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Por que tropas dos EUA vão sair da Síria e do Afeganistão

O presidente Donald Trump contraria parte da sua base e põe em risco influência nas duas guerras

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou a retirada das tropas americanas que estão atuando na guerra da Síria. Ele fez a declaração em um vídeo no Twitter, na quarta-feira (19).

Dois dias depois, na sexta-feira (21), a imprensa americana noticiou que Trump também ordenou a retirada de parte dos militares atuando na guerra do Afeganistão, antes de um anúncio formal do presidente.

A decisão de Trump levou à renúncia de um dos principais integrantes do seu governo, recebeu críticas de políticos democratas e republicanos, mas elogios de aliados e até de Vladimir Putin, presidente da Rússia, país envolvido no conflito da Síria.

2.000

é o número estimado de militares americanos na Síria hoje

7.000

é o numero estimado de militares americanos que vão retornar do Afeganistão, metade do total que atua no país

As retiradas não são automáticas, os soldados devem levar meses até o regresso. A decisão americana prenuncia um novo capítulo em duas grandes guerras no Oriente Médio e na Ásia.

Os motivos de Trump

Sobre a Síria, Trump afirmou que os EUA derrotaram o grupo terrorista Estado Islâmico. Segundo o presidente americano, os EUA saíram vitoriosos nessa batalha contra o terrorismo e não há mais razão para pôr em risco a vida dos seus soldados.

É um modo de o presidente se vangloriar como o responsável por vencer o Estado Islâmico, neutralizando uma ameaça terrorista, e como um líder que garante o bem-estar dos militares americanos em batalha na Síria e seus familiares. Segundo analistas, Trump não considera haver mais benefícios políticos, estratégicos e financeiros em continuar na guerra da Síria.

Ao anunciar a retirada da Síria, Trump voltou a dizer que os EUA gastam “trilhões de dólares” nas guerras, não são reconhecidos por isso e acabam pondo americanos em risco de vida. O presidente deu a entender que outros países se aproveitam do poderio militar dos EUA.

Sobre o Afeganistão, Trump não deu declarações oficiais, mas, assim como na Síria, age em consonância com o discurso nacionalista que vem adotando desde antes de ser eleito, de proteger os soldados americanos e conclamando uma vitória militar. Na pré-campanha ele já defendia a saída das tropas americanas dos dois países.

O Estado Islâmico é um grupo fundamentalista islâmico que almeja criar um califado, um país soberano e teocrático com autoridade sobre todos os muçulmanos do mundo. O Estado Islâmico segue uma linha do islamismo sunita com aplicação radical das leis islâmicas.

O grupo esteve no auge em 2015, mas vem sofrendo sucessivas derrotas e perdendo território. O Estado Islâmico organizou ou inspirou atentados em diversas partes do mundo, notadamente no Oriente Médio, África e Europa.

A repercussão

O principal argumento de quem criticou a medida de Trump foi o seguinte: o Estado Islâmico não está extinto e seria mais prudente permanecer com as tropas na Síria, a fim de continuar o combate ao grupo e de acompanhar o período de transição quando a guerra acabar.

O secretário de Defesa do governo, Jim Mattis, apresentou sua renúncia ao cargo por conta a divergência. Mattis vê as retiradas como um erro estratégico e preferiu deixar o governo. Políticos tanto do Partido Democrata como do Partido Republicano criticaram a decisão do presidente, rebatendo a fala de que o Estado Islâmico foi derrotado.

Internacionalmente, a milícia de etnia curda que combate o Estado Islâmico na Síria com ajuda dos EUA falou em “traição” dos americanos e na possibilidade de um “vazio político e militar”.

Parte da base parlamentar de Trump elogiou a medida. O presidente russo, Vladimir Putin, disse que os EUA tomaram a “decisão correta” e de fato o Estado Islâmico está seriamente enfraquecido.

O que é a guerra da Síria

A Síria está em guerra desde março de 2011. Pelo menos 400 mil pessoas morreram e mais da metade da população foi forçada a fugir de casa — para outros pontos da Síria ou para o exterior.

O conflito passou de uma questão interna, na qual insatisfeitos com o governo de Bashar al-Assad começaram uma ofensiva armada contra o presidente, ao envolvimento direto de potências militares regionais e globais. Foi na época da Primavera Árabe, na qual uma série de países no Oriente Médio e no norte da África se rebelaram contra os seus governos.

Atualmente, as forças de Assad controlam a maior parte do país, e a tendência hoje é que saiam vitoriosas. Assad recebeu auxílio militar ou financeiro dos aliados Rússia e Irã, dois interessados em manter o governo sírio no poder.

Já os EUA, ao lado de Reino Unido e França, financiaram e treinaram grupos “moderados” antigoverno. Israel e Arábia Saudita também apoiaram os insurgentes. A ideia de todos esses países era se contrapor aos rivais Rússia e Irã e estar do lado de um eventual novo governo.

As suspeitas de que Assad ordenou ataques com armas químicas contra a própria população, algo negado pela Síria e pela Rússia, foram uma brecha para bombardeios de países ocidentais contra forças sírias. A retirada de tropas por Trump indica uma posição mais moderada em relação ao governo sírio, tolerando que Assad permaneça no poder.

O que é a guerra no Afeganistão

Os EUA invadiram o Afeganistão em 2001, após o atentado às Torres Gêmeas, em Nova York. Para o então presidente americano, George W. Bush, a guerra visava derrotar o grupo terrorista Al-Qaeda, responsável pelo ataque. Bush dizia que o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, estava escondido no Afeganistão e sob proteção do grupo então no poder, o Taleban.

O Taleban, que segue o islamismo sunita, surgiu nos anos 1990 e defende uma aplicação radical das leis islâmicas. Bin Laden veio a ser morto pelas forças americanas em 2011, no Paquistão, país vizinho.

Depois que o Taleban foi rapidamente deposto pela ofensiva militar ocidental, o grupo passou a lutar como uma força insurgente, na tentativa de reaver o poder no país, em uma guerra que se prolonga por 17 anos. Ele controla sobretudo áreas rurais, locais de difícil acesso.

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