4 ideias do escritor Amos Oz sobre literatura e paz

Autor israelense morreu vítima de um câncer, aos 79 anos. Ao longo da vida, destacou-se como ficcionista e ativista político

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    O escritor Amos Oz morreu nesta sexta-feira (28) em Israel. Ele sofria de câncer e tinha 79 anos.  A notícia foi confirmada por sua filha, Fania Oz Salzberger.  “Meu amado pai morreu de câncer, agora mesmo, depois de uma recaída, em seu sono e tranquilidade, cercado pelas pessoas que amava”, escreveu ela via Twitter.

    Oz era o mais célebre autor israelense. Nascido em Jerusalém em 1939, sob o nome Amos Klausner e antes mesmo da fundação do Estado judaico, se fez conhecido ao redor do mundo tanto pela seu trabalho como ficcionista como pelo ativismo político pacifista.

    Escreveu dezenas de livros em hebraico, entre romances, contos e ensaios, além de centenas de artigos em jornais, em Israel e fora do país. Suas obras foram traduzidas para mais de 45 idiomas, recebeu inúmeros prêmios e seu nome era constantemente cotado para o Nobel de Literatura, que afinal não veio. Alguns de seus livros mais conhecidos são “Caixa Preta”, “A pantera no porão” e “De amor e trevas”.

    A trajetória de Oz

    O escritor era filho de intelectuais que emigraram da Rússia no início dos anos 1920, no período entre-guerras na Europa, rumo à Palestina. Aos 15 anos de idade, saiu de casa e foi morar em um kibutz, tipo de comunidade socialista e rural muito comum entre os pioneiros do que viria a ser o Estado de Israel, fundado em 1948.

    Oz estudou filosofia e literatura na Universidade Hebraica de Jerusalém. Mais tarde tornou-se professor de literatura na Universidade Ben Gurion, em Bersheba, no deserto do Neguev, ao sul de Israel. Seu primeiro romance é de 1966. 

    Lutou na Guerra dos Seis Dias, de 1967, e na Guerra do Yom Kippur, em 1973. Após esses conflitos, assumiu posição pública, por meio de artigos na imprensa, contra a ocupação israelense de territórios palestinos na Cisjordânia e Gaza. Defendia a solução de dois Estados, que havia sido proposta originalmente pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1947.

    Em 1978,  foi um dos fundadores do movimento alinhado à esquerda Shalom Achshav (“Paz agora”, em hebraico.) Essa corrente pacifista reunia intelectuais e outros ativistas, defendendo o reconhecimento recíproco entre Israel e Palestina e o compartilhamento de terras na região. O movimento existe até hoje, e completa 40 anos em 2018.

     

    Entre a política e a literatura

    A carreira de Amos Oz é marcada por essa dupla atividade, política e literária. E embora muito de sua obra ficcional ecoe os conflitos locais ou os dilemas da vida comunitária no kibutz, por exemplo, Oz fazia questão de manter bem demarcada a linha que separava os dois campos de sua atuação como escritor.

    Como contou em diversas entrevistas ao longo da carreira, Oz tinha até mesmo um artifício para não misturar as coisas: para os artigos e ensaios políticos, usava uma caneta preta. Para romances, contos, novelas, usava uma caneta azul. “Eu nunca confundo as duas”, disse ele em 2009, prestes a completar 70 anos de idade, ao jornal americano The New York Times. “Uma [caneta] serve para mandar o governo ao inferno. A outra é para contar histórias.”

    Em entrevistas e palestras dadas pelo mundo, Oz era frequentemente provocado a falar de política, a se posicionar sobre o conflito entre Israel e Palestina. Ao mesmo tempo, como ficcionista de sucesso internacional, falava também sobre literatura e língua, sobre o prazer de contar uma boa história. Abaixo, o Nexo seleciona quatro ideias expostas por Oz que explicam um pouco da visão de mundo do escritor.

    Contra o fanatismo

    “O humor oferece imunidade maravilhosa contra o fanatismo. Se o senso de humor fosse vendido em cápsulas, eu proporia uma imunidade massiva contra esta praga dos nossos dias que é o fanatismo. E assim quem sabe eu concorreria não ao Nobel de Literatura, mas de Medicina.”

    Amos Oz veio ao Brasil algumas vezes. Em 2017, disse a frase acima em palestra na Casa do Povo, centro cultural fundado nos anos 1940 no Bom Retiro, em São Paulo, ligado à comunidade judaica progressista. O evento era para lançar o livro “Mais de uma luz – fanatismo, fé e conveniência no século 21”.  Trata-se de um ensaio de teor político, traduzido para dezenas de idiomas, lançado primeiro no Brasil.

    O argumento central de Oz aqui é a luta contra o fanatismo de todos os lados: da esquerda e da direita, dos radicais islâmicos e judeus. O autor vinha notando uma ascensão do extremismo religioso pelo mundo e, como fez ao longo da vida, se opunha a esse tipo de radicalismo em favor de uma atitude moderada - e bem humorada - na política e no convívio social.

    Os dramas familiares

    “Se tivesse que definir meu trabalho em uma só palavra, eu diria ‘famílias’. Em duas: ‘famílias infelizes’. Em três, seria preciso ler todos os meus livros. (risos) Escrevo sobre a família porque acho a instituição mais trágica e cômica do universo. São relações misteriosas, excitantes e paradoxais.”

    Como contou em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2011, o universo familiar era central na obra de Oz, tanto na perspectiva ficcional como na política. Isso porque, por vezes, o autor, ao falar de Israel, parece falar também de uma família - repleta de conflitos, crises, brigas e recalques.

    Um de seus mais famosos livros, “De amor e trevas”, explora seu próprio universo familiar, entrelaçado à história de Israel: trata-se de um relato autobiográfico em que ele examina sua trajetória em paralelo à de seu país.

    A língua hebraica

    “Eu amo a língua hebraica e minha visão é bem enviesada sobre isso. Eu poderia falar sobre o idioma hebraico por horas e horas (...) Eu acho que um escritor ou um poeta do hebraico contemporâneo ainda pode tomar liberdades muito ousadas com a língua, pode até mesmo legislar sobre a língua, porque o hebraico é como o derretimento da lava, como um vulcão em erupção, e ainda é possível deixar uma certa marca na língua.”

    Oz era um cultor da língua. Escrevia em hebraico, que aprendeu em casa.  Era um idioma bíblico restrito até o começo do século 20 aos ritos litúrgicos, mas que foi  reavivado quando da fundação do Estado de Israel, em 1948. A escolha pelo hebraico como língua oficial do novo país foi uma solução para não privilegiar o iídiche dos judeus da Europa do leste ou o árabe falado por judeus do Oriente Médio.

    Isso criou uma situação em que era preciso inventar novas palavras para que o idioma pudesse descrever a vida moderna, e Oz costumava contar sobre a criação de alguns vocábulos. Certa vez, como contou em entrevista à revista Tablet, ouviu um taxista usar uma palavra que havia inventado - um verbo que descrevia o comportamento conformista. “Era o mais próximo da imortalidade que um mortal poderia chegar; ter uma palavra que você inventou voltando para você na boca de um taxista.”

     

    Visões sobre a guerra e a paz

    “O conflito israelo-palestino é uma trágica luta entre duas vítimas da Europa - os árabes foram vítimas do imperialismo, do colonialismo, da repressão e da humilhação. Os judeus foram vítimas de discriminação, perseguição e, finalmente, de um genocídio sem paralelo na história”

    Em artigos e ensaios como este, publicado em 2010 na revista The New York Review of Books, Oz expunha uma visão trágica sobre o conflito entre israelenses e palestinos, judeus e árabes, olhando para o histórico de espoliação europeia do Oriente Médio e para o antissemitismo latente no continente.

    Ao mesmo tempo, manteve um notável otimismo, ancorado na percepção de que, para além das lideranças governamentais e dos extremistas de parte a parte, há pessoas dos dois lados que querem levar uma vida normal, se relacionar amorosamente, trabalhar e se divertir.

    Nesse mesmo texto, ele escreveu: “Chegará o dia em que haverá uma embaixada israelense na Palestina e uma embaixada da Palestina em Israel. E essas duas embaixadas estarão a uma curta distância uma da outra, porque uma delas será em Jerusalém Ocidental, a capital de Israel, e a outra será em Jerusalém Oriental, a capital da Palestina. Extremistas de ambos os lados continuarão a fazer tudo o que puderem para frustrar um compromisso histórico e a paz — mas a paz virá, porque a maioria dos dois povos a quer e porque os extremistas são minorias dos dois lados.”

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