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Por que ‘Roma’ é considerado um dos melhores filmes de 2018

Longa de Alfonso Cuarón trata da vida doméstica de uma família no México da década de 1970. Narrativa é centrada na personagem de uma babá e tem inspiração autobiográfica

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    Um novo filme do mexicano Alfonso Cuarón, diretor de “Gravidade” (2013) e “E Sua Mãe Também” (2001), intitulado “Roma”, estreou na Netflix no dia 14 de dezembro de 2018. Também está sendo exibido no cinema em algumas sessões gratuitas, para as quais é preciso se cadastrar, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Eleito vencedor do prêmio de melhor filme do Festival de Veneza, em setembro de 2018, o filme tem sido incluído na lista de melhores do ano de críticos e revistas especializadas, recebendo resenhas elogiosas de inúmeros veículos.

    Respaldado pelo estrondoso sucesso de “Gravidade” (que conquistou bilheteria global de US$ 723 milhões e foi premiado com sete Oscars, incluindo de melhor fotografia e direção), Cuarón decidiu fazer o filme que sempre quis fazer: “Roma” trata da vida doméstica de uma família de classe média alta em meio à agitação social do México da década de 1970.

    Foto: Divulgação
    Cena de Roma, de Alfonso Cuarón (2018)
     

    A narrativa é centrada na personagem de uma babá – Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio – e tem inspiração autobiográfica. O título se refere ao bairro, localizado na Cidade do México, onde o cineasta cresceu e no qual o filme é ambientado.

    Mensagem de amor e gratidão à figura de Cleo, principalmente, e às outras mulheres que povoaram a infância do cineasta, “Roma” explicita os contrastes de classe entre ela e a família para a qual trabalha, mas também entre o cotidiano dos indivíduos e os grandes acontecimentos – as formas pelas quais o âmbito doméstico e o público ou político acabam se encontrando.

     

    Entre outras qualidades técnicas, chamam atenção planos-sequência (registro da ação de uma sequência inteira, sem cortes) marcantes, um deles logo na sequência de abertura do filme. 

    O que foi dito de ‘Roma’

    O longa de Cuarón foi declarado o melhor filme de 2018 pela revista de cinema britânica Sight & Sound. A escolha se baseia em uma sondagem feita pela revista com 164 críticos e curadores de diversos países. “Roma” obteve 38 votos.

    “Roma é o tipo de filme que realizadores populares e bem-sucedidos dizem que gostariam de usar sua influência para fazer, mas quase nunca fazem”, escreve o crítico Nick Pinkerton, na edição de janeiro/fevereiro de 2019 da revista.

    “Grandes filmes nos fazem prestar atenção de uma maneira que muitas vezes falhamos em prestar em nossa vida cotidiana. É isso que Alfonso Cuarón faz em ‘Roma’ (...) O amor por ela [Cleo] que ele traz para a tela, o cuidado e respeito com que a coloca no centro do filme, é imperdível. Ao tornar ‘Roma’ tão visualmente rico e instigante, Cuarón pede que tenhamos esse mesmo respeito para com ela – que desaceleremos nossos corações, deixemos de lado as expectativas e deixemos o filme falar por si mesmo”, escreveu a crítica de cinema Alissa Wilkinson, em uma resenha para o site americano Vox.

    Em um artigo para a Folha de S.Paulo, o jornalista e apresentador Zeca Camargo descreve “Roma” como “uma trama reservada e intimista – um retrato de uma vida muito particular (mas, ao mesmo tempo, tão universal), a de Cleo”.

    “A história de ‘Roma’ fala particularmente com o espectador brasileiro. A vida de Cleo, sutil e poderosamente interpretada pela desconhecida Yalitza Aparicio, não é muito diferente da rotina das domésticas que costuram há décadas (séculos?) a trama social do nosso país”, escreveu.

     

    O crítico de cinema do jornal The Guardian, Peter Bradshaw, enfatiza a habilidade de Cuarón em combinar closes e planos abertos, o detalhe revelador e o plano geral, que coloca os elementos em escala.

    “Por vezes, se assemelha a um romance no desenvolvimento dos personagens e da vida interior: um desenvolvimento dramático íntimo e densamente realizado que parece acontecer em tempo real. À sua maneira episódica envolvente, também é como uma telenovela. Outras vezes, ressoa como um épico”, escreve Bradshaw.

