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Como entender o Brasil a partir de 5 obras de Rosana Paulino

Artista seleciona e comenta a pedido do ‘Nexo’ trabalhos que tratam de colonização, diáspora, escravidão, raça e gênero

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Inaugurada no dia 8 de dezembro de 2018 pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, “Rosana Paulino: A Costura da Memória” é a primeira grande exposição individual dedicada à obra da artista paulistana.

A mostra, que encerra o ano dedicado às artistas mulheres na Pinacoteca, exibe mais de 130 obras produzidas entre 1993 e 2018 por Paulino, e permanece em cartaz até 4 de março de 2019.

Paulino surgiu no cenário artístico paulista nos anos 1990, destacando-se como voz única de sua geração de artistas ao propor um debate sobre questões de raça e de gênero.

Seus trabalhos lançam mão de técnicas diversas – instalação, gravura, desenho, escultura, em que se sobressaem o uso da costura e a transferência de fotografias para tecido, por métodos criados pela própria artista – para questionar a visão colonialista da história, a herança escravocrata, a noção de democracia racial brasileira, o racismo amparado pelo discurso científico do século 19 e o lugar da mulher negra na sociedade.

“No trabalho de Paulino, as dimensões pessoal e biográfica surgem inseparáveis da experiência coletiva e da memória social”, escreve Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca, no texto de apresentação ao catálogo da exposição.

A ciência, em particular a biologia, também é um campo com o qual a artista mantém diálogo constante.

A pedido do Nexo, Paulino selecionou e comentou cinco de suas obras, presentes na exposição, que podem ser lidas no sentido de ampliar a compreensão social, racial, histórica e das relações de gênero do país.  

“Parede da memória” (1994/2015)

 

“Parede da Memória”, trabalho da fase inicial da produção de Paulino, pertence ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. É a obra que recebe os visitantes da exposição.

Por ser elaborado com o uso da costura, remete à questão de gênero pela associação a uma atividade realizada no espaço doméstico majoritariamente pelas mulheres. As pessoas nas fotografias, familiares da artista, também trazem à tona a temática racial.

Segundo Paulino, além de falar sobre raça e gênero, o trabalho toca em afetividade e memória, muitas vezes negadas ao povo negro.

Apesar de, no todo, dar a ideia de ser composto por uma multidão de personagens, “Parede da Memória” é feito de apenas onze fotografias que se repetem até atingir milhares de unidades.

 

Para Paulino, a obra diz a quem a observa: “você pode ignorar um desses elementos, uma dessas pessoas nas ruas, mas não pode ignorar essa quantidade de pares de olhos sobre você”.

Os patuás que compõem a “parede” também têm uma simbologia muito significativa para a cultura afro-brasileira: são um elemento de proteção encontrado em algumas religiões de matrizes africanas. O patuá protege o seu dono ou uma casa, o local onde ele está.

“Colocando essas onze fotografias de família dentro desse formato, é como se eu colocasse o meu grupo étnico sob o cuidado, sob proteção. É como se eu protegesse toda a minha ancestralidade”, disse a artista ao Nexo.

Série “Bastidores” (1997)

 

O trabalho da década de 1990 tematiza a violência doméstica e de gênero e também o racismo. Foi feito com fotos de família da artista.

Na época, a irmã mais nova de Paulino, hoje assistente social, era estagiária de uma delegacia da mulher.

“Ela me contava como objetos para os quais a gente não dá nenhuma importância eram usados como elementos de poder nos relacionamentos, como elementos de tortura mesmo. Ela me falou de agulhas, cigarros, garfos que eram esquentados por homens para marcar suas companheiras. Me deixou absolutamente chocada. Fiquei com aquilo na cabeça muito tempo”, disse Paulino ao Nexo.

Foto: Divulgação /Pinacoteca do Estado de São Paulo
Detalhe da obra 'Bastidores'
 

Bastidor é o nome que leva o aro de madeira usado para prender e esticar o tecido para bordar ou pintar. Também remete ao espaço doméstico, ao ambiente que está fora do alcance ou dos olhos do público.

“Escolhi esse formato porque quando a gente pensa num bastidor, pensa no bordado, pensa automaticamente numa mulher bordando em um ambiente protegido, uma imagem quase idílica. E muitas vezes não é isso que acontece [nesse ambiente], é justamente o contrário”, diz Paulino.

As costuras da obra de Paulino não são bordados – o uso da linha negra, pesada, lembra uma sutura – e atingem pontos estratégicos, como a boca e a garganta, que transmitem impossibilidade de gritar, e os olhos, denotando a incapacidade de se ver no mundo.

