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Por que o Banco Central não baixa mais os juros

Comitê de Política Monetária anuncia manutenção da Selic em 6,5%, mas inflação controlada e economia fraca embasam pedidos por taxas menores

     

    O Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou na quarta-feira (12) a decisão de manter a taxa básica de juros da economia em 6,5% ao ano. Foi a sexta reunião consecutiva em que os diretores do Banco Central optam por não alterar a Selic. A decisão foi tomada por unanimidade.

    No comunicado, divulgado após a reunião, o Copom citou o aumento da aversão a risco no cenário externo para justificar a manutenção, dizendo que o quadro é desafiador para economias emergentes - normalmente mais arriscadas. Se aumenta a aversão a risco, os investidores migram dos países emergentes para as economias mais seguras, com isso o dólar se valoriza e pressiona a inflação de países como o Brasil, principalmente por encarecer as importações.

    Por outro lado, no cenário interno, a avaliação é de que a situação é confortável. A ainda fraca atividade econômica no Brasil “prescreve política monetária estimulativa”, que significa manter taxas de juros abaixo do normal para impulsionar a economia.

    A decisão do Banco Central não surpreendeu investidores, que já vinham apostando em mais uma manutenção da taxa básica de juros. Mas, com a inflação sob controle, setores da economia já começam a cobrar do BC a redução dos juros nos próximos meses.

    A Selic

    O QUE É

    A Selic é a taxa básica de juros porque é o que o BC paga a investidores, incluindo bancos, por empréstimos de curto prazo. A partir do que recebem de rendimento por títulos do governo (que têm menor risco do que empréstimos a clientes), os bancos calculam o que vão cobrar dos clientes. As instituições vão cobrar mais (ou muito mais) do que recebem de títulos da dívida pública, mas nunca menos.

    IMPACTO NA INFLAÇÃO E NA ECONOMIA

    A taxa Selic é usada para controlar a inflação como instrumento para inibir ou estimular a demanda por produtos e serviços e os investimentos. Quando os juros sobem, as pessoas gastam menos, cai a procura por produtos e serviços e diminui a pressão por aumento de preços. O efeito colateral do aumento de juros é a redução da atividade econômica.

    DEFINIÇÃO DA SELIC E META DE INFLAÇÃO

    A missão do Banco Central, desde a instituição do regime de metas de inflação, é calibrar a Selic de maneira que os preços não subam mais do que o estabelecido. A meta de inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional (decisão do presidente do BC e dos ministros da Fazenda e do Planejamento) e cabe ao Comitê de Política Monetária do  Banco Central ajustar os juros para que a inflação fique dentro dos parâmetros estabelecidos.

    A trajetória da inflação

    Ajudada também pela fraca atividade econômica, a inflação vive um período calmo no Brasil no momento está abaixo do centro da meta. O quadro é esse há quase dois anos, com o IPCA oscilando sempre abaixo dos 4,5% ao ano estabelecidos. Em 2017, o índice oficial fechou o ano inclusive abaixo do limite de tolerância definido, que é de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

    Em 2018, nem a alta do dólar foi suficiente para fazer o IPCA preocupar o Banco Central. A única subida significativa da inflação veio em junho, mas por um evento atípico. A crise de desabastecimento gerada pela greve dos caminhoneiros em maio fez a variação do IPCA do mês seguinte ser o mais alto em 20 anos.

    Naquele momento os preços subiram, mas desde então já houve dois resultados negativos no IPCA - o que significa que os preços ao consumidor, no geral, chegaram a cair em alguns meses. O mais recente foi em novembro, quando o IPCA recuou 0,21%.

    Preços sob controle

     

    A trajetória da Selic

    A taxa Selic está em seu ponto mais baixo desde que começou a ser usada como principal mecanismo de combate à inflação. A última redução, que levou a taxa a 6,5%, aconteceu em março. Desde então, são nove meses de estabilidade.

    A estabilidade contrasta com um passado recente. Entre setembro de 2016 e março de 2018, foram doze alterações quase que consecutivas. A taxa saiu de 14,25% ao ano, em tempos em que a inflação no Brasil estava perto dos 10%, para os atuais 6,5%.

    Selic estável

     

    A Selic está no ponto mais baixo da história, mas a economia não voltou a crescer de forma significativa. Com os preços sob controle, empresários evitaram criticar o Banco Central, mas entidades como a Associação Comercial de São Paulo e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) falaram em juros mais baixos.

