Quanto mais robôs, maior o PIB do país, afirma este estudo

Países do Sudeste asiático têm saído na frente em automação, e nações desenvolvidas teriam de acelerar adoção de máquinas se quiserem se manter competitivas

 

As nações que querem se tornar mais produtivas e competitivas só vão alcançar seus objetivos se investirem de maneira rápida, profunda e ampla em robôs. É o que defende um estudo divulgado em novembro de 2018 pela Fundação de Inovação e Tecnologia da Informação (Itif, na sigla em inglês), um dos principais institutos de pesquisa sobre ciência e tecnologia, com sede em Washington, nos Estados Unidos.

O raciocínio é simples. Empresas que não investem em novidades e em sistemas mais eficientes de produção perdem competitividade e correm o risco de fechar as portas, gerando desemprego. Já as que apostam na automação podem dispensar empregados num primeiro momento, mas crescem, continuam na disputa por mercado e são capazes de criar novas oportunidades em outros setores para os trabalhadores que haviam sido substituídos pelas máquinas.

A adoção de robôs, que podem ser usados em diferentes áreas como a agricultura, a logística, o setor hoteleiro e até em pizzarias, como já vem ocorrendo no Vale do Silício, nos Estados Unidos, com a Zume Pizza, tem aumentado cada vez mais no mundo.

Robôs e mercado de trabalho

Entre 2014 e 2015, a taxa de robotização no mundo havia crescido 5%, segundo a Federação Internacional de Robótica. Em 2015, a relação era, em média, de 66 robôs para cada 10 mil trabalhadores. Pulou para 74 em 2016, e para 85, em 2017.

Segundo um estudo do Centro de Pesquisa de Economia e Negócios, que tem sede em Londres, na Inglaterra, o investimento em robôs contribuiu em 10% para o crescimento do PIB per capita em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entre 1993 e 2016.

A robotização por país

A Coreia do Sul liderava o ranking de países mais robotizados em 2017, segundo o levantamento da Federação Internacional de Robótica. Tinha 710 robôs para cada 10 mil funcionários, seguida de perto por Singapura, com 658. A lista considerava 27 países.

Em terceiro lugar, vinha a Alemanha, com uma taxa de 322 robôs para cada 10 mil trabalhadores, cerca da metade dos líderes do ranking. O Brasil aparecia na lanterna: possuía apenas 10 robôs pela mesma quantidade de funcionários, bem abaixo da média global e à frente apenas de Rússia e Índia.

Segundo a Itif, os Estados Unidos (sétimo na lista) e os países desenvolvidos da Europa (como o Reino Unido, que era o 21º) estão saindo atrás nessa corrida. 

A taxa esperada

O trabalho calculou uma outra taxa, de adoção de robôs em relação ao que seria esperado. Dos sete países que lideram esse ranking, seis são do Sudeste asiático.

A Coreia do Sul também fica na frente nessa relação. O país asiático alcançou uma taxa de robotização 2,4 vezes maior do que a esperada. Ela é seguida por Singapura, Tailândia, China e Taiwan. Só então, na sexta posição, aparece um país europeu: a Eslovênia, à frente do Japão, o sétimo colocado.

Os Estados Unidos aparecem apenas em 16º, com uma taxa 49% abaixo do esperado. O Reino Unido fica em 23º, com 68% abaixo do desejado. O Brasil ocupa a antepenúltima posição do ranking, com 83% abaixo do que se esperava.

De acordo com o Itif, o crescimento geral do PIB (Produto Interno Bruto) por pessoas empregadas, estagnou nos últimos anos, e isso se deve ao desempenho dos países desenvolvidos que ficaram para trás na robotização.

Entre 1999 e 2006, no mundo todo, a taxa de crescimento foi de 2,6%. Ficou em 2,5% de 2007 a 2012 e depois recuou para 1,7%, em 2012. Entre 2013 e 2014, recuperou-se, indo para 2,1%, mas o número permaneceu abaixo dos períodos anteriores.

Em comparação com o período entre 1999 a 2006, o crescimento da produtividade apenas na Europa, Estados Unidos e Japão caiu pela metade depois de 2007, afirma o trabalho. “Uma das mais importantes tecnologias para ajudar a reverter a desaceleração na produção, fazendo-a ir para frente, é a robótica”, diz o estudo.

As causas do atraso

Segundo o estudo, não está claro por que os países desenvolvidos, como os Estados Unidos, estão atrás na taxa de robotização esperada. Mas a pesquisa sugere algumas hipóteses. Países como Coreia do Sul têm traçado metas nessa área e estão disparando na frente. Alguns possuem programas públicos e institutos que ajudam pequenas e médias empresas a adotar inovações tecnológicas. A China, por exemplo, tem subsidiado massivamente a adoção das máquinas.

A cultura local em relação à automação também pode ser determinante. No Japão, existe um prêmio anual de robótica, enquanto em outras nações desenvolvidas o fenômeno ainda é visto como um risco aos empregos.

A perda de empregos

Os benefícios para o trabalhador nesse cenário de crescimento do PIB pela robotização, como defendido pelo Itif, são colocados em dúvida por muitos estudiosos.

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em julho de 2018, o professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia e Administração da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro “Robô: Ruim com ele, pior sem ele”, diz que a mecanização sempre causou reações ao longo da história. Houve oposição, por exemplo, ao surgimento do arado, aos teares na Inglaterra no século 19 e a Henry Ford e sua linha de produção, no século 20, nos Estados Unidos.

