, para além do que a gente conseguia, que eram cinco ou seis dias. Grupos na Inglaterra têm conseguido fazer isso por até o 14º dia do desenvolvimento. Eles têm conseguido com que células-tronco reproduzam esse início do desenvolvimento embrionário in vitro, fazendo esses embriões artificiais. O que é muito importante é que a gente consegue enxergar pela primeira vez o desenvolvimento embrionário humano, em que uma célula eventualmente vira uma pessoa. A gente conhece esse processo em organismos mais simples e essa possibilidade de gerar embriões a partir de células-tronco e levá-los até o dia 14 de desenvolvimento in vitro vai nos ensinar muito sobre o desenvolvimento embrionário humano.

O maior desastre foi o chinês [He Jiankui] que teoricamente utilizou o método de Crispr para editar o genoma de um embrião e transferiu esse embrião para um útero e, ainda teoricamente, nasceram duas gêmeas geneticamente modificadas. Se ele de fato fez isso, terá sido o maior desastre da história humana desde a bomba atômica, porque pela primeira vez alguém faz um mau uso da biotecnologia para o ser humano.”

Sociedade

Heloisa Starling

A divisão entre a população brasileira surpreendeu a professora de história da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Sua lembrança positiva vem de fora do Brasil.

“Tem vários desastres, mas vamos pensar nessa polarização, nessa violência e intolerância que marcaram a sociedade. Para mim foi uma surpresa, pelo menos para mim. Não fazia ideia de que uma sociedade pudesse ser tão conservadora ou intolerante. E isso dos dois lados. Você tem uma polarização muito grande que pode caminhar para manifestação de ódio.

A maneira como a sociedade portuguesa montou a geringonça e fez ela funcionar é uma coisa incrível. Inclusive serve de exemplo para o Brasil. Ela está fazendo lá exatamente o oposto que a antiga colônia. Quem sabe aprendemos com a antiga metrópole. Eles fizeram uma grande frente de vários partidos de centro-esquerda para governar Portugal. Quando o atual presidente de Portugal fez a articulação a la Tancredo [Neves], bem mineira, alguém disse para ele: “mas isso que você tá querendo fazer é uma geringonça. Ele comentou: “a ideia é essa mesmo”. E virou então o nome dessa frente que governa Portugal com muito apoio da sociedade. E essa geringonça mostra essa possibilidade de formar uma frente de centro-esquerda que seja capaz de garantir estabilidade política e levar à frente mudanças e preocupações sociais, que aqui no Brasil seria essencial, por sermos um país tão desigual. Penso que possa servir de inspiração para 2019.”

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