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O que os dados de confiança indicam sobre a recuperação da economia

Empresários e consumidores se dizem mais otimistas sobre o futuro, mas retomada do crescimento ainda frustra economistas

     

    Um agente econômico é uma pessoa, um conjunto de pessoas ou uma instituição capaz de tomar decisões, comprando ou vendendo, poupando ou investindo, e movimentando uma economia. Cada gasto, ou cada decisão de não gastar, influencia a atividade econômica.

    Essas decisões são tomadas, na maioria das vezes, baseadas nas percepções que o indivíduo, a empresa ou mesmo o governo têm de um determinado negócio. Foi a partir dessa constatação que os institutos de pesquisa começaram a desenvolver maneiras de se medir a predisposição dos agentes econômicos em gastar.

    A principal função de um índice de confiança é tentar antecipar o que vai acontecer em uma economia. As pessoas estarão mais dispostas a gastar, a fazer grandes investimentos, se estiverem confiantes de que a economia vai melhorar. Se houver um medo muito forte de perder o emprego, esse agente econômico provavelmente vai adiar a compra de um carro ou de uma casa. Ou ainda tentar diminuir a conta do supermercado, os gastos com lazer ou cancelar uma viagem.

    Com as empresas isso acontece de forma ainda mais sistemática. Grandes companhias se baseiam em projeções para a economia para decidirem quanto vão investir nos anos seguintes. Os índices de confiança surgem da necessidade de se medir o ânimo dos agentes com a economia e, consequentemente, sua predisposição em gastar.

    Somente a FGV (Fundação Getúlio Vargas) faz mensalmente pelo menos seis sondagens. Os economistas da instituição medem a confiança da indústria, do setor de serviços, do comércio, da construção, dos investimentos e do consumidor. As sondagens setoriais ainda são condensadas em um único índice de confiança empresarial. Outras instituições, como a Confederação Nacional da Indústria, também têm índices de confiança.

    Antecipando ciclos econômicos

     

    Um histórico dos índices de confiança no Brasil mostra que o ânimo de empresários e consumidores acompanhou, ao longo dos anos, os ciclos de crescimento e de recessão da economia brasileira. Olhando para o gráfico, é possível perceber, por exemplo, que houve um grande abalo de confiança após a crise internacional de 2008, mas também uma rápida recuperação.

     

    Os números mostram ainda como a confiança começou a cair antes mesmo da recessão que afetou o Brasil - que tem início oficialmente apenas no segundo trimestre de 2014.

    Desde 2001

     

    Como funcionam os índices

    As sondagens da FGV entrevistam pessoas e fazem perguntas sobre a percepção delas a respeito da economia. A partir das respostas, é aferida a opinião dos agentes econômicos sobre dois pontos: a percepção do atual estado da economia e a expectativa para o futuro próximo.

    Os índices de confiança de cada setor são uma mescla desses dois números: a percepção do presente e a confiança no futuro.

    Três constatações sobre a confiança no Brasil

    1. Os gráficos mostram que, desde o fundo do poço, entre 2015 e 2016, a confiança já recuperou parte das perdas
    2. O índice de confiança do consumidor é mais volátil que o dos empresários, mais sensível às boas e más notícias
    3. Em tempos de saída da recessão, a expectativa de que a economia vá melhorar é sempre mais alta do que a avaliação do momento atual, que segue ruim

    Recuperação da confiança

    Michel Temer assumiu a Presidência, em razão do impeachment de Dilma Rousseff, em maio de 2016. Em seu discurso de posse, ressaltou que, para a economia, seu principal objetivo era a retomada da confiança. Temer planejava medidas de incentivo ao setor privado, para que empresários se sentissem mais seguros e confiantes para investir no Brasil.

    Desde então, os índices têm tido, no geral, uma trajetória de alta. O que não significou uma recuperação da economia com a mesma intensidade.

    Trajetória recente

     
     

     

    Sobre o comportamento da confiança nos últimos meses e a frustração na recuperação da economia, o Nexo entrevistou o economista Aloisio Campelo Jr. Ele é superintendente de Estatísticas Públicas do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e um dos responsáveis pelas sondagens.

    Após o impeachment, houve um grande avanço de confiança que não se concretizou em crescimento. O que explica?

    Aloisio Campelo Jr Em termos históricos, o fundo do poço foi muito fundo mesmo. Foi o menor desde os anos 1980. Era um momento em que os agentes econômicos percebiam que a situação estava muito ruim e que o governo não estava conseguindo aprovar suas medidas. Havia uma situação de rua sem saída, não aparecia a perspectiva de recuperar. Independente da predileção ideológica ou da aprovação do presidente Temer, quando é aprovado o impeachment começa uma onda de avanço rápido da confiança.

    Quem costuma plugar os indicadores de confiança nos modelos macroeconômicos, talvez ali, por conta de as expectativas terem subido um pouco rápido, gerou uma expectativa que não se concretizou. A expectativa de crescimento de produção na indústria foi maior do que a taxa efetiva de crescimento. A situação no momento era: está tão ruim que só tem como melhorar.