“A tecnologia, contudo, sempre venceu. Por um lado, pois aumentava a produtividade da economia como um todo; por outro, e não se pode ignorar este fator, porque só afetava empregos de baixa qualificação”, escreve.

As mudanças atuais, porém, têm sido diferentes, pois os empregos de alta qualificação também estão sendo atingidos. Feldmann lembra que robôs têm sido capazes de ler mil tomografias por hora, com 99% de acertos, colocando em risco a atividade dos médicos, por exemplo.

Funções que necessitam de criatividade e capacidade de solucionar problemas escapariam das ameaças da robotização, fenômeno que avança mais sobre atividades repetitivas e rotineiras, diz o professor. Mas nem todas essas atividades de baixa qualificação desapareceriam, pois muitas vezes é mais barato manter um trabalhador manual do que desenvolver uma tecnologia para determinado serviço, como acontece no caso dos pedreiros e faxineiros.

Segundo Feldmann, porém, a chamada quarta Revolução Industrial em curso destina-se “a aumentar a produtividade das fábricas” e não leva em conta “a possibilidade de preservar empregos”.

Num estudo feito pelos economistas Michael Osborne e Carl Frey, da Universidade de Oxford, em 2013, estima-se que 45% dos empregos poderiam ser eliminados pela tecnologia até 2030.

Alguns sindicatos defendem, como solução, a taxação sobre ganhos de produtividade de empresas que usam robôs. Outros querem a criação de órgãos reguladores.

Resistir é pior

Feldmann escreve que “não se deve apostar” que a robotização criará “postos de trabalho não previstos” para “resolver o problema do desemprego”, como defende o relatório da Itif.

“Imaginava-se que a sociedade pós-industrial geraria ocupações em novos setores, sobretudo ligados à área de serviços, para absorver os trabalhadores deslocados da indústria. Essa perspectiva foi descartada (...). Ao mesmo tempo, as ocupações criadas como decorrência dessas tecnologias são em quantidade diminuta”, escreve.

Para ele, porém, frear o desenvolvimento tecnológico seria uma catástrofe. Países e empresas que não adotarem robôs, diz, perderiam competitividade e gerariam desemprego, o que aproxima seu argumento ao do estudo do Itif.

“Apesar de todos estes aspectos assustadores, o que há de pior para um país é não discutir o assunto”, escreveu em seu artigo.

O Nexo fez três perguntas ao professor Paulo Feldmann, da USP, sobre o tema da automação em relação ao Produto Interno Bruto de um país.

Segundo o Itif, quanto mais robôs, maior o PIB de um país. Quando as empresas se mantêm competitivas, diz o estudo, elas podem criar novas oportunidades para trabalhadores que foram substituídos por máquinas. O senhor acredita nessa equação?

PAULO FELDMANN Essa constatação de que o PIB cresce devido aos robôs é muito perigosa. O que ocorre é que os países que estão crescendo mais por serem os grandes beneficiados da globalização recente também são os que usam o maior numero de robôs. Acho que os robôs aumentam ainda mais a produtividade desses países que já são produtivos, e isso pode até gerar novos empregos ou demandar mais robôs.

A maioria desses países está num momento bom de crescimento (como Coreia do Sul, China e EUA) e, por isso, surgem novos empregos em outras áreas. Acontece que esses países investem muito em educação de qualidade e essas pessoas com alto nível educacional partem para essas novas funções com facilidade.

Importante frisar que quem cria os novos empregos não são as empresas que dispensaram trabalhadores por causa dos robôs, mas sim a nação e a sociedade que está preparada para criar esses novos empregos e colocar gente atuando neles. Não é o caso do Brasil. Frise-se que os países que estão se dando bem não só têm políticas industriais consistentes, mas planos para orientar o desenvolvimento de longo prazo. O Brasil não tem nada disso.

A robotização massiva dos asiáticos representa uma ameaça aos países desenvolvidos? Eles serão forçados a acelerar esse processo?

PAULO FELDMANN Não há por que temer a robotização intensa nos países asiáticos. Brevemente os EUA e o Reino Unido estarão fazendo o mesmo e, nessa hora, os países asiáticos é que vão ter problema. Muita coisa que hoje é produzida na Ásia porque lá a mão de obra é mais barata já está sendo feita por robôs nos EUA. As atividades que usam robôs também empregam mão de obra (pouca, mas empregam).

Como na Ásia a mão de obra é muito mais barata, isso beneficiou os países asiáticos até agora. Daqui para frente, a necessidade de mão de obra será cada vez menor, e por isso os países asiáticos vão sofrer.

A robotização tira empregos, mas os países que não a adotam perdem competitividade, o que, por sua vez, gera desemprego. Como resolver essa contradição?

PAULO FELDMANN Criando medidas de proteção social, como fazem os países escandinavos. A renda mínima é um consenso de que é a melhor solução. Ou seja, você garante uma renda mínima para toda a população. Para garantir recursos para essa renda mínima, a carga tributária tem de ser grande.

Esse é um dos assuntos mais debatidos naqueles países e em alguns outros. A ideia é taxar muito as empresas e os trabalhadores que estão nos setores beneficiados pelos robôs e pela automação. Com essa arrecadação há fundos para pagar a renda mínima.

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