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Por que comer menos carne ajudará o planeta no futuro

Levantamento divulgado na COP 24 oferece soluções para alimentar a população mundial sem aumentar emissões de gases estufa

 

A brutalidade dos números é assustadora. Em 2050, o mundo terá 10 bilhões de habitantes, três bilhões (ou 15 Brasis) a mais que atualmente. Em condições de crescimento normais, será preciso um aumento de 56% na produção agrícola para alimentar toda essa população. Como consequência, pode haver uma expansão da área de plantio que equivale a duas vezes o território da Índia.

As informações constam de um relatório do World Resources Institute, ONG internacional que atua no meio ambiente. O desafio alimentar e agrícola seria, por si só, enorme. Mas como conseguir isso sem aumentar as emissões de carbono que precisam ser freadas drasticamente nas próximas décadas é a pergunta central do documento.

O lançamento do estudo ocorre na COP 24, a conferência do clima das Nações Unidas realizada na Polônia entre 3 e 14 de dezembro de 2018. É a mesma reunião internacional que seria realizada no Brasil em 2019, antes de ter sido cancelada pelo Itamaraty a pedido do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Relatório diz que se o desperdício de comida fosse reduzido em 25% até 2050, isso poderia significar a redução do deficit alimentar em 12% e a expansão territorial da frente agrícola em 27%

“Se tentássemos produzir toda a comida necessária em 2050 usando os sistemas de produção atuais, o mundo teria que converter a maior parte das florestas remanescentes e só a agricultura iria produzir quase o dobro das emissões permitidas da totalidade das atividades humanas”, afirmou Tim Searchinger, do WRI, ao jornal britânico The Guardian.

A situação em 2018

Hoje, de acordo com os dados da WRI, cerca de 50% da área vegetal da Terra é usada para a agricultura. A produção de carne e leite utiliza 83% desta porção cultivada (e responde por 60% dos gases estufa liberados pela produção agrícola). Expandir o cultivo às custas de florestas, e ainda por cima para exercer a pecuária, seria extremamente prejudicial às metas de redução de carbono.

O estudo propõe uma série de medidas para enfrentar o duplo desafio: alimentar mais gente e reduzir emissões de carbono. Em referência às etapas de uma refeição, a entidade estabeleceu um “menu” de 22 soluções dividido em cinco temas:

  • Segurar o aumento da demanda por certos alimentos
  • Otimizar a produção existente sem precisar expandir a área de cultivo
  • Proteger e restaurar ecossistemas
  • Aumentar o suprimento de peixes
  • Reduzir emissões da produção agrícola

Entre os tópicos, algumas das propostas do documento são:

Menos carne na mesa

Segundo o WRI, a expectativa é de que o consumo de carne aumente 88% no planeta entre 2010 e 2050. Os produtos de origem bovina, caprina e ovina são os que mais demandam espaço. O gado bovino demanda 20 vezes mais pasto e emite 20 vezes mais gases estufa por grama de proteína comestível do que proteínas que vêm de vegetais, tais como feijões, ervilhas e lentilhas. A entidade calculou que se o consumo de carne for limitado a 52 calorias por dia por pessoa até 2050 (o equivalente a 1,5 hambúrgueres por semana), poderia reduzir pela metade o intervalo entre o que se espera que o mundo vá emitir em 2050 e o quanto deveria emitir para manter o aquecimento da Terra em 2 graus, o teto da meta do Acordo de Paris.

Um campo mais produtivo

O documento ressalta que a demanda por proteína animal deve crescer 70% até 2050. Ao mesmo tempo, dois terços das terras agrícolas são usadas pela pecuária. Por isso, o WRI defende como “solução importante” o incremento da produtividade. De acordo com os cálculos da entidade, um aumento de 25% na produção de leite e carne por hectare entre 2010 e 2050 poderia melhorar o deficit de gases estufa em 11% e reduzir a necessidade de expansão da ocupação de terras em 20%.

Sem biocombustível

Segundo o WRI, combustíveis que incluem o uso de matéria orgânica em sua composição, caso do etanol e biodiesel, acabam ocupando área agrícola que poderia ser usada para cultivar alimentos. A eliminação da produção desse tipo de combustível nem terras agrícolas poderia levar a uma redução entre 56 a 49% do deficit alimentar. O documento ressalta que, ao contrário do que muitos governos e empresas apregoam, esse tipo de combustível não é “neutro” em termos de emissões. Ao contrário: ele precisa de bastante terra para cultivo, pode envolver grandes queimadas e não é energeticamente eficiente.

Reduzir o desperdício

Cerca de um quarto da comida gerada para a população da Terra não chega a ser consumida. O WRI lembra que a perda ocorre ao longo de toda a cadeia, do campo à mesa. Se o desperdício de comida fosse reduzido em 25% até 2050, poderia significar a redução do deficit alimentar em 12% e a expansão territorial da frente agrícola em 27%. Entre as soluções possíveis, estão o estabelecimento de metas de redução e a melhoria das condições de armazenamento em países mais pobres.

Outras dietas para o mundo

Se o mundo inteiro adotasse uma dieta vegana - ou seja, livre de qualquer produto de origem animal, incluindo carnes, ovos, leite e derivados - mais de oito milhões de vidas poderiam ser poupadas até 2050. Além disso, as emissões de gases poluentes seriam reduzidas em dois terços.

 

Em 2016, pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, estimaram o que aconteceria se o mundo inteiro adotasse uma dieta vegetariana ou vegana. Se a humanidade deixasse de consumir carne, a mudança na alimentação reduziria em 63% as emissões de gases poluentes na atmosfera. Caso abdicasse de qualquer proteína animal, incluindo ovos e leite, como fazem os veganos, as emissões de CO2 na atmosfera cairiam 70%.

A mudança pode ser parcial. O projeto “Segunda sem carne”, criado em 2003 pela organização The Mondays Campaign, voltada a promover iniciativas em prol da saúde, propõe a eliminação do produto em um dos dias da semana. Foi adotada por diversas instâncias públicas nos Estados Unidos, Europa e América Latina.

No Brasil, a campanha Segunda Sem Carne é promovida pela Sociedade Vegetariana Brasileira desde 2009. A organização já conseguiu o apoio, materializado na maioria dos casos na inclusão da campanha no calendário oficial municipal, de cidades brasileiras como Curitiba (PR), Campinas (SP) e Teresina (PI).

Em São Paulo, a Assembleia Legislativa aprovou em dezembro de 2017 a instituição do programa em restaurantes e refeitórios de órgãos públicos do Estado. O projeto acabou vetado pelo então governador Geraldo Alckmin (PSDB) que afirmou que uma mudança cultural não poderia ocorrer por intervenção do Estado.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que a projeção populacional para 2050 era de 10 milhões de habitantes. Na verdade, o número é de 10 bilhões. O texto foi corrigido às 12h50 de 11 de dezembro de 2018.

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