O que foi a Revolta Comunista. E por que o Exército voltou a falar dela

General Villas Bôas determinou que fosse relembrado levante ocorrido em novembro de 1935. Três historiadores avaliam a ligação daquele episódio com o atual momento político

 

Uma salva de tiros em São Paulo e cerimônias do Exército no Rio de Janeiro e em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, relembraram na última semana do mês de novembro de 2018 os episódios que marcaram a Revolta Comunista (ou Intentona Comunista), ocorrida em 1935.

O levante popular, organizado por militares de esquerda contrários ao governo de Getúlio Vargas e derrotado pelo Exército, por vezes é relembrado nesse período do ano nas páginas e nos documentos oficiais da instituição. Mas em 2018 a efeméride ganhou impulso com a decisão do comando do Exército de tentar “esclarecer” o que foi aquela revolta.

Em uma mensagem publicada em seu perfil no Twitter, o comandante Eduardo Dias da Costa Villas Bôas afirmou ter proposto uma “diretriz” para que se esclareçam os fatos da “Intentona Comunista”, modo como as Forças Armadas se referem à revolta. O termo “intentona” tem entre os seus significados motim, plano louco ou insensato, e foi usado, segundo historiadores, a fim de diminuir a relevância do episódio.

“Determinei ao @exercitooficial que rememorem a Intentona Comunista ocorrida há 83 anos (27 Nov 1935). Antecedentes, fatos e consequências serão apreciados para que não tenhamos nunca mais irmãos contra irmãos vertendo sangue verde e amarelo em nome de uma ideologia diversionista”

General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

comandante do Exército Brasileiro, em mensagem em seu perfil no Twitter, em 25 de novembro de 2018

O general Villas Bôas deixa o comando do Exército em dezembro de 2018. A função será desempenhada, a partir de janeiro de 2019, pelo general Edson Leal Pujol, indicado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

Em nota, a assessoria de comunicação do Exército afirmou que a orientação do comandante é para que, por meio de cerimônias e notícias publicadas nas páginas oficiais da instituição, se relembre aquele período e as figuras oficiais que participaram da revolta, mas cujas trajetórias são “menos disseminadas entre a população”.

O momento político da mensagem do general

As Forças Armadas têm participado cada vez mais da cena política recente, em especial durante o governo do presidente Michel Temer, que decretou intervenção federal na Segurança Pública do Rio, em fevereiro de 2016, e transferiu aos militares a responsabilidade pelo combate à violência no estado.

Na campanha eleitoral, a figura militar continuou presente, em razão do então candidato Jair Bolsonaro, capitão reformado, que explora em seus discursos o vínculo militar e ataques a partidos de esquerda. Neste ponto, são frequentes os discursos contra o que chama de “ameaça comunista”.

Discursos nessa linha acompanham também os nomes escolhidos por Bolsonaro para o seu primeiro escalão. Para o Ministério das Relações Exteriores, por exemplo, o indicado foi Ernesto Araújo, um servidor de carreira do Itamaraty que faz críticas ao “marxismo cultural”.

Bolsonaro, cujo vice é o general da reserva Hamilton Mourão, também tem priorizado a escolha de integrantes das Forças Armadas para seu ministério.

O que foi a Revolta de 1935

 

Getúlio Vargas chegou ao poder com a Revolução de 1930. Nessa década, o descontentamento de parte da sociedade com o novo governo aflorou e reuniu militantes políticos, cabos, soldados e operários identificados à esquerda que elaboraram um plano para promover um levante armado, destituir o então presidente do cargo e implantar o comunismo no país.

Tiveram participação relevante nesse movimento o Partido Comunista Brasileiro, liderado por Luís Carlos Prestes (1898-1990), então um capitão do Exército, e integrantes da Aliança Nacional Libertadora, frente de esquerda que se opunha à Ação Integralista Brasileira, inspirada no fascismo.

Todas essas manifestações estavam alinhadas ao contexto internacional da época, influenciadas de um lado pelo fascismo, na Itália, e, de outro, pelo socialismo na extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Em novembro de 1935, aqueles militantes e militares de esquerda tentaram tomar o poder por meio da ação armada em quartéis e batalhões. Houve atos em Pernambuco, Recife e Rio de Janeiro, rapidamente reprimidos pelos oficiais fiéis a Vargas. As lutas foram violentas, com registros de mortes de militares, rebeldes e civis, além de prisões de integrantes do movimento, como o próprio Prestes.

