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O lugar de Miúcha na história da música brasileira

A 'musa da bossa nova' aproximou artistas e fez parcerias com nomes fundamentais da MPB . Cantora morreu em 27 de dezembro de 2018

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    O primeiro lançamento discográfico de Miúcha é evidência da capacidade que a cantora tinha de aproximar pessoas e promover parcerias. No compacto em vinil com quatro músicas, duas são parcerias de composição de João Donato, uma delas com Caetano Veloso (“Naturalmente”), a outra com Gilberto Gil (“Lugar Comum”).

    A cantora, lembrada como “musa da Bossa Nova”, morreu em 27 de dezembro de 2018. Ela tratava de um câncer no pulmão quando teve um parada respiratória e não resistiu. Nascida Heloisa Maria Buarque de Hollanda, em 1937, era irmã de Chico Buarque e filha da pianista Maria Amélia Cesário Alvim e do historiador Sérgio Buarque de Holanda.

    Embora Miúcha não tenha alcançado o sucesso de muitos de seus amigos e contemporâneos, ela foi figura central e atuante na cena musical brasileira por décadas.

    Em um post no Instagram em sua homenagem, Caetano Veloso destacou ocasiões em que Miúcha fez parte da aproximação dele com figuras importantes da música. Na primeira vez, quando Caetano conheceu João Gilberto, então marido de Miúcha. Depois, “nos aproximou de João Donato, com quem apareceu muitas vezes em meu apartamento na [avenida] Delfim Moreira [no Leblon]”. No texto, Caetano ainda lembra que “também foi com ela que Tom Jobim foi umas vezes nos visitar”.

     

    Gilberto Gil também lembrou da conexão com João Donato em seu Instagram: “Foi na casa dela que conheci João Donato. Foi para ela que fiz, com Donato, a canção ‘Lugar Comum’. Saudade danada dela. Miúcha de Bebel, de Chico, de todos os irmãos, da mãe, do pai, de todo mundo, e também de João Gilberto.”

    “Minha vocação é ser madrinha. Eu apresentei João Donato a Caetano e Gil. Conheci Donato nos Estados Unidos. Quando Donato voltou, promovi um encontro lá em casa. Desse encontro já saíram músicas pro meu disco. Caetano fez ‘Naturalmente’. Donato fez ‘Lugar Comum’, Gil botou a letra. Eu fui pra Bahia, voltei com a letra. Depois, apresentei Chico à Guinga [compositor e violonista], que foi uma das grandes surpresas musicais de minha vida”, disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2018

    Com João e Tom

    A cantora se casou com o cantor de “Chega de saudade” em 1965. A apresentação entre os dois foi feita pela cantora chilena Violeta Parra, no bar La Candelaria, em Roma.

    Segundo relato à jornalista Maria Lucia Rangel, amiga de Miúcha, depois do bar o grupo saiu “todos num único automóvel, e ela recebeu a proposta de João, irrecusável: ‘Quando o carro parar num sinal, você sai por uma porta e eu pela outra. E vamos correr’”.

    A união duraria até 1971, mas a amizade continuou. Em 1966, os dois tiveram a cantora Bebel Gilberto quando o casal vivia nos Estados Unidos. Ainda criança, Bebel acompanhava a mãe em apresentações e gravações (como em “O que quer dizer”, do compacto citado acima).

    Miúcha também começou cedo a transitar entre nomes importantes da música. Em reuniões musicais promovidas em casa, seu pai recebia artistas como Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes. Segundo contou em entrevista, Vinicius foi o responsável por despertar sua paixão pela música: “ele me deu os primeiros desenhos de violão”, contou à jornalista Maria Lucia Rangel.

    Seu primeiro álbum, “O Melhor dos Dois Mundos” (1975), foi feito em parceria com João Gilberto e o saxofonista americano Stan Getz. Seus dois discos seguintes, de 1977 e 1979, foram gravados em parceria com Tom Jobim. Os dois tinham participação de Chico Buarque.

    Segunda relata uma revista da época, a parceria com Tom Jobim foi iniciativa da cantora. “Um dia, Miúcha juntou toda a coragem que tinha e foi à casa de seu maior ídolo: Antonio Carlos Jobim. Ela queria uma música, um arranjo — uma ajuda, enfim — para um disco que iria gravar. Entusiasmado (...) Tom resolveu gravar o LP junto com a cantora”, diz o texto da publicação.

    Na contracapa do álbum com Tom de 1977, há um depoimento de Miúcha em que ela declara “Que maravilha viver no tempo de vocês. Quantidades industriais de amor”. 

     

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