PIB cresce 0,8%: as boas e as más notícias da lenta recuperação

Economia tem crescimento modesto, mas homogêneo. Com alta no terceiro trimestre, Brasil atinge mesmo patamar de 2012

    A economia do Brasil cresceu 0,8% no terceiro trimestre de 2018. O resultado foi encontrado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) comparando tudo que o país produziu entre julho e setembro com o trimestre anterior. Quando a comparação do Produto Interno Bruto é feita com o mesmo trimestre de 2017, o avanço é de 1,3%.

    R$ 1,716 trilhão

    é o valor do PIB brasileiro no 3º trimestre de 2018

    O crescimento do terceiro trimestre é o sétimo resultado positivo consecutivo do PIB. A última vez em que houve uma variação negativa foi nos três últimos meses de 2016, quando a economia brasileira chegou ao seu pior patamar desde o início da crise.

    Sequência positiva

     

    O avanço de 0,8% acontece na comparação com um trimestre especialmente problemático. O resultado anterior havia sido marcado por perdas, principalmente na indústria e no comércio, por conta da greve dos caminhoneiros ocorrida em maio de 2018 e que provocou uma crise de desabastecimento em todo o país. O fato de a comparação ser com um trimestre fraco ajuda a inflar o resultado mais recente.

    Crescimento pequeno, mas disseminado

    O resultado do PIB pode ser mais bem compreendido quando se observa as variações de todos os setores que compõem a economia – e consequentemente o número que é divulgado trimestralmente pelo IBGE.

    Existem duas maneiras de se medir o PIB: somando tudo que o país produz ou somando tudo o que o país demanda. Pelo chamado lado da oferta, o IBGE soma o que foi produzido pelos setores de agropecuária, indústria e serviços. Do outro lado vêm gastos do governo, investimentos e consumo das famílias.

    No terceiro trimestre, chama atenção o fato de todos os setores terem crescido, mesmo que a maioria deles de maneira tímida. Medindo a oferta, os crescimentos variaram entre 0,4% e 0,7%. O setor de serviços, que representa mais de 60% do PIB pelo lado da oferta, cresceu 0,5%.

    Lado da oferta

     

    Quando se mede o PIB pelo lado da demanda, o resultado foi menos homogêneo. Isso porque a Formação Bruta de Capital Fixo, nome técnico dado pelo IBGE para investimentos, cresceu muito mais que os outros setores.

     

    O avanço de 6,6% do período é o maior dos investimentos desde o quarto trimestre de 2009, quando o Brasil estava no auge do Programa de Aceleração do Crescimento e da política de incentivos do governo do PT para minimizar os efeitos da crise internacional.

     

    O resultado mais recente, porém, foi influenciado por uma questão técnica, segundo o próprio IBGE. Uma mudança na legislação do setor de petróleo fez com que empresas brasileiras nacionalizassem bens que antes eram mantidos em nome de subsidiárias no exterior para escapar da cobrança de impostos.

     

    O chamado Repetro mudou a tributação e incentivou as empresas a nacionalizarem os bens já existentes. Com a mudança, é como se as empresas estivessem importando ou comprando novos equipamentos (o que caracteriza investimento), mas na verdade elas só estão mudando a jurisdição de propriedade deles. É uma espécie de importação fictícia. Esses equipamentos são, principalmente, plataformas de exploração de petróleo que já estavam operando.

    Lado da demanda

     

    Rebeca Palis, Coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, ressaltou, em entrevista coletiva depois da divulgação do PIB, que os investimentos teriam subido mesmo sem o Repetro. Para ela, porém, a importação fictícia distorce a comparação do investimento do terceiro trimestre com os anteriores e só vai ser possível calcular o peso das novas regras no índice no futuro. Apesar de distorcer a série do investimento, ela considera que o Repetro não tem impacto significativo no PIB.

     

    O significado do investimento na economia

     

    Investimento é todo gasto das empresas destinado a aumentar a produção, seja comprando máquinas e equipamentos para produzir mais bens, seja criando infraestrutura. O dado é importante porque é um indicador da capacidade de o país crescer no futuro — é um gasto que se transforma em mais crescimento. Além disso, o investimento sinaliza o grau de confiança dos empresários no futuro da economia.

     

    O caso das plataformas é ilustrativo sobre a importância do investimento. A compra de máquinas e equipamentos entra na Formação Bruta de Capital porque, em geral, amplia a capacidade de produção. No caso do Repetro, esse investimento fictício não vai ter impacto na produção, uma vez que elas já vinham operando no país.