As lutas serviram para dar início a uma intensa repressão a opositores do governo Vargas. Sob a justificativa de combater o comunismo, Vargas tomou medidas para ampliar seus poderes, numa série de atos que culminou com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937. Nessa data o Congresso foi fechado e teve início o Estado Novo, como foi chamada a ditadura Vargas, que durou até 1945.

A análise do passado

Não há registros recentes de representantes do alto comando do Exército defendendo análise dos atos de 1935, na forma como fez o comandante. Mas é frequente integrantes das Forças Armadas lembrarem esse e outros episódios (como a ditadura militar de 1964-1985) com elogios a seus oficiais e muitas das vezes afirmando que a narrativa histórica é injusta com eles.

O Nexo entrevistou três historiadores para falar sobre a relevância da Revolta Comunista e sobre a iniciativa de se voltar àqueles fatos, 83 anos depois, sob a ótica do Exército. São eles:

  • Angela de Castro Gomes, professora titular da UFF (Universidade Federal Fluminense) e professora visitante da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)
  • Carla Simone Rodeghero, professora da História do Brasil na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
  • Rodrigo Patto Sá Motta, professor titular da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

Qual a relevância da Revolta Comunista para a história do país e do Exército?

Angela de Castro Gomes  Vivia-se um momento em que pela primeira vez se via uma mobilização grande da população, através de duas organizações, uma de direita (Ação Integralista Brasileira) e uma de esquerda (Aliança Nacional Libertadora). Era um momento bem exemplar de radicalização política, como nós vivemos ultimamente.

Para as Forças Armadas, a revolta mostrou a radicalização interna. 1935 não é novidade para o Exército quanto à cisão [já vista na década de 1920]. Mas é diferente porque ela vem com a bandeira do comunismo. E é justamente por causa dessa bandeira que a memória vai ser trabalhada. A revolta de 1935 se transforma num símbolo da necessidade de se combater o comunismo do Brasil, num movimento que favoreceu o golpe de Getúlio Vargas [em 1937].

Por muito tempo as comemorações sobre a vitória foram eventos de reforço ao anticomunismo na sociedade. E eu vejo assim também agora. E para as Forças Armadas eu vejo [a fala de Villas Bôas como] uma mensagem clara quanto à rigidez e quanto ao combate às cisões internas. [O futuro governo Bolsonaro] é um governo cujo discurso é autoritário e violento, que não aceita a diversidade de opinião. E se não se aceita as diversidades na sociedade, imagina dentro das Forças Armadas, que são um pilar importante desse governo.

Carla Simone Rodeghero O levante militar foi uma tentativa frustrada de assalto ao poder. Esteve associado à tradição de revoltas militares iniciada na década anterior, ao enfrentamento entre militantes da ANL (Aliança Nacional Libertadora) e Ação Integralista Brasileira, num contexto de crescimento do poder de atração de regimes fortes (comunismo e fascismo). Também foi uma reação ao aumento da repressão ao movimento operário e ao fechamento da ANL.

O levante revela as forças políticas em disputa naquele momento e a expectativa de que um movimento que tomasse os quartéis, ao sair para as ruas teria o apoio de setores aliancistas, como estudantes, trabalhadores, intelectuais, além de militares, para a derrubada do governo Vargas. Se pensarmos no legado desse acontecimento, temos que destacar os fatos posteriores relacionados ao aprimoramento da repressão, ao incremento da propaganda contra o comunismo e à construção de um imaginário anticomunista que é mobilizado até os dias de hoje.

Rodrigo Patto Sá Motta Primeiro, precisamos esclarecer que o movimento era liderado por comunistas, mas tinha a participação de outras lideranças ligadas à Aliança Nacional Libertadora – aliás, a insurreição foi lançada em nome dos ideais da ANL e não de um programa socialista-comunista. Mas foi interpretado como uma tentativa de implantar o comunismo de estilo soviético no Brasil e causou forte comoção à época.

