O que esperar da trégua entre China e Estados Unidos

Suspensão de hostilidades por 90 dias anima mercado, mas Brasil pode ter perdas em um primeiro momento

 

Os governos dos Estados Unidos e da China anunciaram em Buenos Aires uma trégua na disputa comercial entre os dois países. A partir de 1º de janeiro, e por 90 dias, Donald Trump e Xi Jinping se comprometeram a não criar novas tarifas ou aumentar alíquotas de importação.

 

O acordo foi anunciado oficialmente na madrugada de domingo (2), depois que as delegações chinesa e americana se reuniram em Buenos Aires. O jantar aconteceu após o término da reunião anual do G20.

 

O encontro anual reunia as 19 maiores economias do mundo e a União Europeia, mas havia grande expectativa em relação à discussão Estados Unidos e China, que aconteceu paralelamente ao evento. As delegações se reuniram por duas horas e em seguida anunciaram a trégua.

 

O acordo acontece no momento em que se temia uma escalada de retaliações mútuas. Durante a trégua, seguem as negociações em busca de um acordo definitivo, que ainda é bastante incerto.

“A cooperação entre nossas duas nações é de interesse para manter a paz e garantir a prosperidade do planeta”

Xi Jinping

presidente da China, durante o jantar com a delegação americana

“Um acordo incrível. Se pudermos concretizá-lo será um dos mais amplos e importantes que já fizemos. (...) Vamos segurar os impostos, e a China vai se abrir. Além disso, eles comprarão muitos produtos dos EUA”

Donald Trump

presidente dos Estados Unidos, em entrevista no avião presidencial

Em sua edição de segunda-feira (3), o jornal The New York Times destacou que pouco se sabe sobre os termos do acordo firmado entre os dois governos. Segundo o jornal, ainda existem discordâncias profundas sobre a política industrial chinesa e o grau de abertura do mercado.

Apesar da incerteza, a notícia foi bem recebida por investidores. No primeiro pregão após o anúncio do acordo, os três principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos tiveram alta. O Dow Jones, que reúne ações de 30 das principais empresas do país, avançou 1,13%. O S&P 500, mais amplo, subiu 1,09% e o Nasdaq, mais voltado para empresas de tecnologia, teve alta de 1,51%. No Brasil, o Ibovespa, que reúne as principais empresas de capital aberto do país, chegou a subir quase 2%, mas fechou com alta de 0,35%.

A escalada da guerra comercial

A disputa começou no início de março de 2018, quando os Estados Unidos anunciaram que aumentariam a taxação para a importação de aço e alumínio. Foi o primeiro grande movimento protecionista do governo Trump.

Na ocasião, o governo argumentou que o incentivo à produção local era também uma questão de segurança nacional – a ideia era evitar que o país se tornasse dependente da matéria prima importada. A China não era o único país afetado, mas desde o início prometeu retaliações.

A primeira ação direcionada veio no fim de março, quando Trump reclamou publicamente do deficit comercial na relação com a China (os EUA compram mais do que vendem) e anunciou novas tarifas exclusivamente para produtos chineses.

O governo americano alegou que o governo chinês estava roubando tecnologia. A apropriação estaria sendo feita da seguinte maneira: empresas chinesas controladas pelo governo compram sistematicamente fatias de empresas americanas para terem acesso aos métodos de produção, e depois os reproduzem. O Departamento de Comércio dos EUA também acusou o governo chinês de dificultar a entrada das empresas americanas no país, impondo regras mais rígidas.

O governo chinês acusou Donald Trump de estar praticando um ato unilateral de protecionismo e fez ameaças. O país cogitou fazer uma reclamação formal à Organização Mundial do Comércio e divulgou que também pode sobretaxar produtos americanos.

“A China não quer uma guerra comercial com os EUA, mas se os EUA aprovarem ações que afetem os interesses chineses, a China não ficará de braços cruzados e tomará as medidas necessárias”

Zhang Yesui

porta-voz do parlamento Chinês

O que se sabe sobre o acordo

A trégua foi comemorada pelos dois lados, mas detalhes não foram divulgados. Os Estados Unidos se comprometeram a suspender o plano de aumentar tarifas sobre produtos chineses. O plano, anunciado em março, era aumentar de 10% para 25% a alíquota de importação sobre US$ 200 bilhões em produtos da China.

Por outro lado, os chineses vão voltar a comprar commodities agrícolas dos Estados Unidos. Em setembro, o governo chinês passou a retaliar os americanos e os produtos agrícolas foram os mais atingidos. Por isso, depois do acordo, Trump escreveu que os agricultores seriam os principais beneficiados.