     

    Mas nem o salto de 6,6% do investimento, influenciado pelo Repetro, foi capaz de puxar uma alta maior do PIB. Isso porque o investimento vem perdendo espaço na economia brasileira nos últimos anos – o que é apontado como uma das causas do baixo crescimento e da dificuldade da recuperação. Se o país investe pouco, tende a ter crescimentos menores.

     

    A taxa de investimento – percentual do PIB ocupado pela Formação Bruta de Capital Fixo – está, nos últimos anos, no menor patamar desde 1996, ano em que começa a série histórica do IBGE.

     

    O crescimento divulgado na sexta-feira (30), impactado pelo Repetro, fez a taxa dar um salto de 15,3% do PIB para 16,9%, mas é provável que esse número seja revisado no futuro. Sem a importação das plataformas, o IBGE calcula que a taxa seria de aproximadamente 16,1%.

    Evolução da taxa e o impacto do Repetro

     

    Onde está a economia

    O PIB brasileiro cresce há sete trimestres consecutivos. A série é positiva, mas veio depois de uma das maiores crises da história do país. Entre o início de 2014 e o fim de 2016, o Produto Interno Bruto encolheu em oito dos onze trimestres. E a recuperação, lenta, ainda não foi capaz de anular as perdas do período.

     

    Pela metodologia do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) da Fundação Getúlio Vargas, a recessão na economia brasileira começou no segundo trimestre de 2014 — a despeito de duas altas tímidas no terceiro e no quarto trimestre daquele ano. O período recessivo acabou no fim de 2016, quando o país atingiu o fundo do poço.

     

    A economia brasileira é atualmente 5% menor do que era no primeiro trimestre de 2014, último antes do início da recessão. Ou seja, o país ainda produz e consome 5% menos do que consumia mais de quatro anos atrás.

     

    O cálculo é feito com base em dados do IBGE que medem o PIB e descontam dos resultados trimestrais os efeitos da sazonalidade, ou seja, variações características de cada época do ano.

     

    Dos seis setores que compõem o PIB, contando os lados da oferta e da demanda, cinco continuam menores do que eram antes da recessão. Agropecuária, setor que exporta muito e por isso depende menos da atividade econômica interna, é o único componente do PIB que cresceu no período de crise.

    Lado da oferta

     

    Lado da demanda

     

    O resultado de todo esse processo recessivo é que a economia brasileira está, atualmente, em um patamar parecido com o que tinha no início de 2012. E, no período, a população brasileira saltou de 198 milhões para 209 milhões de pessoas. Ou seja, o bolo, além de não ter crescido, ainda é dividido com mais gente.

    Patamar

     

    Duas avaliações

    Sobre o resultado do Produto Interno Bruto e a força da recuperação da economia brasileira, o Nexo entrevistou dois economistas:

    • José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator
    • Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e pesquisador do IBRE/FGV

    Como avaliar esse crescimento de 0,8%?

    José Francisco de Lima Gonçalves Veio dentro do esperado, o que não é um grande ânimo. Foi 0,8% a partir de uma base muito fraca. Os últimos três, quatro trimestres, confirmam uma leitura de que o primeiro trimestre de 2017 [crescimento de 1,1%] foi mais acidental do que qualquer coisa. Ali houve uma série de coisas importantes em serviços e agro, o impacto da devolução do FGTS e principalmente a desinflação que estava aumentando a renda.

    Esse 0,8% é melhor que os trimestres anteriores, mas quando se olha os componentes se percebe que nada foi muito brilhante. Consumo cresce num ritmo mais baixo do que no começo de 2017 e ainda, provavelmente, tem algum efeito da liberação do PIS/Pasep.

    Manoel Pires O resultado do IBGE tem alguns efeitos estatísticos importantes. Primeiro é a base, a greve dos caminhoneiros no trimestre anterior tinha levado a um resultado muito ruim. Tanto isso é verdade que nesse resultado de 0,8% o setor que mais cresceu foi transporte, devolveu a queda do trimestre anterior. Todos os setores afetados apresentaram crescimento superior à média. Isso inflou um pouco o número.

    O que precisa ser observado é se esse resultado significa ou não uma aceleração. Quando se olha em relação ao ano anterior, os dados mostram uma aceleração muito modesta. É 1,3%, próximo do 1,5% que estão esperando de crescimento para este ano.

