Relatório do Coaf: as reações de Bolsonaro e seu entorno

Presidente eleito diz ser o principal interessado em esclarecer suspeitas sobre as movimentações bancárias de ex-funcionário de um dos seus filhos

     

    A investigação da Polícia Federal de irregularidades na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tem sido motivo de desgaste para Jair Bolsonaro e integrantes de sua família.

    As apurações não atingem diretamente o presidente eleito nem seus filhos parlamentares. As suspeitas por ora são contra o policial militar Fabrício de Queiroz, um ex-assessor de Flávio Bolsonaro, deputado estadual pelo Rio e eleito senador em 2018. Flávio é o mais velho dos cinco filhos de Bolsonaro.

    O caso foi tornado público quando o jornal O Estado de S. Paulo, em 6 de dezembro de 2018, revelou a existência de um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que apontou a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta bancária de Queiroz.

    O Coaf é um órgão vinculado ao Ministério da Fazenda criado em 1998 para atuar no combate à lavagem de dinheiro. O alerta do conselho não indica que a movimentação seja necessariamente ilegal. Essas informações por vezes são repassadas às instituições financeiras ou repassadas às autoridades quando solicitadas para fins de investigação.

    Coaf e os Bolsonaro

    A conta do ex-assessor

    O relatório em que Queiroz aparece menciona movimentações suspeitas em contas de 75 servidores e ex-servidores da Assembleia do Rio, que trabalham ou trabalharam para ao menos 22 deputados, filiados a 14 partidos. Muitas das transações eram incompatíveis com as rendas declaradas.

    A investigação

    O procedimento está sob sigilo e faz parte da Operação Furna da Onça, desdobramento da Lava Jato no Rio, que em novembro de 2018 prendeu sete deputados por suspeitas de receber mesadas para apoiar o ex-governador Sérgio Cabral, condenado e preso por corrupção. Flávio Bolsonaro não foi alvo daquela ação.

    A suspeita

    Documento da Polícia Federal, parte da Operação Furna da Onça, afirma haver indícios de um esquema de contratação ilegal de servidores que repassam parte dos salários a deputados e assessores da Assembleia do Rio. É entre essas suspeitas que entra o relatório elaborado pelo Coaf que cita Queiroz. As duas filhas e a mulher dele também trabalharam no gabinete de Flávio e, segundo reportagem do Jornal Nacional, aparecem no relatório do Coaf. Um dos depósitos feitos a Queiroz veio de outro ex-assessor do deputado: Wellington Sérvulo Romano da Silva.

    Transferências

    O conselho identificou que parte dos depósitos na conta de Queiroz era feita em datas próximas aos dias de pagamento da Assembleia. Ainda não há informações oficiais sobre a origem do dinheiro nem sobre o destino dele. O Coaf identificou também que o ex-assessor fez uma transação de R$ 24 mil, em cheque, para Michelle Bolsonaro, esposa do presidente eleito e futura primeira-dama.

    Até o momento, o ex-assessor permanece em silêncio. Amigo de Bolsonaro desde 1984, Queiroz deixou de trabalhar para Flávio em outubro de 2018. Ele era segurança e motorista do deputado.

    O que Bolsonaro já disse

    Eleito após derrotar o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) no segundo turno das eleições, Bolsonaro fez do combate à corrupção uma de suas bandeiras na campanha.

    Desde que o caso veio a público, o presidente eleito já se manifestou algumas vezes. Em 7 de dezembro, no dia seguinte à primeira reportagem, afirmou que o depósito de R$ 24 mil para sua esposa era o pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil feito por ele a Queiroz.

    No dia seguinte, o presidente eleito disse que não declarou o empréstimo nem o pagamento em seu imposto de renda e que, se houver erro, vai corrigi-lo.

    “Lamento o constrangimento que ela [Michelle Bolsonaro] está passando. Ninguém dá dinheiro sujo em cheque. (...) Se eu errei, arco com as minhas responsabilidades perante ao Fisco, sem problema nenhum”

    Jair Bolsonaro

    presidente eleito, em declaração a jornalistas, em 8 de dezembro de 2018

    Em 9 de dezembro, Bolsonaro afirmou que cabia ao ex-assessor explicar as operações rastreadas pelo Coaf. O presidente eleito voltou ao assunto na noite de quarta-feira (12), ao final de uma transmissão ao vivo em suas redes sociais.

    Bolsonaro dedicou pouco mais de 2 dos 22 minutos da transmissão para tratar do “problema” do ex-assessor, como o eleito classificou o caso. Ele enfatizou não haver investigação contra ele e seu filho e que tem interesse em ver as responsabilidades esclarecidas “o mais rápido possível”.

    “Se algo estiver errado, que seja comigo, com meu filho, com o Queiroz, que paguemos aí a conta deste erro, que nós não podemos comungar com erro de ninguém. (...) Dói no coração da gente? Dói porque o que nós temos de mais firme é o combate à corrupção”

    Jair Bolsonaro

    presidente eleito, em declaração em seu Facebook, em 12 de dezembro de 2018

    O que a família de Bolsonaro já disse

     

    Flávio Bolsonaro tem se manifestado sobre o caso por meio de suas redes sociais. Em 8 de dezembro de 2018, o senador eleito afirmou estar com a “consciência tranquila” e que cabe ao ex-assessor se explicar.

