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Os danos psicológicos do abuso sexual, por estas especialistas

Uma psicóloga e uma psicanalista falaram ao 'Nexo' sobre as consequências para as vítimas, a dificuldade de falar sobre o ocorrido e a posição de poder do agressor

 

No dia 8 de dezembro de 2018, mulheres que acusam o médium João de Deus de abuso sexual vieram a público em uma reportagem do programa da TV Globo Conversa Com Bial.

Após a transmissão da primeira reportagem, dezenas de outras acusações surgiram, levando o Ministério Público de Goiânia a criar, na segunda-feira (10), uma força-tarefa para ouvir os relatos e investigar as acusações. 

Até domingo (9), pelo menos 200 mulheres de todo o país haviam prestado queixa afirmando ser vítimas de João de Deus, segundo disse a promotora Maria Gabriela Manssur, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público do Estado de São Paulo ao portal G1.

Em quatro dias, desde que o canal de denúncias foi criado, a força-tarefa recebeu mais de 300 mensagens e contatos.

Entre as que se apresentaram como vítimas estão ex-pacientes que afirmam ter sido abusadas durante o atendimento espiritual, incluindo crianças e adolescentes, e pelo menos uma ex-funcionária da Casa Dom Inácio de Loyola. Os casos datam desde a década de 1980.

Algumas relatam ter sido ameaçadas de morte por João de Deus, caso rompessem o silêncio. Com medo, a maioria das que denunciaram os abusos teve a identidade mantida em segredo pela imprensa.

“O que me impactou muito nesse caso do João de Deus é algo que aparece sempre: o silenciamento. Até nas que tiveram coragem de fazer uma denúncia, a autocensura é tremenda. Ameaçar pessoas da família é um procedimento habitual nos abusos, criar uma situação de medo, em que a pessoa de alguma forma se culpabiliza, pensando no que fez, em por que [o abuso aconteceu] com ela/ele, sente vergonha”, disse ao Nexo a psicanalista Lucia Barbero Fuks, autora de “Narcisismo e Vínculos” e outros livros que trazem escritos sobre as consequências do abuso sexual para a vítima.

Além dela, o Nexo conversou também com Fabiana Saffi, psicóloga chefe do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Condensamos abaixo, em três pontos, as falas das especialistas sobre que tipo de dano são causados por abuso sexual, do ponto de vista psicológico.

Resposta psicológica das vítimas

Fabiana Saffi Isso vai depender um pouco da situação. Se é uma situação que envolve um pouco mais de violência física, o cérebro [da vítima] vai reagir como se o corpo estivesse ameaçado e isso pode gerar, no futuro, um Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Mas nem toda pessoa que passa por uma situação de abuso desenvolve o transtorno. Também depende da frequência da situação: se foi uma situação específica ou abusos que se repetiam por meses, anos. Nesse caso, fica mais grave. Se foi uma situação específica e nunca mais aconteceu, é mais fácil lidar.

Quando é recorrente, acontece com alguém próximo, ela está sujeita à situação de violência dia a dia. Além da questão do abuso e da violência, ela se sente usada, causa muito mais dano do que um episódio isolado.

Faz com que a vítima se sinta muito insegura nos relacionamentos que venha a ter no futuro. É mais difícil conseguir confiar em alguém, se entregar totalmente, porque a experiência dela mostrou que, quando ela confia em alguém, é traída.

Lucia Barbero Fuks [As vítimas] se sentem péssimas. Assim como são silenciadas para fazer a denúncia, muitas vezes ficam anos sem falar com ninguém [sobre o abuso], até que em algum momento entram em um atendimento psicológico e então falam.

Se as pessoas falam do assunto vinte ou trinta anos depois é porque [o abuso] é uma coisa inesquecível, que marca definitivamente a vida das pessoas, é um dano psicológico irreversível.

Quando os abusos acontecem repetidamente, cria-se uma situação de submissão. Em geral, duram anos, quando é um pai com uma filha por exemplo, só chega ao fim na puberdade, no momento em que a criança começa a ter uma autonomia maior.

Por que é difícil relatar

Fabiana Saffi Quando não houve ameaça, agressão física, foi uma agressão psicológica do abuso sexual, é difícil de relatar porque, muitas vezes, não deixa marcas físicas. e aí a pessoa pensa “não vão acreditar em mim, não tem nada no meu corpo que comprove o que aconteceu, vai ser a minha palavra contra a do outro”.

Além disso, muitas vezes, o abuso é cometido por pessoas próximas, e o abusador tem uma característica de ser muito ‘sedutor’. Quando não envolve violência física, é porque ele consegue praticar o abuso por ser simpático, legal, sedutor. E aí a vítima pensa “ele é tão legal com todo mundo, como vão acreditar que fez isso comigo? Ninguém vai acreditar em mim”.

Outra coisa é que a vítima normalmente se sente culpada pelo abuso, isso é muito comum. A culpa [que ela sente] é muito grande, por isso ela não denuncia. Também pode envolver violência verbal: “se você contar, tal coisa vai acontecer, vou matar você, vou fazer mal para alguém que você conheça”. Quando esse tipo de ameaça está envolvida, a pessoa não conta por medo que a ameaça se concretize. 

Mas, quando há outros relatos, a vítima se fortalece. Se dá conta de que não é a única que passou por essa situação, e que, se acreditaram nas outras vítimas, acreditarão nela também.

Lucia Barbero Fuks É muito frequente que as pessoas não falem quando é um abuso [cometido] por pessoas conhecidas, famosas, parentes próximos, pais – mães dificilmente abusam, a não ser que sejam psicóticas.

Se alguém sofre uma violência, é estuprada na rua, também sente vergonha, mas é bem mais fácil de denunciar, porque é uma agressão externa.

A posição do agressor

Fabiana Saffi Pode haver várias explicações [para o comportamento do agressor]. Se [o abuso] acontece exclusivamente com crianças, a questão de um transtorno parafílico, a pedofilia, pode estar envolvida.

Se o abuso acontece em situações diversas, [pode derivar] de uma necessidade de mostrar o poder dele, de se sentir na posição de ser mais poderoso, dominador, superior.

Muitas vezes, o abusador não consegue ter relacionamentos saudáveis com pessoas da mesma idade, do mesmo nível sociocultural, educacional, por isso usa dessa força para submeter o outro à vontade dele.

Lucia Barbero Fuks O caso do João de Deus parece ser um caso como o do [médico Roger] Abdelmassih. São situações diferentes, mas se as pessoas iam até lá pensando que era algo mágico, maravilhoso, que iriam sarar ou coisa do tipo, logicamente [João de Deus] estava em um lugar de onipotência.

Já que ele era mágico, maravilhoso, tinha poderes sobrenaturais, as pessoas acreditavam quando ele dizia que [o atendimento que envolvia abuso] era assim mesmo. Mas isso é completamente falso, porque, por outro lado, ele mesmo sabia que era um assunto sigiloso; ameaçava, sabia que estava transgredindo e não faria isso mais abertamente.

É inegável o poder que ele exercia sobre todo mundo que estava lá, todos os que estavam lá iam por admiração a ele. Já iam em uma situação de submissão.

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