    Na época a gente alertou que, depois de recessões muito profundas, em que a insatisfação com a situação presente é muito baixa, há uma probabilidade grande de haver uma onda de otimismo que seria como um alarme falso. A gente alertou que era preciso cautela com o que os índices de confiança apontavam.

    A confiança se recuperou da crise?

    Aloisio Campelo Jr Existem duas formas de analisar: a tendência, ver se está subindo e em que velocidade, e o nível de confiança. Mesmo depois daquele crescimento rápido, a confiança ainda estava num nível baixo. Porque o nível da crise era um nível tão baixo que nem o crescimento rápido elevou a confiança a um nível alto.

    O nível dos indicadores de confiança estavam altos em 2012. Um pouco antes do início da recessão, o nível já estava abaixo do neutro e assim eles estão desde 2014. Nós ainda não chegamos  a índices de confiança neutros.

    O índice de expectativa, que olha para o futuro, está entrando no nível do otimismo no caso do consumidor. E mais ou menos no nível neutro no caso das empresas.

    A alta da confiança não significa que a economia está crescendo, ela indica aceleração do crescimento. Então lá em 2016, quando o crescimento passa de -0,5% para -0,2%, é isso.

    O que travou a melhora da confiança no pós-crise?

    Aloisio Campelo Jr A greve dos caminhoneiros foi a última ducha de água fria na recuperação da economia que a gente observava no segundo semestre de 2017, parecia que estava indo bem e que teríamos um 2018 bom. Talvez a gente não tenha percebido o quão importante foram a supersafra e a liberação do FGTS, que deram impulsos.

    Em 2017, ainda tinha um piloto automático que fez a economia seguir mesmo depois da delação da JBS, mas os agentes econômicos foram perdendo fôlego. As empresas desanimando de investir e contratar, o ano eleitoral começou a aparecer no radar, a Lava Jato a todo vapor. O investimento ficou lá embaixo, o consumidor também cauteloso com o avanço lento do mercado de trabalho.

    E 2018?

    Aloisio Campelo Jr O início de 2018 não foi grande coisa. Antes da greve dos caminhoneiros os índices empresariais e do consumidor já tinham caído. Quando veio a greve dos caminhoneiros eles caíram mais, mas já vinham tendo uma desaceleração. Isso tinha a ver com o ritmo lento de recuperação da economia, depois veio uma mudança no cenário externo que afetou principalmente a indústria, e a greve.

    Depois disso, o que aconteceu foi um aumento muito pequeno, com incerteza no cenário eleitoral. A alta que está acontecendo é agora, um pouco em outubro, mas a maioria em novembro.

    Em outubro, a expectativa do consumidor deu uma melhorada, mas ainda havia insatisfação com o presente. Agora em novembro que houve uma sinalização de otimismo, as expectativas empresariais estão passando do nível neutro para começar a ficarem otimistas. Mas como a percepção do presente ainda é ruim, a confiança está num nível relativamente baixo.

    Para uma economia que está muito abaixo do seu pico histórico, as taxas de crescimento de 2018 são muito pequenas. Geralmente em saídas de recessão acontece muito mais rápido. Antes da eleição havia muita dúvida sobre quem ganharia e sobre qual seria a política econômica, se seria um governo mais intervencionista ou pragmático.

    Ganhou o preferido dos empresários. A confiança deve aumentar?

    Aloisio Campelo Jr O Bolsonaro carregava também um componente de incerteza, não só pela política, mas também na economia. O que o Paulo Guedes fala ia de encontro com o que ele falava, não se sabia se seria um governo mais intervencionista ou mais liberal. Agora, do jeito que Paulo Guedes espalhou os Chicago Boys por todos os postos, parece que há uma coesão.

    Do ponto de vista do consumidor, há um efeito Fla-Flu na eleição. Um público, depois das eleições, não gostou, mas não demonstra mega pessimismo com a economia. Por outro lado, quem ganhou, migrou para uma postura otimista, de que as coisas vão melhorar em seis meses. Com isso, na média o índice avançou.

    Em um horizonte longo, não dá pra falar em aumento de confiança. Aqui no Brasil, nos índices de confiança, a evidência histórica é que há um efeito lua de mel com o eleito. A partir de janeiro, o que vai valer é a percepção da população sobre as primeiras medidas do governo.

    Havia muito incômodo com as eleições e depois vem uma onda de otimismo. A melhora da percepção da situação atual é muito pequena, o que melhora é a percepção em relação ao futuro, o que já é alguma coisa. Mas se isso vai se transformar em mais compras pelo consumidor, mais investimento, é um sentimento que ainda tem que crescer um pouco mais até ter um impacto na vida real. Precisaria que esses índices se estabilizassem no primeiro trimestre de 2019, subissem mais um pouco, aí sim a gente poderia ver um impacto na vida real.

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