    “A taxa de inflação segue abaixo da meta e a atividade econômica está muito fraca. Isso sinalizaria até para uma redução da Selic, para estimular a economia e o consumo. Mas, tendo em vista o período de mudança de governo, o Banco Central foi prudente ao manter a taxa inalterada”

    Alencar Burti

    presidente da Associação Comercial de São Paulo

    Sobre a possibilidade de o Copom reduzir ainda mais os juros, o Nexo conversou com dois economistas:

    • Fernando Ribeiro Leite, professor da PUC São Paulo
    • Gilberto Borça Junior, gerente de pesquisa macroeconômica do BNDES

    Há espaço para redução dos juros no Brasil?

    Fernando Ribeiro Leite O Banco Central nunca tem que ser arrojado, o papel dele é ser mais conservador. Diante disso, parece conveniente ter mantido a taxa em 6,5%. A inflação está sendo controlada, teve um pico em junho e vai vir salgada agora em janeiro, efeito sazonal. Tem a questão da safra, está tendo quebra no Centro-Oeste por causa da chuva. Mas de modo geral, os núcleos de inflação estão bem controlados.

    Não vejo motivo para reduzir agora, a inflação está na casa dos 4%, com Selic a 6,5%. Isso significa, fazendo uma conta de padaria, um juro real de 2,5%. Para a economia brasileira, isso é um juro real bem baixo. Normalmente se tem juros reais ao redor de 3%, 4%. Essa redução é interessante e talvez seja até estrutural.

    Gilberto Borça Junior  Desde 2017, há uma dinâmica inflacionária benigna, que continua em 2018. Houve três choques que afetaram a inflação momentaneamente. Um foi a greve dos caminhoneiros, outro foi de preços administrados, com aumento de petróleo e energia elétrica, e o terceiro foi o câmbio por causa das incertezas com a eleição. Em algum momento do ano, esses choques arrefeceram.

    A inflação vai fechar o ano perto de 3,8%, bem abaixo da meta, e o que a gente avalia, olhando todo o conjunto da economia, é que há espaço para a redução. A inflação corrente muito baixa gera uma inércia inflacionária mais benigna. Se avaliar as medidas de núcleo da inflação [que tenta desconsiderar distúrbios temporários e mede tendências dos preços], vai ver que está na casa de 2%.

    A inflação está muito baixa, as expectativas para 2019 estão em trajetória de queda. Todos os indícios sugerem uma flexibilização adicional da política monetária. Há espaço para redução de juros e o Copom vai começar a considerar isso, se o cenário de hoje se mantiver. Os primeiros indicadores do 4º trimestre continuam a mostrar que a recuperação da economia é frustrante.

    A taxa de juros, no patamar atual, é um entrave ao crescimento?

    Fernando Ribeiro Leite É difícil qualificar até onde é um entrave até onde estímulo. Mas o que é claro é que o Brasil já viveu momentos de crescimento econômico com juros reais maiores, ao redor de 3,5%. Então eu não acho que os juros, no nível atual, estão pressionando uma retração. Nesse momento, não vejo a política monetária como algo que possa ser um entrave para a retomada da economia.

    No Brasil, a política monetária é dada para controlar a inflação, ela não tem o objetivo de estimular o emprego e o PIB. A gente pode até discutir se deveria ser assim ou não, mas não é. Nesse sentido, dado que a inflação está sob controle e que os bancos centrais são conservadores em geral, é natural a manutenção.

    Há um processo de instabilidade internacional, no câmbio, com fluxo de capitais e guerra comercial. Então vamos supor que o Banco Central baixe os juros. Não se sabe o que vai acontecer com o câmbio no próximo trimestre, pode haver desvalorização do real e isso se transfere para os preços. Aí se vê obrigado a subir os juros que ele acabou de baixar. Isso o Banco Central tem que evitar ao máximo: descer hoje, ver que se equivocou e mudar de ideia. Não pode fazer isso.

    A atividade econômica tem que voltar à medida que o governo novo mostrar que tem um plano mais ou menos estabilizado para o Brasil, que tem alguma governabilidade.

    Gilberto Borça Junior  O ciclo de redução de juros, de 14,25% a 6,5%, foi muito intenso. Em tese, a economia já deveria ter reagido e o que a gente pode ver é que o impacto na demanda não aconteceu. A taxa neutra de juros é muito difícil de calcular, mas como a economia não andou, há uma série de fatores que sugerem que ela caiu.

    Isso significa que essa taxa de 6,5% pode ainda não estar sendo estimulativa para a economia, ou pelo menos não tão estimulativa quanto o Banco Central está divulgando. Sempre com a ressalva de que é muito difícil calcular essa taxa neutra, a manifestação de uma taxa estimulativa na economia já deveria ter acontecido.

    A manifestação maior de que a taxa pode estar fora do lugar vem da inflação cadente, das expectativas cadentes. Então talvez seja o momento de a política monetária ser mais ousada, ter uma dose um pouquinho maior de estímulo.

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