Como a Comic Con de SP virou o maior evento ‘geek’ do mundo

Com mais público que eventos americanos do tipo, CCXP se tornou plataforma de lançamentos mundiais de estúdios e de divulgação de todo tipo de produto

    Temas
     

    Marcas de chinelo, macarrão instantâneo e uísque não são referências que normalmente vêm à cabeça quando se pensa no chamado universo geek. Empresas assim, entretanto, contam com estandes na edição 2018 da convenção CCXP, dedicada a esse público. Estão ao lado de nomes mais diretamente associados com essa audiência, como Netflix, Disney e Marvel.

    Abreviação para Comic Con Experience, a CCXP acontece em São Paulo entre 6 e 9 de dezembro de 2018. O público esperado para este ano é de 260 mil pessoas, número que mantém o crescimento ano a ano registrado pela convenção (227 mil em 2017; 180 mil em 2016; 142 mil em 2015, e 97 mil em 2014).

    Faltando alguns dias para o início da convenção, a maior parte das categorias de ingressos está esgotada. Há várias modalidades de preço, desde a meia entrada simples para o primeiro dia, a R$ 109, até “Full Experience”, que vale para todos os dias e dá direito a vários mimos e benefícios, de R$ 7.499,99. Todas as categorias mais caras estavam esgotadas no dia anterior ao início do evento.

    Desde 2016, a convenção paulistana é o maior evento do tipo no mundo, em termos de público. Superou há alguns anos a San Diego Comic Con, evento americano que é um dos pioneiros da área, fundado ainda na década de 1960.

    O evento é um grande encontro anual para fãs e consumidores da chamada cultura geek, que chegam a passar horas em uma fila para conseguir o autógrafo de um ator em evidência ou o desenho de um quadrinista famoso.

    “Para o crescimento [do evento] foi fundamental ele ter abarcado cinema e TV, e não ter ficado só nos quadrinhos”

    Otavio Juliato

    Diretor de comunicação da Omelete Company, que controla a CCXP

    E, apesar do “comic” no nome, os quadrinhos perdem em destaque para os espaços e atrações ligados a cinema e televisão. Entre os principais convidados internacionais estão as atrizes Maisie Williams (a Arya Stark de “Game of Thrones”), Brie Larson (americana, protagonista de “Capitã Marvel”, com estreia marcada para 2019) e Sandra Bullock.

    “Para o crescimento [do evento] foi fundamental ele ter abarcado cinema e TV, e não ter ficado só nos quadrinhos”, afirmou Otavio Juliato, diretor de comunicação da Omelete Company, grupo que controla a CCXP, ao Nexo. Com o tamanho alcançado, estúdios de Hollywood já escolhem o evento paulistano para estreias mundialmente exclusivas. Com a vinda de Larson, trazida pela Disney, o evento terá pela primeira vez uma protagonista de filme de super-herói entre suas atrações.

    Entre as opções no âmbito dos quadrinhos, a convenção oferece desde aulas magnas (“masterclasses”) com profissionais do meio, como o ilustrador John Romita Jr., conhecido por trabalhos históricos na Marvel, até uma seção para novos artistas mostrarem suas obras, a Artists’ Alley (patrocinada por uma marca de automóvel).

    Vendas ativas

    Parte significativa das atrações da CCXP está interligada à chamada “ativação de marcas”. Trata-se de jargão da área de publicidade para descrever uma ação que divulga uma marca para o público por meio de brindes, serviços, eventos ou ambientes.

     

    Festivais de música são espaços consagrados para esse tipo de ação, que pode ser, por exemplo, um confortável lounge oferecido por uma marca de gim ou a distribuição de uma lembrança com utilidade prática para o frequentador.

    De acordo com Juliato, o faturamento do evento vem da comercialização de ingressos, venda de patrocínio e ativação de marcas.

    Juliato explica que 30% do espaço do evento é dedicado à “ativação”. Entre as cerca de 100 marcas que participam da Comic Con brasileira, pouco mais de 40% são consideradas “não orgânicas”, ou seja, não vendem diretamente ao público geek, caso da operadora Oi e da automotiva Ford.

    A empresa responsável pela CCXP realiza há seis anos uma pesquisa que usa metodologia do Ibope para mensurar o público geek brasileiro. Os resultados do levantamento servem para evento e marcas pensarem juntos como atingir o público frequentador, segundo Juliato.

    Há quem veja um aumento exagerado do lado comercial do evento. “Há uma proporção cada vez mais desigual entre estandes de conteúdo e estandes de empresas que querem apenas se associar a esse público”, afirmou Marcel Nadale, criador do canal Gay Nerd, no YouTube, e ex-editor-chefe da revista Mundo Estranho, ao Nexo. “A impressão é de que se tornou mais um evento de consumo do que cultura.”

    O público esperado para esse ano é de 260 mil pessoas, número que mantém o crescimento ano a ano registrado pela convenção

    Segundo ele, embora o interesse das marcas neste público seja “maravilhoso”, falta apoio aos produtores e criadores dessa cultura no restante do ano. “Onde estão essas empresas para quem quer fazer quadrinhos, uma animação, um canal do YouTube ou uma websérie?”, questionou.

    Para Rogério de Campos, editor da Veneta, a CCXP segue nos passos do evento “mãe” de San Diego, tornando-se muito mais um evento de cinema e TV, em que “todos tentam convencer que seu produto é a próxima febre que irá tomar o mundo”. Nesse “inferno do hype”, os quadrinhos viraram coadjuvantes em um “grande evento da indústria cultural dos Estados Unidos. Não mais de subcultura, mas a festa da cultura dominante”, disse ao Nexo.

    O poder dos geeks

    A pesquisa Geek Power entrevistou 12 mil pessoas a respeito de hábitos de consumo e entretenimento. Realizada com metodologia do Ibope Conecta, braço online do instituto de pesquisa, ela é divulgada em uma parte “corporativa” da CCXP que terá debates, apresentações e um tributo ao publicitário Nizan Guanaes.

    Segundo o levantamento:

    • 62% do público geek é masculino
    • 52% têm entre 18 e 29 anos
    • 41% pertencem às classes A e B
    • 42% tem formação superior
    • 87% usa a internet para se divertir
    • 84% consome cultura pop todos os dias
    • 64% é usuário do YouTube, 58% do Instagram e 47% do Facebook
    • 70% tem na ficção científica o gênero preferido

    O que é ser geek

    O termo geek é usado para classificar pessoas que acompanham e consomem cultura pop, quadrinhos, ficção científica e games de maneira compulsiva. Geeks são versados em cultura da internet e tecnologia. Reza o estereótipo que são também socialmente desajeitados e introspectivos.

    O termo “geek” ganhou preferência sobre “nerd” nos últimos 20 anos. Embora em muitos contextos sejam usados quase como sinônimos, há interpretações em que o geek é mais bem-sucedido e esperto.

    Com a expansão da cultura digital e da influência da tecnologia computacional na população, o geek se tornou uma figura socialmente importante. Nomes como Bill Gates, fundador da Microsoft, e Mark Zuckerberg, criador do Facebook, são exemplos de geeks de sucesso.

    Para Juliato, é difícil quantificar o valor do mercado geek, pois ele envolve diversos setores, como jogos eletrônicos, cinema e publicidade. Só o mercado de games nacional deve movimentar em 2018 perto de US$ 1,5 bilhão, de acordo com dados da Newzoo. É um número maior que o de 2017, que foi US$ 1,3 bilhão.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: