Ir direto ao conteúdo

Como um acordo de 1987 põe em choque EUA e Rússia em 2018

Governo Trump dá ultimato a Putin. Os dois países têm versões distintas sobre o documento que restringiu mísseis e lançadores

A agenda mais recente entre Estados Unidos e Rússia, sob os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin, tem como foco um acontecimento já distante e aparentemente anacrônico: um acordo bilateral de 1987, em plena Guerra Fria, sobre armamentos e que segue em vigor até hoje.

A desavença começou em outubro de 2018, quando Trump disse que a Rússia estaria violando os termos do documento. Dessa forma, disse o presidente americano, os EUA iriam se retirar do tratado.

Na segunda-feira (3), o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, deu um passo adiante, com um ultimato ao governo Putin: se a Rússia não sanar suas violações em até 60 dias, os EUA vão mesmo sair do acordo. Pompeo fez a declaração em visita à Otan, maior aliança militar do mundo e liderada pelos americanos. A Otan também afirma que a Rússia descumpre o tratado de 1987.

A Rússia nega qualquer violação e diz que os EUA estão mentindo, numa tentativa de sair do acordo e descumprir regras internacionais para aumentarem seu poderio militar.

O que é esse acordo

O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF, pela sigla em inglês, estipulou a eliminação de mísseis de curto e médio alcance, mais especificamente entre 500 km e 5.500 km. Incluiu também os lançadores desses mísseis e todo o equipamento de suporte. Ele se refere apenas aos mísseis lançados a partir da terra, não do oceano.

Apesar de possíveis violações, de ambos os lados, o acordo foi um marco para a estabilidade internacional, já no fim da Guerra Fria — período em que o mundo esteve dividido entre dois grandes blocos de influência, um capitalista sob comando dos Estados Unidos e outro comunista sob domínio da União Soviética.

O tratado previa inspeções mútuas em dependências militares. Oficialmente, foram destruídos 2.692 mísseis, dos quais a grande maioria era russa.

Muitos desses armamentos eram capazes de transportar ogivas nucleares, o que despertava o temor de ataques generalizados com bombas atômicas.

O contexto que levou às negociações e ao texto final de 1987 era de receio, por parte dos EUA e da Otan, que os novos armamentos soviéticos, de alta tecnologia para a época, pudessem facilmente atingir alvos na Europa Ocidental.

Divididos entre a opção da diplomacia e a opção de retaliar investindo ainda mais em armamentos, os países ocidentais decidiram negociar com a União Soviética, no começo da década de 1980.

Anos de diálogo resultaram no documento assinado por Ronald Reagan, então presidente americano, e Mikhail Gorbachev, então secretário-geral do Partido Comunista soviético. Com a dissolução da União Soviética, em 1991, a Rússia herdou legalmente os acordos internacionais firmados pelos comunistas.

Por que os EUA sinalizam uma saída agora

Há anos o governo americano diz que a Rússia descumpre o acordo. Antecessor e opositor de Trump, Barack Obama chegou a fazer a mesma acusação quando era presidente.

Por sua vez, Putin também já afirmou, no passado, que americanos estavam violando o documento bilateral. Informações detalhadas sobre armamentos do tipo são altamente confidenciais, então publicamente o que resta é um jogo de afirmações, sem provas contundentes.

Agora, o governo Trump adota um discurso de que é inviável seguir o acordo se o outro lado está descumprindo, fazendo testes com mísseis proibidos. Sair seria apenas uma medida justa, segundo os EUA.

Do outro lado, interessa à Rússia que, caso a saída se efetive, a culpa do fracasso seja atribuída aos EUA e que eventuais violações russas não sejam comprovadas.

O que analistas indicam é que Trump está buscando um pretexto para sair do acordo e então investir mais livremente em armamentos como mísseis. O principal objetivo seria conter a expansão militar chinesa, principalmente na região do oceano Pacífico.

O país asiático não tem restrição para fabricar e usar mísseis do tipo, o que os EUA veem como uma vantagem do governo chinês. Em 1987, época do acordo, a China não era uma potência como hoje, com a possibilidade de confrontar a liderança global dos EUA.

As relações do governo Trump com a Rússia e a China têm sido conflituosas. Algumas questões delicadas são a guerra comercial entre americanos e chineses, a ação militar russa na Ucrânia e uma possível interferência russa na eleição americana de 2016, vencida por Trump.

Além disso, Trump já decidiu sair unilateralmente de outros tratados internacionais, notadamente do acordo nuclear com o Irã e do Acordo de Paris, sobre o clima. Ambos foram assinados em 2015, no governo Obama.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!