“Os agricultores serão os maiores e mais rapidamente beneficiados pelo nosso acordo com a China. Eles pretendem começar a comprar produtos agrícolas imediatamente. Nós fazemos os melhores e mais limpos produtos do mundo, e isso é o que a China quer. Agricultores, eu amo vocês”

Donald Trump

presidente dos Estados Unidos

O efeito no Brasil

Com o retorno das vendas de commodities agrícolas dos Estados Unidos para a China, o Brasil deve ser impactado. Em 2018, com o imbróglio entre as duas potências, a exportação brasileira de soja cresceu 22,6%. De janeiro a novembro, foram 80 milhões de toneladas exportadas.

Só em novembro, com a tensão mais forte, foram quase 5 milhões de toneladas, 97% do total para a China. Com o impulso, 2018 deve ser o ano de maior exportação de soja do Brasil na história. Após o acordo, o volume vendido para a China pode se reduzir ou crescer mais lentamente.

Sobre o acordo firmado entre Xi Jinping e Trump e seus impactos para o Brasil, o Nexo conversou com dois economistas:

  • Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV
  • Rodolfo Cabral, economista da 4E Consultoria

O que a trégua indica para o comércio mundial nos próximos meses?

Mauro Rochlin O problema era, na ausência de acordo, a guerra comercial que isso podia ensejar. Se houvesse uma escalada do conflito, e acho que de parte a parte poderia haver um aumento nas alíquotas de vários produtos, isso certamente transbordaria para o resto das relações comerciais entre países.

Isso tornaria os confrontos comerciais multilaterais um tanto mais acirrados, tornaria mais difíceis acordos multilaterais ou bilaterais de comércio, isso significaria menos avanços na Organização Mundial de Comércio. No fim das contas, a gente teria um mundo mais fechado em termos comerciais e, em última análise, menos crescimento econômico. Ou seja, no fim das contas é um jogo de soma negativa.

É especulação dizer que o acordo põe um ponto final na disputa, mas o que importa é o resultado, e o efeito agora é positivo.

Rodolfo Cabral O grau de incerteza continua muito alto, mas o que dá para perceber é que o ponto principal da guerra comercial talvez não seja só os produtos que estão sendo tarifados. A discussão pode estar muito mais embaixo, com a discussão de propriedade intelectual e outros assuntos mais complexos e que não estão explícitos.

Com essa trégua de 90 dias, comissões dos dois países vão sentar e negociar algo mais profundo nesse sentido. A dificuldade agora é saber o quanto a China vai ceder às pressões dos Estados Unidos.

Nos próximos meses, essa trégua vai melhorar o comércio global como um todo. Mas ainda é muito cedo para se falar em segurança. De fato as negociações estão caminhando, mas o quanto a China vai ceder a gente só vai saber depois dos 90 dias.

O que significa o acordo para as relações comerciais do Brasil?

Mauro Rochlin Os efeitos dependem muito dos desdobramentos dessa guerra comercial em potencial. Os principais problemas do Brasil se davam em torno de dois produtos: aço e soja. No início dessa história, Trump adotou medidas contra o aço. Por outro lado, a China disse que retaliaria essa medida, não só para o Brasil.

A retaliação da China seria feita com sobretaxa à soja, isso significaria para o Brasil um fator positivo. Se realmente houver sobretaxa da soja americana, isso significa no médio prazo uma cotação mais alta dessa commodity. Como o Brasil é um grande exportador de soja, no frigir dos ovos o que o Brasil perderia do lado do aço seria muito mais do que compensado com a alta de exportação de soja, via efeito preço. Soja é um produto de demanda inelástica, as pessoas não vão parar de comprar soja. Então aumentaria o preço e a exportação. Vendo só desse lado, o efeito da guerra comercial seria positivo.

Mas haveria o efeito negativo no final das contas com um crescimento mundial menor, isso atrapalharia, em última análise, todas as exportações. A gente não sabe ainda quais são os efeitos colaterais do conflito, até onde vai essa guerra, que produtos podem ser sobretaxados, o quanto isso pode afetar preços de outras commodities como carne, café, algodão. No final, pode sobrar pra todo mundo.

Rodolfo Cabral Com o aumento tarifário na China, produtos brasileiros aumentaram seu valor exportado. No curto prazo, produtos brasileiros que tinham crescido com a oportunidade que surgiu no mercado chinês devem ser prejudicados.

No médio e longo prazo, é bom para o Brasil um comércio global mais forte. Isso impulsiona o comércio brasileiro. Então primeiro a gente vai ver alguma perda, até porque a guerra comercial foi curta e só tivemos alguns meses de ganho. Mas no médio e longo prazo, para o Brasil e para o mundo, seria melhor que não houvesse guerra comercial.

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