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Como o Brasil tem transformado água salgada em potável

Técnica começou a ser testada no país na década de 1970 e é usada no Nordeste há mais de 20 anos. Jair Bolsonaro quer importar tecnologia israelense

 

De quatro em quatro anos, uma área do Nordeste é atingida pela seca. O número foi calculado pelo Projeto Áridas, levantamento realizado em 1995 pelo governo federal, estados e ONGs, que identificou 71 estiagens prolongadas na região ao longo de 294 anos de história.

A falta de água atinge mais de 23,5 milhões de pessoas que vivem no semiárido brasileiro, área que engloba oito estados num território pouco maior do que a Venezuela e que concentra apenas 3% das águas doces do país.

Desde os anos 1970, o Brasil vem experimentando transformar água salgada ou salobra (que possui sais ou substâncias que a tornam imprópria para o consumo) em água potável.

No semiárido, a técnica de dessalinização foi usada como política pública pela primeira vez em 1996, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por meio do Programa Água Boa. Em 2004, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reformulou a iniciativa ao lançar o Programa Água Doce. Ele passou a usar um método desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), órgão público vinculado ao Ministério da Agricultura.

Embora o país já possua a tecnologia e já a utilize no Nordeste há mais de 20 anos, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), afirmou na segunda-feira (25) que enviará o astronauta Marcos Pontes, futuro ministro da Ciência e Tecnologia, a Israel, para visitar instalações de dessalinização. Bolsonaro anunciou ainda que, em janeiro de 2019, construirá um projeto piloto no semiárido para beneficiar a agricultura familiar, sem especificar como será a iniciativa.

Israel já vinha oferecendo a tecnologia ao governo brasileiro antes mesmos das eleições de outubro, segundo este texto da Agência Brasil de janeiro de 2018.

As características do Nordeste

O semiárido no Brasil é o mais populoso e chuvoso do planeta, com pluviosidade média de 750 mm/ano (varia de 250 mm/ano a 800 mm/ano, dependendo da região). O problema é que as chuvas são irregulares e se concentram em apenas quatro meses, entre fevereiro e maio.

Outro agravante é a característica do subsolo: 70% de sua área é composta por rochas cristalinas pré-cambrianas, que dificultam a infiltração da água e a formação de mananciais. Além disso, o semiárido registra o avanço da desertificação (processo que leva à formação de uma paisagem árida).

Há depósitos de água subterrâneas em áreas sedimentares, de boa qualidade, em 40% do território nordestino. Nos 60% restantes, principalmente nos estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, os mais afetados pela seca, os solos são rasos, com água salgada ou salobra (os sais estão presentes na composição do solo).

A dessalinização no mundo

O método de dessalinização não é uma exclusividade de Israel. Segundo a Associação Internacional de Dessalinização (IDA, na sigla em inglês), o tratamento é utilizado em 150 países.

As primeiras experiências para converter água salgada em potável começaram em 1928, em Curaçao, uma ilha do Caribe. Na década de 1950, os cientistas C. E. Reid e E. J. Breton, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, desenvolveram o processo por osmose reversa. Na década seguinte, os pesquisadores Sidney Loeb e Srivasa Sourirajan, também nos Estados Unidos, criaram a primeira membrana para ser usada nesse processo. 

No método de osmose reversa, a água salgada é pressurizada para que passe pela membrana semipermeável em direção a outro recipiente contendo água pura, sendo, assim, filtrada. O processo remove até 99% dos sais dissolvidos.

Ainda nos anos 1960, o Chile foi um dos países pioneiros no uso da dessalinização de água do mar, especialmente na região norte, onde está o deserto do Atacama. Na mesma década, Estados Unidos, Grécia e Reino Unido desenvolveram projetos em áreas costeiras.

Embora Tel Aviv, em Israel, tenha uma grande usina que utiliza água do mar e que produz 624 milhões de água potável por dia, a maior do mundo fica em Ras al-Khair, na Arábia Saudita, com capacidade para 1 bilhão de litros por dia.