    Na manhã de quinta-feira (13), ele afirmou que a mídia está fazendo “uma força descomunal” para desconstruir a imagem dele e de seu pai. Na mensagem, o senador eleito diz que há movimentações suspeitas de assessores de vários outros parlamentares.

    “Basta ver como [veículos] abordam a movimentação na conta de meu ex-assessor, como se ele tivesse recebido R$ 1,2 milhões, quando na verdade foram R$ 600 mil que entraram mais R$ 600 mil que saíram de sua conta. Ainda assim um valor alto e que deve ser esclarecido por ele, que tomou a decisão de não falar com a imprensa e somente falar ao Ministério Público. Isso é ruim pra mim, mas não tenho como obrigá-lo”

    Flávio Bolsonaro

    deputado estadual do PSL e senador eleito pelo Rio, em mensagem publicada em seu Facebook, em 13 de dezembro de 2018

    A futura primeira-dama Michelle Bolsonaro também se pronunciou. Em seu perfil no Twitter, afirmou que o valor depositado em sua conta era uma das parcelas do pagamento do empréstimo feito ao ex-assessor.

    “Acho que já está mais do que claro de que nenhum de nós recebeu propina. Ninguém recebe propina com pagamento com cheque nominal”

    Michelle Bolsonaro

    futura primeira-dama, em mensagem em seu perfil no Twitter, em 10 de dezembro de 2018

    Outro filho do presidente eleito, Eduardo Bolsonaro, deputado federal reeleito por São Paulo, evitou o assunto.

    “Gente, olha, eu estou em Brasília aqui direto. Eu sou um deputado federal. Sobre essas questões aí, lamento informar, mas a vida do assessor do Flávio, ou de algumas pessoas lá, outros assessores, eu não tenho como dar informação a vocês. Eu sou a pessoa errada para esse tipo de pergunta”

    Eduardo Bolsonaro

    deputado federal do PSL, em declaração a jornalistas, em 12 de dezembro de 2018

    O que disseram aliados e futuros ministros

    O primeiro nome da futura equipe presidencial a se pronunciar foi o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que assumirá como ministro-chefe da Casa Civil. Em 7 de dezembro, ele afirmou que a revelação das informações são uma tentativa de destruir a reputação de Bolsonaro. Irritado com a insistência dos jornalistas em perguntar sobre o assunto, ele abandonou a entrevista coletiva.

    Antes, ele questionou a atuação do Coaf, sugerindo que o órgão não trabalhou com igual afinco em outros momentos. O Coaf, que no governo Bolsonaro ficará vinculado ao Ministério da Justiça, forneceu informações às investigações do mensalão e da Lava Jato.

    Ao programa Canal Livre, na madrugada de segunda-feira (10), Onyx afirmou haver “muito estardalhaço” sobre o assunto. Na terça-feira (11), disse que é preciso investigar.

    “Olha, isso precisa ter uma investigação para que tudo se esclareça. O presidente Bolsonaro é um homem que sempre se pautou pela verdade, não teme a verdade, e a gente tem total tranquilidade dessa circunstância e em qualquer outra. A longa vida pública dele é o atestado maior”

    Onyx Lorenzoni

    deputado federal (DEM-RS) e futuro ministro da Casa Civil, em declaração a jornalistas em 11 de dezembro de 2018

    Indicado por Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, o ex-juiz federal Sergio Moro falou pouco sobre o tema. Conhecido por sua atuação na Lava Jato e pelo duro discurso de combate à corrupção, Moro limitou-se a dizer que as transações precisam ser esclarecidas.

    “Os fatos têm que ser esclarecidos, o presidente já apresentou os esclarecimentos, têm outras pessoas que precisam prestar os seus esclarecimentos, e os fatos, se não forem esclarecidos, têm que ser apurados. (...) O ministro da Justiça não é uma pessoa que deve ficar interferindo em casos concretos, e eu, na verdade, nem sou ainda ministro da Justiça”

    Sergio Moro

    ex-juiz federal, futuro ministro da Justiça, em declaração a jornalistas, em 10 de dezembro de 2018

    O vice-presidente eleito Hamilton Mourão afirmou que, se o esquema for de “caixinha” de ex-funcionário, é uma “burrice ao cubo”. O general da reserva afirmou não ter elementos suficientes para emitir um juízo de valor sobre o caso e que o ex-assessor precisa se explicar.

    “Pô, por que o cara não entregava dinheiro em espécie? Quando há ilicitude, o dinheiro é entregue em espécie. A partir do momento que você coloca conta bancária, você está passando recibo, né. (...) O dono da bola [quem deve explicações] se chama Queiroz”

    Hamilton Mourão

    general da reserva e vice-presidente eleito, em declaração a jornalistas, em 12 de dezembro de 2018

    O general da reserva Augusto Heleno Ribeiro Pereira, futuro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), afirmou que o presidente eleito está “isento” nesse caso. Ele também ironizou a atuação do Coaf. “Porque [o conselho] ficou em silêncio durante muitos anos, né”, afirmou sem especificar a que se referia.

    “O que apareceu dele é irrisório, uma quantia pequena, e ele mesmo já explicou. Acredito que não vá atingi-lo. (...) Os responsáveis vão ter que assumir a culpa. Se houver alguma penalidade, vão ser submetidos a essa penalidade”

    Augusto Heleno Ribeiro Pereira

    general da reserva, futuro ministro-chefe do GSI, em entrevista ao Conversa com o Bial, exibida em 12 de dezembro de 2018

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