O episódio de 1935 foi muito importante porque em torno dele se lançaram os principais pilares da tradição anticomunista no Brasil, que serviu de justificativa para os golpes de 1937 e 1964. Eu abordei o tema no livro “Em guarda contra o perigo vermelho, o anticomunismo no Brasil”, minha tese de doutorado que foi publicada em 2002. Defendi que 1935 permitiu a construção de arraigada tradição anticomunista que seria reapropriada em diferentes momentos históricos, abrindo caminho ao autoritarismo. O que vemos hoje demonstra o acerto da hipótese, infelizmente.

Por que o Exército volta a esse episódio neste momento?

Angela de Castro Gomes  Vejo essa intenção como parte de um projeto, que aparece nas declarações do próprio Bolsonaro, do ministro indicado para Educação [Ricardo Vélez Rodríguez] e das Relações Exteriores [Ernesto Araújo]. Esse componente de retomar um conjunto de episódios (isso tem sido dito para 1964 também), que não é casual, e tenta estabelecer que uma nova narrativa tem de ser construída.

Nós, historiadores, chamamos isso de negacionismo. É algo semelhante ao que ocorreu em países da Europa, negando que houve campos de concentração no nazismo. É um fenômeno fundamentalmente político. Os efeitos disso são danosos porque esses políticos reputam aos acadêmicos a construção de uma narrativa que pode ser mudada, como se os historiadores a escolhessem.

Historiadores não escolhem, eles pesquisam para poder se aproximar daquilo que se chama de verdade, que é uma aproximação da verdade documentada, o melhor possível daquilo que podemos dizer: “olha, isso é o mais próximo do que a gente consegue chegar sobre aquilo que se passou”.

Não é surpreendente que no momento em que bandeiras anticomunistas voltam a ser desfraldadas, a Revolta de 35 volte a ser frequentada. Há um clima propício para que esse episódio ganhe de novo a cena nessa vertente, como um episódio que favorece discurso anticomunista e que diz que é preciso combater com violência aquelas pessoas entendidas como inimigas. E quem são os inimigos? São aqueles que quem está no poder diz que são.

Carla Simone Rodeghero  Depois da derrota militar imposta aos rebeldes, foi grande o número de presos, boa parte dos quais relacionada à ANL. A tortura e o tratamento desumano foram uma constante, como ficou registrado em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. A grande imprensa e as Forças Armadas pressionaram por reformas institucionais que davam mais poder ao governo, como a declaração de Estado de Sítio e, depois, de Estado de Guerra.

A esta escalada repressiva, seguiu-se intensa propaganda anticomunista, marcada por representações maniqueístas, associando o comunismo a todo o mal. A cada ano, em 27 de novembro, rituais em homenagem aos soldados mortos durante a rebelião reforçaram o imaginário anticomunista, “inflacionaram” os acontecimentos e contribuíram para que o rótulo de comunista passasse a ser usado para os mais diversos fins, sempre para combater propostas progressistas. Parece que é isso que se pretende fazer novamente.

Rodrigo Patto Sá Motta  Na verdade, as principais lideranças militares nunca romperam com essa tradição, que serviu para unificar simbolicamente as FFAA [Forças Armadas] em torno da imagem do inimigo vermelho. E continua circulando entre elas o argumento (do qual discordo) de que o golpe de 1964 e a ditadura valeram a pena, pois teriam salvado o Brasil do comunismo. Assim, o Exército foi a instituição mais marcada pela tradição anticomunista, especialmente devido às comemorações oficiais da vitória sobre a “Intentona” em 27 de novembro (com monumentos e paradas militares).

Talvez por isso a manifestação do comandante do Exército por esses dias, que pode servir para reavivar a tradição, tal como estão fazendo outros grupos. Isso tem a ver com o clima político atual e o resultado das eleições, portanto. Mas os desdobramentos e as intenções reais por trás desse gesto não estão claras. Preocupante porque nas ocasiões anteriores em que ocorreram mobilizações anticomunistas a coisa terminou em ditadura.

ESTAVA ERRADO: Na primeira resposta da professora Angela de Castro Gomes foi escrita a palavra “adversidade” quando na verdade o correto era “a diversidade”. O texto foi corrigido às 12h32 de 3 de dezembro de 2018.

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