As iniciativas no Brasil

As primeiras experiências no país foram desenvolvidas pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos (SP), nos anos 1970.

Em 1987, a Petrobras criou um programa de dessalinização usando a osmose reversa para atender suas plataformas marítimas. O método seria usado depois, de forma pioneira, em povoados da Bahia. Também em 1999, a ilha de Fernando de Noronha recebeu uma usina de dessalinização.

Programa Água Boa (1996)

No semiárido brasileiro, a iniciativa foi ampliada pelo Programa Água Boa, da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente. Os dessalinizadores eram abastecidos com água salobra retirada de poços tubulares. A coordenação técnica era feita pela Universidade Federal da Paraíba.

O projeto tinha dois problemas, porém, apontados pela pesquisadora Andrea Carla de Azevêdo, em sua tese de doutorado, de 2017, em planejamento urbano e regional, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Não havia controle sobre o descarte do material retirado da água, o concentrado salino, o que acabou causando erosão e desertificação das áreas próximas aos locais de dessalinização. Também havia falhas de manutenção e gestão do sistema.

Em 2003, a Embrapa desenvolveu um projeto para o uso do concentrado (antes descartado no solo) para a criação de tilápia e no plantio de erva-sal. Isso serviu de referência para o projeto Água Doce, que adaptou o projeto anterior do governo FHC.

Programa Água Doce (2004)

O Água Doce contava com o apoio de 200 entidades, entre as quais o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Petrobras, Embrapa, Fundação Banco do Brasil, Universidade Federal de Campina Grande (na Paraíba), Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais.

Em 2003, como parte de sua implantação, foi construído e inaugurado o Laboratório de Referência em Dessalinização, na Universidade Federal de Campina Grande, com dinheiro do Ministério do Meio Ambiente.

Os critérios para a aplicação do programa, que começou de fato em 2004, eram atender áreas suscetíveis à desertificação, locais com menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), alto percentual de mortalidade infantil, baixos índices de chuvas e dificuldade de acesso à água.

Mas outros critérios também foram aplicados, como a existência de pelo menos 20 famílias num raio de 1 quilômetro de um poço já aberto, ter escolas, posto de saúde, uma área apta para a construção do sistema, poucas cisternas implantadas, ser uma comunidade sem atendimento de água por adutora e estar longe de barragens.

Um sistema simples de dessalinização tem o custo estimado de R$ 116.120,78, segundo Andrea Carla de Azevêdo, em seu trabalho. Dados de 2016 atualizados levantados pela pesquisadora mostram que, ao longo do programa, foram implantados 1.357 sistemas de dessalinização no Nordeste, que atenderam 500 mil pessoas em 298 municípios. O gasto total foi de R$ 251 milhões.

Os problemas

A pesquisadora, que acompanhou algumas iniciativas, aponta falhas no programa, como fragilidades técnicas e resultados socioeconômicos limitados.

“A participação não se deu como reflexo de um trabalho contínuo de compartilhamento de ideias, valores e objetivos, mas como uma obrigação a ser cumprida, protocolar. Os beneficiados não participaram como sujeitos políticos das decisões que, de uma forma ou de outra, incidem sobre suas vidas. Eles sempre foram reduzidos à condição de objetos”, escreve ela.

Segundo Azevêdo, não há, na execução do projeto, “discussão sobre impactos ambientais e sobre a viabilidade da universalização da tecnologia”.

A população entrevistada por ela relatou problemas como dificuldade de manter a água nos poços para ser usada no processo de dessalinização. “Esse é um problema bem comum no semiárido: os poços perfurados secam num espaço de tempo curto”, afirmou.

O projeto, que foi mantido pelos governos de Dilma Rousseff (PT) e de Michel Temer (MDB), deverá ter sua continuidade discutida pela próxima gestão. Segundo informações da atual gestão, a meta era atender pelo Programa Água Doce 1,5 milhão de pessoas até 2019.

 

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