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Este projeto aplicou raios-x sobre as telas de um artista

Plataforma criada por um museu em Viena usou radiografia e fotografia infravermelha para relevar os primeiros esboços por trás das obras do holandês Pieter Bruegel

     

    A plataforma “Inside Bruegel” (“Por dentro de Bruegel”, em tradução livre), desenvolvida pelo Museu Kunsthistorisches de Viena, na Áustria, disponibilizou imagens em formato digital das telas restauradas de Pieter Bruegel, o Velho, pioneiro de uma notória família de artistas do renascimento holandês.

    Útil para quem sempre quis ver os desenhos do pintor, que em seu leito de morte pediu à esposa para queimar parte de suas obras, o projeto tem o diferencial de mostrar não só a versão em alta resolução dos desenhos de Bruegel, mas revelar, por meio de técnicas de radiografia, os esboços que ficaram apagados por trás da versão final das telas.

    Em “O combate entre o carnaval e a quaresma” (1559), obra que descreve um festival típico da Idade Média nos Países Baixos, a aplicação de raios-x sobre as camadas da tela mostra que, antes de decidir que o carrinho de mão levado por uma mulher estaria vazio, Bruegel havia considerado desenhar um cadáver dentro dele.

    A aplicação de fotografia infravermelha sobre outro detalhe da obra mostra que, pouco antes de finalizar a pintura, o holandês substituiu o registro de uma cruz por um par de peixes desenhado sobre uma pá.

     

    Empregadas em desenhos como “A torre de Babel” (1563), “A boda camponesa”(1566-67) e “Triunfo da morte” (1562), a radiografia e a fotografia infravermelha apontam um artista mais crítico e subversivo do que se pensava — Bruegel pode ter desejado queimar seus trabalhos por receio de que, ele morto, sua esposa fosse perseguida pelas autoridades, segundo o “The Book of Painters”, de Karel Van Mander.

    A iniciativa do museu Kunsthistorisches coincidiu com a abertura, em outubro de 2018, de uma exposição em Viena sobre a obra do holandês. O evento, que dura até janeiro de 2019, expõe mais de 80 telas e desenhos que sobreviveram à destruição — a maior reunião de obras do artista até hoje, segundo o museu.

    Quem foi Pieter Bruegel

    Nascido em meados do século 16, no sul dos Países Baixos, o artista ficou amplamente conhecido por suas pinturas de paisagens e cenas da vida no campo. Com frequência, revelou o lado cômico, violento e feio dos tempos da Inquisição Católica, na Idade Média. No entanto, pouco ainda se sabe sobre seu processo criativo.

    “Ainda há muito debate sobre o significado dessas obras”, disse Ron Spronk, professor de história da arte no Canadá e um dos curadores da exposição, ao jornal americano The New York Times. Para ele, não está claro se Bruegel era um “antropólogo” à frente de seu tempo, que queria mostrar imagens de camponeses no dia a dia, ou se apenas tentava fazer alguém rir com suas cenas irreverentes.

    A obra “Massacre dos inocentes” (1564), que a princípio representava uma matança de crianças, é considerada um dos trabalhos mais críticos de Bruegel à Inquisição. Em algum momento da história, entre os séculos 17 e 18, no entanto, alguém decidiu substituir as imagens de crianças mortas por animais da fazenda — e é assim que a pintura está hoje, segundo Sabine Pénot, outra curadora da exposição.

     

    “Inside Bruegel” reúne imagens de 12 obras do acervo original do museu em Viena. “É possível acessar a plataforma como leigo ou especialista”, disse Pénot ao New York Times. A ideia é incentivar as pessoas a investigar as imagens e fazer suas próprias descobertas.

    Como foi feito o projeto

    Assim como outros artistas do século 16, Pieter Bruegel criava suas pinturas em painéis de madeira, camada por camada. Começava em uma superfície de base, na qual esboçava sua composição, geralmente com giz e cola animal. Mais tarde, fazia a pintura usando tinta a óleo.

    Segundo Pénot, a maioria dos desenhos de Bruegel sofreu alguma alteração — seja nesse processo, seja depois da finalização da obra, com a sobreposição de painéis ou da pintura.

    Para revelar os detalhes do trabalho do holandês, a exposição  usou diferentes tipos de técnicas e equipamentos para penetrar em todas as camadas do desenho. Os métodos são explicados no site do projeto.

    As técnicas utilizadas

    Radiografia

    Materiais diferentes absorvem raios-x em graus elevados, e o resultado desse exame é documentado. No processo, a pintura é posicionada entre uma fonte de raios-x e uma folha de filme colocada contra a superfície da tinta. Depois, os filmes analógicos são digitalizados.

    Infravermelha

    “Inside Bruegel” usou técnicas de fotografia e de reflectografia de infravermelho. Nesse processo, as pinturas são fotografadas por câmeras digitais que contêm sensores específicos para filtrar a luz visível das imagens, restando, para ver, a luz infravermelha. Feito isso, é possível ver o que há por trás da primeira camada da pintura.

    Os processos em conjunto revelam tanto os primeiros esboços de uma pintura quanto características estruturais da tela, como rachaduras. Também é possível estimar quando as mudanças na obra foram feitas.

    “[‘Inside Bruegel’] é um grande avanço se você quiser entender Bruegel”, diz Ron Spronk. “É possível enxergar o processo criativo. Seguir o artista no modo como ele fez suas decisões.”

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