    “Impossível superar o esplendor visual de ‘Gravidade’? ‘Roma’ consegue isso sem efeitos especiais e se voltando às cores de onde nasceu o próprio cinema —o branco e o preto—, num rigoroso grafismo”, define Camargo.

    Para prestar atenção

    Fotografia

    Em preto e branco, “Roma” apresenta um cuidadoso trabalho de câmera e fotografia em que a narrativa é moldada pelo que a câmera vê.

    O diretor costuma trabalhar com o diretor de fotografia mexicano Emmanuel Lubezki, a quem conhece desde a adolescência, parceria que já rendeu resultados extraordinários.

    Em “Roma”, por uma questão de agenda, Lubezki não pôde trabalhar na direção de fotografia e o próprio Cuarón assumiu a função, além de dirigir e roteirizar o filme.

    De acordo com uma reportagem do site Indiewire, o diretor fez a escolha audaciosa de filmar em cores, com o equipamento digital Alexa 65, e “esculpir” o preto e branco posteriormente, na etapa da finalização.

    A ideia, porém, não era imitar a estética da película para criar um visual nostálgico ou vintage. “Eu queria fazer um filme moderno que olhasse para o passado”, disse Cuarón em uma conversa sobre “Roma” com o diretor de fotografia e amigo Emmanuel Lubezki. “Não é um preto e branco vintage, é um preto e branco contemporâneo”, disse. 

    Yalitza Aparicio

    Mexicana de ascendência indígena, Yalitza Aparicio nunca havia atuado antes de “Roma”. Sua interpretação da protagonista Cleo se baseia em sua própria experiência e de outras mulheres de sua família: Aparicio trabalhou como doméstica, assim como sua mãe e outras parentes.

    “No coração de tudo está a performance maravilhosa de Aparicio, que traz ao papel algo de gentil, delicado, estoico e abnegado. Ela é a joia desse filme excepcional”, elogiou o crítico Peter Bradshaw no Guardian.

    Antes de se inscrever na chamada para o elenco do filme, persuadida por sua irmã, a atriz nunca tinha ouvido falar de Cuarón ou de seus filmes, e chegou a desconfiar se tratar um golpe. 

    A direção de atores de Cuarón lançou mão de um método pouco convencional. Eles só recebiam o roteiro das cenas a serem gravadas às vésperas da filmagem. Os atores estavam descobrindo seus personagens à medida em que a filmagem se desenrolava, o que fica evidente na autenticidade de suas emoções.

    Som

    O filme não tem trilha sonora musical, mas conta com um desenho de som que coloca o espectador dentro de cada cena, ressaltando os silêncios e barulhos do cotidiano e potencializando a qualidade imersiva do filme.

    “A música [de ‘Roma’] é o som dos lugares. Isso era parte do design desde o princípio. Está descrito no roteiro”, diz Cuarón.

    Streaming x cinema

    “Roma” foi produzido pela Netflix e lançado na plataforma simultaneamente em centenas de países. Muito por conta de suas qualidades de imagem e som, porém, críticos têm defendido que o filme seja visto no cinema.

    Para quem optar por assistir na TV, há dicas de como ajustar o aparelho para melhorar a experiência de ver “Roma” em casa.

    A tônica da defesa feita por críticos é que, apesar da participação da Netflix em sua produção, “Roma” é um filme feito para ser visto no cinema.

    “Uma das melhores coisas que um filme é capaz de fazer é nos forçar a parar, se aquietar e viver a experiência alheia por um momento. ‘Roma’ é um exemplo brilhante de um filme bem sucedido nessa empreitada, centrado no elemento primordial que separa o cinema das outras artes: ele é visualmente imersivo e ricamente texturizado em seu som e imagem”, escreveu Alissa Wilkinson na Vox.

    No Guardian, Peter Bradshaw relativiza as críticas à plataforma por pretender que suas produções sejam consumidas principalmente na plataforma digital, com o argumento de que muitos filmes excelentes estreiam em poucas salas e em um número limitado de salas, e que a exibição de “Roma” na Netflix fará com que ele seja visto por mais gente.

    Ainda assim, concorda que é um filme para ser visto em tela grande. De resto, é o que recomenda o próprio Cuarón: “obviamente, a situação ideal seria [ver o filme] em tela grande no cinema”, declarou o diretor na estreia de “Roma” no Festival de Veneza.

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