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Como o Miss Universo tenta se adequar a um mundo ‘pós-Me Too’

Desde 2017, candidatas têm sido requisitadas a se posicionarem sobre a questão do assédio sexual. Outras ações do concurso de beleza buscam torná-lo mais inclusivo

     

    A 67ª edição do Miss Universo, competição internacional de beleza feminina, aconteceu em Bangcoc, na Tailândia, no dia 17 de dezembro de 2018 – pelo horário de Brasília, na noite do dia 16, domingo.

    Ao todo, 94 mulheres participaram da competição e venceu a representante das Filipinas, Catriona Gray, modelo de 24 anos. As outras finalistas foram a Miss África do Sul, Tamaryn Green, e, em terceiro lugar, Sthefany Gutiérrez, a Miss Venezuela.

    No Miss Universo 2017, as denúncias de assédio sexual de mulheres contra homens poderosos, que vieram em efeito cascata após as  acusações contra o produtor Harvey Weinstein, em outubro daquele ano, já haviam repercutido no evento.

    Após ser coroada, a sul-africana Demi-Leigh Nel-Peters foi solicitada a comentar a questão, e respondeu que, juntas, mulheres são indestrutíveis e capazes de se manifestar quando veem algo de errado acontecer em casa ou no trabalho.

    Outra finalista de 2017, a Miss Jamaica Davina Bennett também foi questionada por um espectador do concurso sobre por que mulheres e homens deveriam trabalhar juntos para resolver a questão do assédio, e afirmou ser preciso um esforço conjunto para que nenhuma forma de abuso seja tolerada.

    Em 2018, outros concursos de beleza, sobretudo o Miss USA, nos Estados Unidos, continuaram sentindo as reverberações do movimento Me Too.

    Candidatas ao Miss USA também abordaram o movimento de mulheres e o assédio sexual. Várias chegaram a compartilhar, durante o evento realizado em maio, suas próprias histórias de abuso sexual.

    Em junho, o Miss América aboliu a etapa da competição que colocava as candidatas em trajes de banho em uma tentativa de “redefinir seu papel em uma era de empoderamento feminino e igualdade de gênero”, diz uma reportagem do jornal The New York Times. O desfile em roupas de banho ocorria desde a primeira edição do concurso, em 1921.

    Em julho, Maude Gorman, que havia sido coroada Miss Plymouth County, devolveu sua coroa como forma de protesto contra um esquete apresentado no palco do concurso Miss Massachusetts, que ridicularizava o movimento Me Too.

    “Como sobrevivente e defensora dos direitos das vítimas de violência sexual, me recuso a permanecer calada e simplesmente deixar isso passar. Por cada pessoa que se sentiu libertada pelo movimento #metoo, não permitirei que ninguém tire [de nós] esse poder e essa libertação”, escreveu Gorman em um post em seu perfil no Instagram. 

    No Miss Universo 2018, a competição adotou algumas medidas no sentido de responder aos debates do momento em torno da igualdade de gênero. O Nexo as detalha abaixo, em três pontos.

    O júri inteiramente feminino

    No dia 12 de dezembro de 2018, a Organização Miss Universo anunciou que teria, pela primeira vez em sua história, um corpo de jurados inteiramente composto por mulheres para a 67ª edição do concurso.

    A escolha da vencedora ficou a cargo de empresárias, executivas, especialistas e eleitas Miss Universo de edições anteriores.

    Em entrevista à Vogue Arabia, edição do Oriente Médio da revista Vogue, a jurada marroquina Iman Oubou afirmou que a iniciativa de compor um comitê de seleção apenas com mulheres reflete o comprometimento da organização em melhorar as oportunidades pessoais e profissionais para as mulheres.

    Ainda segundo Oubou, a ideia é que o grupo de mulheres do júri seja um exemplo para as jovens competidoras, para que se inspirem e empoderem umas pelas outras.

    A primeira candidata transgênero

    A espanhola Angela Ponce foi a primeira mulher transgênero a participar do concurso internacional de beleza.

    Em 2015, ela foi impedida de participar de uma competição nacional, o Miss Mundo Espanha, cujo regulamento não permitia que uma mulher trans fosse escolhida vencedora.

    O concurso espanhol mudou as regras após Ponce chegar à final do Miss Universo. “Eu mudei as regras”, disse em entrevista à revista Time.

    “Estou mostrando que mulheres trans podem ser o que quiserem”, disse na mesma entrevista.

    Ponce não chegou a ficar entre as 20 primeiras colocadas da competição.

    Segundo o site do Miss Universo, Angela Ponce fez história, disseminando uma mensagem de inclusão, respeito e diversidade para a comunidade internacional. 

    Perguntas e respostas

    Na penúltima etapa da competição, as cinco candidatas finalistas tiveram que responder a uma pergunta elaborada especificamente para elas.

    Na edição de 2018, a venezuelana Sthefany Gutiérrez foi perguntada sobre o que diria a quem afirma que concursos de beleza são arcaicos e contrários ao movimento feminista. 

    Respondeu que “vivemos em uma época em que houve muitos avanços, e que atualmente os concursos de beleza não tratam apenas disso, mas também de sensibilidade”.

    À Miss Vietnã coube a questão sobre se o movimento Me Too havia “ido longe demais”, posição defendida por alguns de seus críticos.

    “Eu não acho que ele tenha ido longe demais”, respondeu a vietnamita H’Hen Nie. “Proteger as mulheres e o direito das mulheres são as coisas certas a fazer. As mulheres precisam de proteção e direitos.”

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