Como limitar carros mudou o perfil desta cidade espanhola

Restrição da circulação de veículos em vias antes repletas de trânsito tornou Pontevedra mais segura e atrativa para famílias com filhos pequenos

 

Desde 2000, a cidade espanhola de Pontevedra vem restringindo o uso do carro em determinadas vias e ampliando as áreas para pedestres.

Entre os resultados estão o crescimento da população, com destaque para as faixas mais jovens, o declínio da taxa de criminalidade e das emissões de dióxido de carbono e a transformação do centro da cidade em um espaço mais acolhedor para crianças e seus cuidadores.

Pontevedra é uma cidade de pouco mais de 80 mil habitantes, localizada na região da Galícia, no noroeste da Espanha.

Antes da pedestrianização, as ruas estreitas do centro estavam tomadas por carros, circulando ou estacionados.

O que foi feito

Com a eleição de Miguel Anxo Fernández Lores, do partido Bloque Nacionalista Galego (BNG), para prefeito de Pontevedra em 1999, foi lançado um plano para limitar o acesso de veículos automotivos ao centro histórico da cidade.

As principais ações foram eliminar as centenas de vagas de estacionamento do centro, reduzir o limite de velocidade, tornar as faixas de tráfego mais estreitas e impedir, por meio de sinalização, que automóveis cruzassem a cidade de norte a sul, passando pelo centro. 

A circulação de carros não é totalmente proibida na região central, mas foi reduzida ao mínimo necessário: é permitido circular para acessar garagens, realizar carga e descarga, para emergências ou entregas, por exemplo.

Mas a ausência de vagas onde seja permitido estacionar por mais de 15 minutos acaba desencorajando o uso do carro nas vias que priorizam os pedestres. 

“Descobrimos que 60% dos veículos que circulavam pela cidade estavam rodando em círculos à procura de uma vaga para estacionar. Agora, como sabem que não vão conseguir parar, deixaram de trazer seus carros para o centro e estacionam fora dele”, disse ao site Citylab César Mosquera, conselheiro urbanístico do governo municipal de Pontevedra.

Ao longo das quase duas décadas de ações que restringem a circulação de automóveis, Pontevedra expandiu as zonas de pedestres também para as periferias e as transformações seguem em progresso.

Nos próximos anos, dezenas de cidades espanholas também devem reduzir o uso do carro nas zonas centrais, política que conta com o apoio da maioria da população do país.

No início, a pedestrianização enfrentou oposição ferrenha de moradores e comerciantes, que chegaram a fazer campanhas e mover ações judiciais contra o projeto.

Com o tempo, a resistência deu lugar à aceitação da medida. A ampliação da pedestrianização é amplamente aceita pelos habitantes. Fernández Lores segue no cargo por quase duas décadas, desde 1999.

Alguns dos habitantes de Pontevedra que não moram na zona de pedestres ou em suas imediações são críticos à política por afirmarem ter sido excluídos das melhorias urbanas.

Para eles, dada a insuficiência do transporte público, teria restado usar o carro para ir ao centro e ter que lidar com a limitação de vagas ou simplesmente deixar de ir ao centro.

Impactos no planejamento urbano

Os 80 mil veículos que tomavam a cidade diariamente ao final da década de 1990 foram reduzidos para sete mil e 1,3 milhões de metros quadrados de vias foram liberadas para pedestres, segundo uma reportagem publicada em dezembro de 2018 pelo jornal El País.

O uso do carro no centro da cidade foi reduzido em 77% e as emissões de dióxido de carbono diminuíram 66%, segundo dados da prefeitura.

Também de acordo com a prefeitura, caminhar é atualmente o meio de deslocamento escolhido por 90% dos moradores para fazer compras, e 80% das crianças que têm entre 6 e 12 vão à escola a pé, sem ser acompanhadas pelos pais.

Ao Citylab, Willy García, morador de Pontevedra e pai de uma criança de três anos, disse que não há necessidade de segurar a mão do filho o tempo inteiro, como acontece em outras cidades. Segundo ele, em outros lugares, só se poderia andar com o filho como anda em Pontevedra dentro de um shopping.

Segundo a reportagem, as vias da cidade estão cheias de crianças brincando livremente, inclusive com brinquedos espalhados sobre o asfalto, carrinhos de bebê e parquinhos sem cercados.

 

O centro histórico se tornou mais populoso e economicamente ativo,  convertendo-se em um espaço mais acolhedor e seguro para crianças e seus pais ou cuidadores.

Esse redesenho da cidade teve impacto demográfico sobre Pontevedra, atraindo famílias jovens do noroeste da Espanha para a cidade e aumentando sua população de crianças. O país apresenta baixa taxa de natalidade.

Nas últimas décadas, a cidade apresentou o maior crescimento entre as maiores cidades da Galícia. Passou de 73.871 habitantes em 1998 para 82.671 em 2017, segundo o Instituto Galego de Estatística.

Desde 2000, a população de crianças de zero a 14 anos cresceu 8%, mais do que os 3,2% de aumento nessa faixa etária da população de Santiago de Compostela, cidade próxima a Pontevedra e 2,4% em Vigo, polo econômico da região. 

A chave da atratividade de Pontevedra para as famílias é a criação de um ambiente urbano e social que faz com que elas se sintam apoiadas pela comunidade, segundo o especialista em demografia da Universidade de Santiago de Compostela, Carlos Ferrás.

A pedestrianização das vias forneceu a contribuição fundamental para a constituição desse ambiente. Outras mudanças também ajudaram, como manter a localização das escolas no centro e transferir o centro de maternidade e pediátrico de um grande complexo hospitalar para uma unidade menor, localizada na zona de pedestres.

Há ainda uma série de atividades culturais oferecidas pela cidade com foco nas crianças, pelas bibliotecas e no teatro local.

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