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O quadrinho sobre o futebol feminino em Parelheiros

Lançado pela Agência Mural de Jornalismo nas Periferias, livro ‘Minas da Várzea’ trata de questões de gênero e das dificuldades enfrentadas pelas jogadoras na periferia

    Foto: Reprodução
    Imagem de capa da HQ 'Minas da Várzea'
     

    Lançada em dezembro de 2018, a HQ impressa “Minas da Várzea” é a primeira reportagem em quadrinhos produzida pela Agência Mural de Jornalismo nas Periferias, agência de notícias sobre as periferias de São Paulo.

    A reportagem foi roteirizada pela jornalista Priscila Pacheco e desenhada pelo quadrinista Alexandre de Maio, com colaboração do ilustrador da Mural Magno Borges.

    O projeto foi viabilizado por uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e trata dos times, das personagens e dos desafios do futebol feminino de várzea no distrito de Parelheiros, extremo sul da capital paulista.

    Foto: Priscila Pacheco/Divulgação
    HQ foi lançada em dezembro de 2018 e poderá ser adquirida pelo site da Agência Mural
     

    Lá estão o campo de terra laranja de Vargem Grande e a aldeia indígena do povo Guarani Mbya, lugares onde as repórteres Priscila Pacheco e Luana Nunes, correspondentes do Grajaú e de Parelheiros da Mural, colheram as histórias de jogadoras que podem ser lidas no livro.

    O Nexo entrevistou a jornalista Priscila Pacheco sobre as condições enfrentadas pelas mulheres que querem jogar futebol na periferia, quem elas são e o amor delas pelo esporte e reproduz, abaixo, trechos da HQ.

    Como você soube que tinha uma história pra contar sobre o futebol feminino de várzea em Vargem Grande?

    Priscila Pacheco Essa é uma pauta antiga, daquelas que a gente pensa e depois ficam na gaveta porque já existe algo parecido escrito. Eu descobri a existência de um time feminino em Parelheiros por acaso, pelas redes sociais. Não era nenhum desses times que eu contei a história na reportagem. Acabei começando a acompanhar, a ver os campeonatos que elas divulgavam. Depois de praticamente um ano, percebi que havia outras coisas para falar, como a resistência feminina no futebol de várzea.

    Nas periferias, [o futebol de várzea] é algo muito forte entre os homens, a gente vê eles circulando com camisetas de time, ocupando os campos, e não ouvia falar tanto das mulheres.

    A partir disso, também vi que havia times [femininos] nas aldeias [indígenas da região], na Tenondé Porã. Eu imaginava que houvesse só um, mas depois descobri que são vários. Só na Tenondé, elas me contaram que existem mais ou menos sete. Cada família monta o seu próprio time, e são famílias numerosas.

    Por que contar essa história em quadrinhos?

    Priscila Pacheco Eu nunca tinha feito nada em HQ, mas já tinha estudado um pouco de quadrinhos com o próprio Alexandre de Maio. Já tinha pensado em fazer alguma reportagem nessa linguagem, mas não tinha uma pauta ainda. Quando o de Maio entrou em contato com a gente falando que estava livre, perguntando se a gente tinha interesse em fazer alguma coisa em HQ, aproveitei a oportunidade e ressuscitei essa pauta.

    Acho que é um formato interessante para algumas pautas, porque instiga o olhar para o jogo de palavras associado a um jogo de imagens, deixa algumas histórias mais leves, ajuda a leitura a fluir.

    Como e quando as moradoras de Vargem Grande começaram a jogar bola?

    Priscila Pacheco O time Minas do Toque começou a jogar há cerca de dois anos. É recente.

    Há outros além desse?

    Priscila Pacheco Em Parelheiros tem o Perifeminas, que é só um pouco mais antigo, o Grêmio Esperança - uma das jogadoras até aparece na HQ, a Lucélia -, e o CDC Mirna, que fica mais para o lado do Grajaú, que é o distrito vizinho.

    Tem outros. Elas me contaram que estão em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de cem times femininos de São Paulo, de várzea, são, diferentes modalidades de futebol.

    Tem também os times femininos das aldeias [indígenas], que costumam receber nomes de times grandes, como Santos, Corinthians.

    Quem são as mulheres que jogam? Quais perfis você encontrou nos times?