    O que aparece de positivo: há crescimento em praticamente todos os setores da economia. Então, apesar de ser lento, é equilibrado. Isso mostra, por exemplo, qualidade no crescimento, torna difícil imaginar uma reversão desse crescimento nos próximos trimestres.

    Como avaliar o salto de 6,6% do investimento?

    José Francisco de Lima Gonçalves É a plataforma. O importante é o IBGE explicitar, dizer que há um problema de medida que daqui um tempo vai estar corrigido. Muito provavelmente vai envolver algum ajuste no futuro, não sei como eles vão fazer.

    Quando se pega as informações disponíveis sem esse ajuste contábil das empresas, o resultado é bem diferente. Isso significa que se tirar as plataformas, e isso é um exercício analítico, dá pra ver que a coisa não está bem.

    Se pegar qualquer modelo de formação bruta e colocar as variáveis ligadas às expectativas [índices de expectativas medidos pela FGV] e taxa de juros, constata-se que o investimento já deveria estar acelerando com esse ritmo há três trimestres, em 6%, 7%. E não aconteceu. E não aconteceu porque há ociosidade na economia.

    Manoel Pires O investimento teve dois efeitos estatísticos. O primeiro é a comparação com o trimestre anterior ruim. Mas o mais relevante é o efeito da importação do setor de óleo e gás. Segundo estimativas, isso contribuiu com algo em torno de 3 pontos percentuais [dos 6,6%]. Mas, mesmo sem esse efeito, o investimento ainda teria subido. E seria o maior dos últimos três ou quatro trimestres, mesmo ainda sendo muito pouco.

    É pouco porque a capacidade ociosa é muito grande. E também porque o investimento vem de bens de capital [bens que produzem outros bens, máquinas] já que o setor da construção civil está completamente estagnado, está no nível de 2009 e responde por 50% dos investimentos no Brasil. Enquanto esse setor não se recuperar, é difícil imaginar melhora significativa nos investimentos. E é um setor que emprega muito, então acaba afetando o mercado de trabalho e a velocidade de recuperação.

    Houve problemas com investimentos da Petrobras também, é uma das que mais investem no Brasil. Esse ano de 2017 ela estabilizou a queda, então é provável que no ano que vem ela consiga voltar a investir mais.

    O resultado muda algo no diagnóstico de que a retomada é fraca e lenta?

    José Francisco de Lima Gonçalves Não muda. É fácil ver isso olhando para o consumo, que saiu das quedas em 2015 e 2016, passou para o positivo em 2017, mas aquilo foi uma 'corcova'. Quando se olha o gráfico, vê-se que teve lá um crescimento de 1%, mas agora está em torno de 0,5%. Isso é medíocre.

    Investimento é a mesma coisa. Tirando esse último resultado, é oscilação entre 1% e -1%, não muda absolutamente nada no diagnóstico de que a recuperação é bastante lenta.

    O crítico é investimento, ele indica que não há nada puxando a economia. A economia está crescendo 1,5% ao ano, mais ou menos, vai para 2%, 2,5%. Enfim, vai se arrastando.

    A única coisa que poderia alterar esse quadro é investimento. Porque aí sim se cria um movimento relevante no mercado de trabalho de modo a multiplicar esse gasto em consumo, arrecadação, gasto público e coisas assim. Sem investimento a gente não vai sair do lugar.

    Manoel Pires Não, ele confirma a retomada gradual. Setores que não tinham força continuaram apresentando resultados fracos, teve o efeito estatístico já esperado.

    O consumo melhorou um pouco, ajudado pela liberação de recursos [pelo governo federal]. Essas medidas de curto prazo são importantes porque dão uma sensação de melhora da situação enquanto o governo não consegue resolver os problemas de longo prazo, que são os que vão abrir espaço para um crescimento mais sustentável da economia.

    A economia brasileira sofreu três tipos de crise ao mesmo tempo: a de balanço de pagamentos [setor externo], crise de crédito e crise fiscal. Em 2015 e 2016, houve mudanças importantes no setor externo, em que a crise agora passou. Agora estamos passando as últimas etapas da crise de crédito, indicadores começam a apontar a recuperação. Fica a crise fiscal, que tem outro tempo, por causa da política.

    Colaborou Rodolfo Almeida (gráficos)

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