O mosteiro da Itália que pode virar polo da extrema direita

Ex-assessor de Trump e conselheiro eventual de Bolsonaro, Steve Bannon aluga construção medieval para erguer ‘academia’ conservadora internacional

     

    Um mosteiro medieval situado no meio da cadeia de montanhas de Ernici, no centro da Itália, a 825 metros de altura, deve virar, a partir de 2020, o mais influente centro de estudos da nova extrema direita populista no mundo.

    Esse é o plano do americano Steve Bannon e de um grupo de ativistas dedicados a promover o que eles mesmos classificam como uma onda conservadora e nacionalista, judaico-cristã e ocidental, que se opõe militantemente a tudo que seja percebido como o oposto disso.

    Bannon foi estrategista da vitoriosa campanha de Donald Trump à Casa Branca, em 2016. Ele também foi um dos mais conhecidos membros do site Breibart News – polo de difusão não apenas de posições de extrema direita, mas também de teorias conspiratórias e negacionistas, com grande influência sobre o conservadorismo americano e internacional.

    Após se desentender com Trump, em janeiro de 2018, Bannon passou a discursar em grandes eventos da extrema direita europeia, ganhando acesso a convenções partidárias e encontros de militantes especialmente na França.

    Em Paris, Bannon estreitou relações com Marine Le Pen, que, em maio de 2017, havia se firmado como a segunda maior força política francesa, ao disputar o segundo turno das eleições presidenciais com Emmanuel Macron, por quem foi derrotada por uma diferença de 31 pontos percentuais. Marie Le Pen é presidente do partido Frente Nacional e herdeira de uma corrente de extrema direita que começou a tomar a forma que tem hoje na França a partir do pai dela, Jean-Marie Le Pen.

    Bannon também manteve contato com membros da família Bolsonaro durante a campanha presidencial brasileira. Em agosto de 2018, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-RJ) – que é um dos filhos do presidente eleito, Jair Bolsonaro – esteve com Bannon em Nova York. Esses encontros se repetiriam desde então, incluindo uma participação na festa de aniversário de Bannon, em novembro de 2018.

    A ambição do americano é fazer das recentes vitórias eleitorais da extrema direita uma onda expansiva que reflita o que ele acredita ser o espírito do tempo que corre. E, para isso, a academia a ser criada no mosteiro italiano de Trisulti é fundamental.

    Na Itália, Bannon foi acolhido pelos expoentes da Igreja Católica que se opõem ao Papa Francisco. O think tank (centro de estudos) DHI (Instituto Dignitatis Humanae) teve papel relevante nessa ponte italiana com Bannon. Além disso, o papel central que Roma tem na cultura cristã se encaixa perfeitamente na estratégia do americano de lançar uma contra ofensiva religiosa e cultural contra tudo o que ele vê como uma ameaça: do extremismo islâmico às esquerdas e ao globalismo.

    Uma ‘escola de gladiadores’

    O jornal americano The Washington Post visitou o mosteiro de Trisulti e publicou uma reportagem sobre o local na terça-feira (25). O repórter Chico Harlam, que é chefe no escritório do jornal em Roma, foi ciceroneado na visita por um inglês chamado Benjamin Harnwell.

    Esse britânico converteu-se num importante parceiro e assessor de Bannon na Itália, abrindo portas dos diversos grupos católicos e ultranacionalistas europeus para o estrategista americano. Para ele, Bannon “é um gênio” e o mosteiro de Trisulti será convertido “numa escola de gladiadores para guerreiros culturais”.

    Harnewell foi assessor do parlamentar conservador Nirj Deva em Londres e em Bruxelas. Foi na capital da Bélgica – sede dos órgãos ligados à União Europeia – que ele disse ter testemunhado como o bloco é uma invenção perdulária. A luta dos ultranacionalistas europeus contra o bloco é uma das marcas mais características do movimento dos chamados “eurocéticos”.

    Ao ciceronear o Post na visita, Harnewell contou ao repórter que o grupo pretende inaugurar em Roma, em 2019, uma primeira filial da academia, como uma espécie de teste. O projeto todo terá o nome de Academia Judaico-Cristã Ocidental, em tradução para o português.

    O que há no mosteiro

     

    Trisulti fica a aproximadamente 100 km de Roma, na pequena comuna (cidade) de Collepardo, no local em que começam a se elevar os Montes Apeninos.

    O local é afastado o bastante para que os sinais de celular se tornem intermitentes e as estradas sejam eventualmente bloqueadas pelo trânsito de rebanhos de ovelhas pastoreadas por criadores locais.

    As fundações do mosteiro pertencem a uma antiga abadia da ordem dos monges beneditinos, e datam do ano 996. O local – convertido em monumento nacional da Itália em 1873 sem nunca deixar de ser um mosteiro – recebe visitantes do mundo todo, interessados na construção antiga, nas obras de arte sacra e nos afrescos que adornam cômodos da construção, como o antigo laboratório de farmácia mantido pelos monges.

    A construção reflete as “ambições grandiosas e a sustentação religiosa” do projeto de Bannon, disse Harnewell ao repórter do Post durante a visita.

    A reportagem cita também declarações de Bannon, segundo as quais o americano diz que nada do que ele está fazendo ali tem a intenção de produzir resultados imediatos. “É mais profundo, algo para ficar”, diz o americano.

    Bannon também afirma que pretende ensinar na academia teologia, filosofia, economia e história, além das “bases do populismo e do nacionalismo” e “as artes aplicadas das novas mídias”.

    Declínio e reinvenção do local

     

    Com o passar dos anos, a comunidade religiosa do mosteiro entrou em declínio, com os monges envelhecendo sem que fossem sucedidos em número suficiente pela nova geração. Tornou-se então difícil manter o local. O único religioso que ainda vive ali se chama Ignazio Rossi, e tem 83 anos.

    Atualmente, o grupo de Bannon paga um aluguel equivalente a R$ 445 mil anuais ao governo pelo uso do mosteiro, que está passando por reformas para que tenha banheiro nos quartos, internet, cobertura de celular e outras conveniências da modernidade.

    Harnewell contou que a reação da comunidade local em Collepardo foi “majoritariamente negativa” quando eles alugaram o mosteiro. O prefeito Mauro Bussiglieri afirmou que moradores não querem ver um local religioso convertido numa escola de políticos.

    O britânico diz, no entanto, que essa resistência da comunidade local foi cedendo aos poucos, especialmente depois da formação do novo gabinete de governo da It��lia, que, desde maio de 2018, conta com membros da extrema direita, como o ministro do Interior, Matteo Salvini, da Liga Norte. 

    O momento agora, diz Harnewell é de selecionar os professores. A academia não recebeu ainda qualquer acreditação dos órgãos de educação da Itália.

    Mesmo assim, o britânico disse acreditar que a partir de 2020 os estudantes subirão as montanhas para aprender e, no fim, descerão de volta às capitais do mundo, espalhando as ideias da extrema direita. “Você pode ver isso, com um pouquinho de imaginação”, afirmou Harnewell.

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