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Por que sul-coreanas estão destruindo seus kits de maquiagem

Adeptas da campanha ‘liberte-se do espartilho’ estão abandonando os produtos de beleza, cortando o cabelo curto e assumindo os óculos. Reivindicações vão além das pressões sobre a aparência

     

    Um grupo crescente de sul-coreanas jovens está se rebelando contra os rígidos padrões de beleza da sociedade em que vivem.

    Esse padrão inclui, por exemplo, ter o rosto pequeno, em formato de coração, pele perfeita e brilhante – apelidada de “pele de vidro” e cultivada através da aplicação infindável de cosméticos – e estar sempre maquiada. É mantido, além disso, por um número alarmante de cirurgias plásticas.

    Elas lançaram uma campanha intitulada “liberte-se do espartilho”: estão destruindo seus kits de maquiagem, adotando cortes de cabelo “tigela” e substituindo as lentes de contato por óculos.

    Adeptas do movimento têm compartilhado nas redes sociais fotos de estojos quebrados e vídeos em que esvaziam na pia frascos de produtos de beleza.

    “A misoginia é mais extrema na Coreia do Sul, e a indústria de beleza agravou isso”

    Kim Ji-yeon

    Jovem sul-coreana de 22 anos que se juntou à campanha, em entrevista ao jornal The New York Times

    A reflexão sobre as pressões relativas à aparência colocadas sobre as sul-coreanas têm atingido até mesmo as youtubers de maquiagem.

    Lina Bae, que dava tutoriais de beleza em seu canal, postou em junho de 2018 um vídeo em que mostra o processo ultra laborioso de aplicar maquiagem, que costumava ser diário.

    Depois, remove todos os produtos e fala sobre autoestima, dizendo às espectadoras que são bonitas e especiais como são. No início de dezembro de 2018, o vídeo já contava com mais de 5,7 milhões de visualizações.

    Embora essas formas de protesto possam ser taxadas de individuais ou inofensivas, muitas mulheres têm sido ameaçadas de morte pelas redes sociais e sofrido abuso verbal, em decorrência da aparência mais natural que resolveram adotar, segundo uma reportagem do jornal The New York Times.

    Influenciada em parte pelo impacto global do movimento #MeToo, a mobilização das sul-coreanas não se restringe ao ativismo virtual nem à contestação dos padrões e da indústria de beleza.

    A partir de maio de 2018, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas em uma série de protestos contra assédio sexual, câmeras escondidas em banheiros públicos femininos e outros locais de Seul que captam imagens íntimas sem o consentimento delas e frequentemente acabam em sites pornográficos, padrões de beleza e outras questões, como a desigualdade econômica entre os dois gêneros no país.

    Uma reportagem publicada pelo jornal britânico Telegraph em setembro de 2018 declarou terem sido as maiores manifestações por direitos das mulheres da história do país.

    Desigualdade de gênero no país em 3 pontos

    Desigualdade salarial

    A disparidade salarial entre homens e mulheres na Coreia do Sul é a mais alta entre os países que fazem parte da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, segundo um relatório de 2017.

    As mulheres ganham 63% do salário dos homens no país. Apenas 56% das sul-coreanas estão empregadas, e muitas não conseguem continuar a trabalhar quando têm filhos, de acordo com a OCDE.

    Em entrevista ao New York Times, Yunkim Ji-yeong, professora de filosofia feminista da Universidade Konkuk, em Seul, disse que o feminismo na Coreia do Sul se fortaleceu porque as mulheres realmente não são parte da liderança política e econômica do país.

    Obsessão pela beleza

    A Coreia do Sul tem a taxa mais alta de cirurgias plásticas para fins estéticos por habitante no mundo. Por causa disso, também se tornou um “destino cirúrgico”, atraindo mulheres de outros países, como a China.

    A indústria de beleza sul-coreana, produtora de cosméticos, muitos deles voltados aos cuidados com a pele do rosto, faturou US$ 13 bilhões em 2017 – é um dos dez maiores mercados de beleza do mundo.

    Denúncias de assédio

    Em janeiro de 2018, Seo Ji-hyun, uma conhecida promotora da Coreia do Sul, falou em entrevista para o canal de televisão JTBC sobre ter sofrido um assédio em 2010 pelo então Ministro da Justiça.

    Ao observar o #MeToo ganhar força em Hollywood, Seo passou a entender que aquilo que tinha acontecido com ela não era um caso isolado.

    Seo já havia feito uma denúncia a respeito e até enviou uma carta para o Departamento de Justiça, que determinou que suas alegações eram falsas. Mas sua decisão de ir a público ressoou: a presidente da Korea Hotline, uma organização que apoia sobreviventes de violência doméstica e assédio sexual na Coreia do Sul, estima que recebeu um aumento de 23% no número de ligações nas semanas seguintes à denúncia de Seo na TV.

    Em março de 2018, o governador de Chungcheong do Sul, Ahn Hee-jung, renunciou após sua secretária, Kim Ji-eun, acusá-lo de estupro.

    Segundo a promotora, não houve mudanças institucionais, mas nas ruas.

    As sul-coreanas acrescentaram uma nova tag ao movimento, em solidariedade a todas que foram vítimas assédio: #WithYou (com você, em tradução livre) passou a ser usada ao lado da tag americana.

    A atriz Kim Tae-ri foi uma das porta-vozes do movimento #WithYou, e disse, em entrevista ao canal JTBC, que o assédio era estrutural no país. “O movimento não deve terminar com a repetição de revelação e pedido de desculpas, mas ser um trampolim na criação de uma melhor estrutura social.”

     

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