    Priscila Pacheco Há mulheres com e sem filhos, com Ensino Médio, mas sem ensino universitário, elas têm entre 25 a 35 anos, sempre viveram nas periferias, trabalham como diaristas, atendentes de lanchonetes, faxineiras no hospital. Começaram a jogar quando crianças, de brincadeira, junto com os meninos. O futebol não é algo recente na vida delas.

    Como é o campo de terra laranja de Vargem Grande?

    Priscila Pacheco É um campo grande, de terra mesmo. [Fica] ao lado de um córrego cercado de mato. Não tem cercado nenhum, quando o pessoal vai jogar, precisa montar tudo, colocar a rede, arrumar a trave, riscar com giz.

    As meninas contam que esse campo é muito requisitado: para fazerem o Festival Minas do Toque [em 2018], tiveram que agendar no ano passado. Ele é usado principalmente por homens. Elas reclamaram que tiveram que pagar cem reais para usar o campo por um dia, e não tinham falado nada antes. É um dinheiro cobrado por um cara que mora lá, mas não tem manutenção nenhuma, então elas questionaram o pagamento.

    Elas também reclamam que quando tem campeonato organizado por homens, elas são deixadas para jogar por último, e tem a questão de que time feminino joga menos tempo que time masculino, e dizem que é porque acham que elas não aguentam jogar tanto [tempo].

    É um lugar bem rústico. O que mais atrapalha é o esgoto, e eu quis que isso aparecesse muito em imagem [na HQ], para chamar atenção para a falta de saneamento básico em algumas regiões periféricas.

    Já o campo em que as garotas indígenas jogam também é grande, com grama, que elas dividem com os times masculinos. As indígenas dividem tudo: o campo, a bola e o uniforme. [Os times femininos e masculinos] jogam em horários diferentes porque é o mesmo lugar, a mesma roupa e a mesma bola.

    Foto: Reprodução
    Trecho da HQ 'Minas da Várzea'
     

    Quais outras dificuldades as jogadoras enfrentam?

    Priscila Pacheco Tem a questão financeira, porque às vezes elas precisam jogar em horários mais distantes e algumas jogadoras desempregadas não têm dinheiro para pagar a condução. Uma acaba ajudando a outra, fazendo vaquinha para pagar condução, pra pagar lanche quando o campeonato é o dia todo.

    Há também a dificuldade para treinar: muitas não treinam durante a semana porque muitas trabalham longe, demoram para chegar em casa e não conseguem chegar no horário, além da falta de espaço onde agendar [os treinos]. É um treinamento que não existe para o time completo. De fim de semana, elas não conseguem porque a quadra do CEU [o Centro Educacional Unificado, equipamento da prefeitura] é dividida entre todos os moradores, é uma competição grande pelo espaço.

    Acho que o que mais impacta é a mobilidade: Parelheiros é um distrito bem distante do centro, elas precisam sair de lá cedo para trabalhar e é uma longa jornada, enfrentando muitas vezes duas horas para ir e mais duas para voltar.

    Quando fui fazer a pauta, imaginava que muitas levavam os filhos para o futebol por uma questão de não ter com quem deixar [as crianças]. Mas, na verdade, o que elas disseram é que trabalham a semana toda e que só têm o fim de semana para curtir os filhos. Elas levam para ter essa proximidade, para ter os filhos perto. O que não é algo muito feito pelos jogadores homens, eles geralmente não têm essa cultura de levar os filhos para os jogos, é um negócio mais só, “eu vou lá jogar com os meus amigos”.

    O que o futebol representa na vida dessas mulheres?

    Priscila Pacheco Elas descreveram a prática do futebol como uma grande paixão. Disseram que é um momento de descontração, de se entregar para algo de que elas gostam muito, um momento de união também, de mostrar que elas são capazes e que jogam tão bem quanto os homens.

    Foto: Reprodução
    Página da HQ 'Minas da Várzea'
     

    Algumas personagens falam de um crescimento e aumento da visibilidade do futebol feminino. O que você diria que mudou nos últimos anos para as mulheres que jogam futebol nas periferias?

    Priscila Pacheco Acho que, com o surgimento dos times, elas se sentem mais encorajadas. Vendo outras mulheres jogando, quem gosta de jogar futebol cria coragem de montar seu time e jogar. Tem muito essa questão de ver a outra jogando e criar coragem.

     

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