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Qual o interesse de Israel em se aproximar do Brasil

Em 2014, o governo israelense falou que o Brasil era um ‘anão diplomático’. Agora, adota uma política no sentido oposto

    Jair Bolsonaro toma posse como presidente do Brasil em 1º de janeiro de 2019. Como de costume, a cerimônia contará com a presença de outros chefes de Estado e governo do mundo. Um dos que devem comparecer é Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel.

    Caso Netanyahu mantenha o plano de ir a Brasília, será a primeira visita na história de um primeiro-ministro israelense ao país. É um sinal de que ele está buscando se aproximar do Brasil.

    Essa tentativa de aproximação é de mão dupla. Bolsonaro fez declarações favoráveis a Israel durante e depois da campanha. Ao ser eleito, concedeu sua primeira entrevista internacional a um jornal israelense.

    A transferência da embaixada

    O principal gesto é a promessa de transferir a embaixada brasileira em Israel da cidade de Tel Aviv para Jerusalém — tema sensível na política mundial e do Oriente Médio, pois significa reconhecer Jerusalém como capital de Israel, o que é contestado internacionalmente.

    A medida agrada a Netanyahu, que reivindica a cidade como capital. Hoje, só EUA e Guatemala têm suas embaixadas com sede em Jerusalém.

    Após críticas generalizadas e uma retaliação do Egito, Bolsonaro deu sinais ambíguos sobre o tema, sem deixar claro se continua com o plano de transferir a embaixada. Seu filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal, disse, no entanto, que a transferência da embaixada é questão de tempo apenas.

    Na economia, a parceria entre Brasil e Israel não é tão expressiva atualmente. Em 2017, a relação comercial foi deficitária para o Brasil, na ordem de US$ 419 milhões. No mesmo ano, Israel foi apenas o 54º principal país de destino das exportações brasileiras, o que piorou em 2018, no qual está em 65º lugar — considerando de janeiro a novembro. Os principais produtos importados de Israel são agrícolas, como pesticidas e fertilizantes.

    Desavenças no governo Dilma

    Em 2014, o governo Dilma Rousseff criticou uma ação militar israelense na Faixa de Gaza (território palestino) e convocou o embaixador brasileiro no país para pedir esclarecimentos sobre a situação, um sinal de retaliação na diplomacia.

    Nesse episódio, um porta-voz do governo Netanyahu disse que o Brasil era um “anão diplomático”, embora tenha se desculpado posteriormente. Quatro anos depois, as palavras e gestos do governo Netanyahu vão na direção oposta.

    A sucessão de poder em Israel

    Netanyahu está no poder desde 2009 — já havia cumprido um mandato entre 1996 e 1999. Ele também é o ministro israelense das Relações Exteriores e da Defesa, concentrando pastas vitais em si próprio. Em dezembro de 2018, a polícia israelense o indiciou pela terceira vez, por suspeitas de corrupção.

    Israel terá eleições até novembro de 2019 — a data exata ainda não foi definida. Desgastado internamente, Netanyahu corre o risco de sair do cargo depois de uma década. O movimento de Bolsonaro em direção a Israel pode, em menos de um ano, encontrar um primeiro-ministro novo e com visões políticas distintas.

    Uma análise sobre a aproximação

    Sobre os motivos dessa guinada de Netanyahu frente ao Brasil, o Nexo conversou com Michel Gherman, historiador e pesquisador de assuntos judaicos e árabes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    Por que Netanyahu, cujo governo classificou o Brasil como ‘anão diplomático’ em 2014, busca se aproximar do Brasil sob Bolsonaro?

    Michel Gherman O Brasil é o maior país na América Latina e muito importante na região. Ao que tudo indica, há uma mudança da diplomacia com o novo governo brasileiro, privilegiando os EUA e dando menos importância ao Mercosul [Mercado Comum do Sul]. Para Israel, há interesse que um país do tamanho do Brasil se vincule à mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, pois seria um reconhecimento para a reivindicação de Jerusalém como capital, algo que Netanyahu defende. O governo Netanyahu tem uma crise muito grande, suspeito de corrupção, ameaçado de perder ou nem se candidatar às eleições de 2019. Por isso, Netanyahu precisa contar vitórias na arena internacional, e essa seria uma vitória importante. Tem pouco a ver com a política internacional e muito com a política interna de Israel.

    ‘O próximo governo de Israel também vai estar interessado nessa mudança de embaixada’

    A diplomacia e as relações internacionais estão menos vinculadas à verdade e mais vinculadas às versões da verdade. O Brasil era “anão diplomático” quando tinha autonomia nas relações internacionais e uma perspectiva de avanço, uma possibilidade de protagonismo no mundo. O Brasil mantinha um vínculo com a sua tradição diplomática, que é a política de independência e equidistância, algo que incomodava o governo de Israel, principalmente quanto a críticas que o governo brasileiro fez sobre ações militares de Israel na Faixa de Gaza. A partir do momento que o Brasil abre mão da sua equidistância histórica e começa agora a formular uma perspectiva de diplomacia vinculada aos EUA, o Brasil deixa de ser “anão diplomático” e passa a ser um parceiro importante. O Brasil está remando em direção aos interesses israelenses, então provavelmente Netanyahu vai considerar o Estado brasileiro como um “gigante diplomático”.

    A mudança na diplomacia brasileira está inserida no contexto de uma nova democracia evangélica. O que eu chamo de diplomacia evangélica, protagonizada pelo governo americano de Donald Trump, é uma diplomacia que está dando o tom nas relações entre Brasil e Israel após a eleição de Bolsonaro. Esse vínculo tem pouco a ver com a história entre os dois países e mais com a nova perspectiva. Brasil e Israel são historicamente aliados internacionais.

    A questão de Jerusalém é muito específica, pois considerar que Jerusalém é a capital de Israel sem considerar que Jerusalém Oriental é a capital do Estado palestino significa desconstruir uma decisão produzida nos anos 1940 pela ONU, na qual o Brasil fez parte com o protagonismo do diplomata Oswaldo Aranha. O Brasil, quando toma essa decisão, está rompendo com a sua própria tradição. O próximo governo de Israel — seja ele qual for, há perspectivas de que não seja chefiado por Netanyahu — também vai estar interessado nessa mudança de embaixada, pois é uma questão interna da política israelense. Mas é claro que, desde que os EUA transferiram a embaixada para Jerusalém, não havia perspectiva de que países do tamanho do Brasil fossem no mesmo caminho. É uma peça que está no tabuleiro a partir da vitória de Bolsonaro.

    A questão comercial também é parte da diplomacia, ela importa nesse caso entre Brasil e Israel, mas menos do que a perspectiva ideológica e teológica. Há possibilidade de expandir o comércio sim entre os dois países, principalmente na área de segurança e defesa, com equipamentos, armamentos e tecnologia. Como cidadão de Israel, eu fico preocupado com esse vínculo atual entre Israel e Brasil, poderia ser um vínculo em outras áreas, como educação, agricultura e água.

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