O risco da dengue no Brasil. E as vacinas para combatê-la

Dos 5.358 municípios monitorados pelo Ministério da Saúde, 35% estão em situação de alerta e 504 têm risco de surto. Instituto Butantan está na fase final da vacina

 

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde na quarta-feira (12) mostram que, dos 5.358 municípios brasileiros onde há monitoramento do mosquito Aedes aegypti, 35% estão em situação de alerta, e 504 cidades (9,4% do total) apresentam risco de surto de dengue.

Embora os casos da doença registrados pelo governo tenham caído bruscamente desde 2015 (quando o país bateu um recorde de 1,7 milhão de casos), em alguns estados a situação ainda preocupa.

A situação mais grave é a de Goiás, que registrou até 10 de novembro em 2018 uma taxa de 1.050 casos para cada 100 mil habitantes no ano, enquanto o Rio Grande do Sul, por exemplo, teve 1,1 para a mesma quantidade de pessoas (a média no país foi de 115,9 casos por 100 mil habitantes).

Capitais como Palmas (TO), Boa Vista (RR), Cuiabá (MT) e Rio Branco (AC) têm risco de surto não só da dengue, mas também de zika e chikungunya, transmitidas pelo mesmo mosquito.

Em 2018, até 3 de dezembro, o país registrou 241.664 casos prováveis de dengue, contra 239.389 em todo o ano passado. Em 2016, foram 1,5 milhão de casos.

Em relação ao número de mortes, houve em 2018 uma queda de 19,3% em comparação ao ano anterior. Foram de 176 em 2017 para 142.

Crises cíclicas

Segundo afirmou a pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz Denise Valle ao Nexo, as crises de dengue são cíclicas. “Você tem uma epidemia e passa um a dois anos sem ter outra.”

A queda dos últimos anos pode estar relacionada à diminuição das chuvas (com menos água, a infestação é menor), ao surto da zika, que forçou a população a mudar hábitos e o governo a agir com maior intensidade, e à maior resistência dos brasileiros ao vírus, segundo a pesquisadora.

Os riscos de dengue

Para medir a taxa divulgada pelo Ministério da Saúde, os municípios são divididos em grupos de 8.100 (o intervalo ideal começa em 9.000) a 12 mil imóveis com características semelhantes.

Em cada um desses estratos, são selecionadas amostras de 450 imóveis para serem vistoriados. Cada quarteirão sorteado deverá ter 20% dos imóveis inspecionados (terrenos baldios e edifícios também são analisados).

A partir disso, as cidades são classificadas em três categorias.

  • Condição satisfatória: menos de 1% dos imóveis possui larvas
  • Situação de alerta: de 1% a 3,9% dos imóveis apresentam criadouros do mosquito
  • Risco de surto: 4% dos imóveis ou mais estão infestados

O método é conhecido como Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa). “Sua realização, em âmbito nacional, no final do ano, no período não epidêmico, serve como instrumento para nortear medidas de ações de controle, além de ser uma atividade de comunicação e mobilização por meio da ampla divulgação dos resultados na mídia”, afirma a Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde.

As vacinas

Por enquanto, a Dengvaxia, produzida pela multinacional francesa Sanofi, é a única disponível, principalmente na rede particular. Mas seu uso é visto com cautela por especialistas.

Após monitorar sua aplicação por cinco anos, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) constatou que ela aumenta o risco de hospitalização ou de dengue grave em pessoas infectadas pela primeira vez. A vacina é mais eficiente em pessoas que já apresentaram algum subtipo da doença. 

Algumas opções estão sendo desenvolvidas no combate à doença, como a vacina da farmacêutica japonesa Takeda, cujos testes contam com a participação de 4.770 brasileiros. As pesquisas estão na fase final.

O Instituto Butantan

A instituição brasileira, que já vinha desenvolvendo o projeto em parcerias com instituições de saúde dos Estados Unidos desde 2007 e que está na terceira e última fase dos estudos, anunciou na quarta (12) um acordo de colaboração com a farmacêutica MDS (Merck Sharp & Dohme), dos Estados Unidos. As duas irão trocar informações sobre processos e ensaios de seus produtos. A MDS ainda está na primeira fase.

No caso da vacina da farmacêutica americana, o Instituto Butantan receberia royalties com as vendas no exterior (o acordo pode render US$ 100 milhões, cerca de R$ 390 milhões) e teria acesso a testes onde circulam vírus diferentes dos que existem do Brasil, como na Ásia, onde aparece o subtipo 4, mais raro por aqui. Existem quatro vírus da dengue.

Para a fase três, o instituto testa a vacina em quase 17 mil pessoas. A partir dos vírus atenuados, produziu-se uma vacina em pó, que está sendo testada em 16 centros espalhados pelo país.

Ao Nexo, o diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Butantan, Alexander Precioso, afirmou em julho de 2018 que os testes devem acontecer até 2021 para os primeiros grupos etários. “Para os menores, nós pretendemos finalizar o recrutamento de crianças até dezembro de 2018, o que implica que elas serão seguidas até dezembro de 2023”, afirmou. A ideia é imunizar a população de 2 a 59 anos.

Na fase três, o instituto precisa demonstrar a eficácia da vacina e a partir daí pedir o registro sanitário na Anvisa. Segundo o Butantan, os dados têm demonstrado que, para a imunização, bastaria uma única aplicação (sem a necessidade de um reforço) e ela poderá ser aplicada em quem nunca teve contato com a doença.

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