As imagens transferidas para o tecido são de mulheres da família.

“Como são mulheres negras, (nesse período ainda trabalhava somente com fotografias da minha família), a obra acabou ganhando uma outra carga simbólica – se refere ao racismo estrutural. A mulher negra é a base da pirâmide na sociedade brasileira, é aquela que chefia mais lares sozinha, a maior vítima de assassinato [entre as mulheres]”, disse a artista.

Série “Assentamento” (2012)

Foto: Pinacoteca do Estado de São Paulo /Divulgação
Transferência para tecido de fotografia da expedição de Louis Agassiz, sobre a qual Paulino Costura
 

Composta por gravuras e uma instalação, “Assentamento” inaugura a pesquisa da artista, que perdura até hoje, sobre o racismo científico – conjunto de teorias pseudocientíficas, propagadas a partir do século 19, segundo as quais a divisão da humanidade em raças se traduz em uma   hierarquia biológica, na qual os brancos ocupam posição superior.

Segundo Paulino, todo o trabalho partiu da imagem de uma mulher negra escravizada, de frente, costas e perfil.

Foi encontrada pela artista em um livro de fotografias da Expedição Thayer (1865-1866), missão estrangeira  comandada pelo suíço Louis Agassiz, que visitou várias regiões do Brasil e tentou documentar, pela fotografia, as “raças brasileiras”, com o propósito de confirmar teorias raciais de que era adepto.

Na obra de Paulino, a mulher negra fotografada por Agassiz aparece em escala humana, reconstituída pela costura, ainda que em desalinho.

Foto: Pinacoteca do estado de São Paulo/Divulgação
Foto: Pinacoteca do Estado de São Paulo/Divulgação
 

“Ela se refaz, mas não tem como ficar inteira”, disse a artista ao Nexo, fazendo referência ao sequestro e deslocamento sofrido pelos africanos escravizados e sua posterior fixação na nova terra. Ela tem coração, útero e cria raízes. 

“A gente pode ver como ela se transforma em raiz, semente, árvore, mostrando que ela é o símbolo de uma cultura nascente, que está sendo assentada, contrariando o que o Agassiz defendia, de que a miscigenação leva os povos à derrocada por conta do negro”, explica a artista.

 

Já o feixe de lenha para ser queimada, que aparece na instalação, é um feixe de braços negros que remete ao trabalho forçado e ao drama humano dos negros escravizados.

“¿História natural?” (2016)

 

Segundo Paulino, a ideia do álbum “¿História natural?”, é aprofundar sua investigação sobre o racismo científico e como esse racismo molda o país.

“Essa história foi varrida para debaixo do tapete. Ninguém discute, hoje em dia, como somos resultado do racismo científico, mas ele está [presente] nos dias de hoje, ainda vemos absurdos”, diz Paulino. Ela cita como exemplo a declaração do vice-presidente eleito Hamilton Mourão, feita em outubro de 2018, de que seu neto era bonito por ser “branqueamento da raça”.

 

Além do racismo científico, segundo Paulino, o álbum lida também com a exploração das colônias na América do Sul enquanto laboratório para aquilo que seria aplicado pelos europeus na África, no período neocolonial.

Logo na abertura, a presença das frases “o progresso das nações”, “a salvação das almas”, “o amor pela ciência” indicam a conexão com os dois temas. O título questiona a neutralidade de discursos tido como científicos.

 

“Musa paradisíaca” (2018)

Foto: Pinacoteca do Estado de São Paulo/Divulgação
 

Paulino explica que “Musa paradisíaca” é o nome científico de um dos tipos de banana e que a frase “Yes, nós temos” também remete à fruta ao fazer referência à música de Braguinha, “Yes, nós temos bananas” .

“Acho que [a obra] fala bastante de situação do país no momento: o Brasil é um país que avança um pouquinho e já tem um retrocesso enorme em seguida”, disse a artista. “Ela discute questões como o fato de o Brasil ter tudo para avançar e ser uma potência, mas se contentar sempre em ser menor, em ser um país que ainda está preso ao passado e que se submete a ser quase uma colônia extrativista.”

A costura desalinhada e as fotografias impressas em tecido, presentes em diversas obras da artista, retornam em “Musa Paradisíaca”, trazendo à tona a questão racial, o passado escravista (na imagem da mulher negra com a cesta de bananas na cabeça) e a colonização (no azulejo português ao centro).

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