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Qual a causa e o tamanho da crise humanitária no Iêmen

País no Oriente Médio está em guerra civil desde 2015. Conflito é de interesse de potências globais

O Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio e está em guerra civil desde 2015. O conflito agravou as já precárias condições de extrema pobreza e fome da população. Desde 2017, a Organização das Nações Unidas classifica a situação como “a pior crise humanitária do mundo”.

Diálogos de paz entre os dois lados da guerra civil selados entre terça-feira (11) e quinta-feira (13) levaram à promessa mútua de libertar prisioneiros de guerra e um cessar-fogo em uma das cidades mais críticas do conflito. Mas os efeitos do pacto, mediado pela ONU, ainda são incertos.

Mapa mostra a localização do Iêmen

Por que o país está em guerra

Atualmente, a guerra civil se dá entre as forças do governo iemenita e os insurgentes houtis. Ambos reivindicam a legitimidade de governar o país do Oriente Médio.

Os houtis são um movimento político e religioso, do islamismo xiita — corrente minoritária entre os muçulmanos, que diverge dos sunitas sobre quem foi o legítimo sucessor de Maomé, no século 7.

Mesmo dentro do xiismo, os houtis são uma minoria, pois seguem a linha zaidita, diferente do xiismo predominante em países como Irã e Iraque.

Durante 1918 e 1962, os zaiditas governaram o reino do Iêmen do Norte, na época um país independente. Uma guerra civil e uma série de golpes de Estado afastaram os zaiditas do poder.

Em 1978, emergiu a figura de Ali Abdullah Saleh, que governou por 33 anos contínuos o Iêmen do Norte e, depois, o Iêmen unificado. Líder de um regime republicano, ele foi apoiado pela Arábia Saudita, Israel e potências ocidentais.

Os zaiditas e o movimento houti levantam a bandeira do combate à corrupção e viam Saleh como um mau governante. Após diversas insurgências mal-sucedidas, os houtis voltaram a ganhar força em 2011, durante a Primavera Árabe, série de revoltas populares no Oriente Médio e no norte da África que depuseram líderes autoritários e há décadas no poder, entre eles o próprio Saleh.

O pacto político para a saída de Saleh foi controverso, pois quem assumiu foi o seu vice, Abdrabbuh Mansour Hadi, menos popular e símbolo de continuísmo. A turbulência social foi se intensificando com insucessos do governo e, em 2015, os houtis tomaram controle militar da capital do país, forçando Hadi a renunciar.

Foi aí que começou a guerra civil. Hadi chegou a fugir do país em 2015, mas retornou e disse que cancelava sua renúncia. Ele só pôde bancar essa reviravolta por conta do apoio de aliados estrangeiros: uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita — alguns dos outros integrantes são Emirados Árabes, Egito, Marrocos e Bahrein, todos eles países de maioria sunita. Atualmente, Hadi vive na Arábia Saudita. É de lá que ele, pelo menos no papel, governa o país.

Há anos essa coalizão bombardeia territórios controlados pelos houtis. Os Estados Unidos e o Reino Unido oferecem apoio logístico contra os houtis, como combustível para aeronaves, venda de armas e compartilhamento de informações. São países interessados em garantir que o aliado Hadi permaneça no poder, pelo fato de os houtis se colocarem contra o Ocidente.

Do outro lado, os houtis recebem apoio do Irã e do Hezbollah, partido político libanês de orientação xiita e que possui um braço armado. Ambos fornecem armamentos e apoiam o lançamento de mísseis contra os países da coalizão saudita. Em geral, esses mísseis são interceptados e não geram grandes danos.

Rival dos EUA e rival regional da Arábia Saudita pela hegemonia no Oriente Médio, o Irã tem interesse em expandir sua área de influência, com a ascensão de um grupo aliado ao poder no Iêmen.

O tamanho da crise humanitária

A coalizão liderada pela Arábia Saudita tem imposto bloqueios aéreo, marítimo e terrestre a regiões controladas pelos houtis. Isso significa dificultar que bens básicos, inclusive comida, cheguem a esses locais. O que consegue entrar, em geral, custa caro e não é suficiente para suprir a população.

Além disso, o conflito e os bombardeios destruíram plantações e pastos, que já eram insuficientes antes da guerra. Serviços públicos e postos de saúde também foram comprometidos, dificultando o atendimento a civis. A ajuda humanitária que chega ao Iêmen é limitada.

A tragédia humanitária

MORTALIDADE

Os números são incertos, mas um grupo britânico que monitora o conflito afirma que aproximadamente 60 mil pessoas morreram na guerra do Iêmen desde 2016. Contando desde o início, um ano antes, a estimativa é de 70 mil e 80 mil mortes, e o ritmo tem aumentado recentemente.

FOME E DESNUTRIÇÃO

Mais da metade da população iemenita está em situação de insegurança alimentar, segundo a ONU. São 20 milhões de pessoas com algum grau de desnutrição. Isso representa mais do que toda a população do Chile ou da Holanda, por exemplo.

CRIANÇAS

A ONG britânica Save the Children, que lida com direitos da infância, estima que pelo menos 85 mil crianças morreram de fome no Iêmen desde o começo da guerra.

DOENÇAS

Os problemas sanitários e de desnutrição são terreno fértil para a propagação de doenças. O Iêmen registra 1,2 milhão de casos suspeitos de cólera, dentre os quais 2.515 mortes confirmadas.

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