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A pesquisa que quer mapear o cenário musical de SP

Apesar do cenário vibrante e diverso, cidade carece de dados sobre palcos e espaços. Iniciativa se inspira em projetos similares em Berlim e Londres

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    No início de dezembro de 2018, a cidade de São Paulo conta com os seguintes shows na programação: o veterano artista inglês Morrissey, o colombiano Bomba Estereo, brasileiros de todas as vertentes, de Angra a Ilu Obá, de Gal Costa a Karol Conká, de Raul de Souza e Rico Dalasam, além do festival Coquetel Molotov, com nomes nacionais que vão de Baco Exu do Blues a Karina Buhr. Sem contar dezenas de shows menores, e festas de música eletrônica como a Odd, com o DJ holandês Job Jobse.

    É uma variedade de opções musicais que rivaliza com cidades europeias e americanas. Não se trata de um fim de semana excepcional: por todo o ano, a capital de São Paulo oferece uma multiplicidade de atrações musicais.

    Apesar da diversidade e volume de eventos, do papel no fortalecimento da cidade como polo de cultura (que atrai negócios e turismo), da receita gerada e do entretenimento proporcionado, a área cultural e a economia criativa carecem de políticas públicas e do olhar atento das autoridades.

    É um problema não só paulistano, mas brasileiro. As últimas duas décadas registram muitos planos e projetos pelo Brasil, com especialistas, entidades e autoridades sempre reafirmando a relevância da cultura e da economia criativa, mas raros casos de transformação dessas intenções em legislação ou políticas públicas efetivas. Apresentada em 2015, uma proposta de Política Nacional de Incentivo à Economia Criativa se encontra estacionada no Congresso.

     “Não existe na cidade de São Paulo onde a gente possa bater e pedir, ‘me dá a lista dos espaços que tocam música ao vivo na cidade’. A prefeitura não tem isso”

    Dani Ribas

    Diretora de pesquisa, Data Sim

    O futuro governo de Jair Bolsonaro não terá mais Ministério da Cultura. A pasta será fundida com outras no novo ministério da Cidadania, que terá como titular o médico Osmar Terra (MDB-RS). "Cultura é um mundo, né? E um mundo problemático", declarou em 29 de novembro de 2018.

    Mapeamento da música

    Um novo projeto pretende mapear os dados referentes a esse cenário. Chamado Data Sim, ele começou a quantificar a música ao vivo da cidade de diversas maneiras: quantidade de palcos, distribuição geográfica, diferenças de gênero entre a força de trabalho e faturamento são alguns deles.

    A ideia é deixar os dados abertos em uma plataforma online a partir de 2019 para serem usados por quem quiser, de entes privados a agentes públicos. A metodologia também estará disponível para quem quiser aplicá-la em outras cidades.

    As responsáveis pelo projeto são Dani Ribas, especialista em gestão cultural e diretora de pesquisa do Data Sim, e Fabiana Batistela, diretora-geral da conferência de música Sim São Paulo (realizada de 5 a 9 de dezembro de 2018). Para elas, os dados e números são atualmente a melhor maneira de convencer autoridades a prestarem atenção na área. A pesquisa é realizada em parceria com a consultoria especializada J Leiva.

    “Surpreendentemente, esse tipo de levantamento é quase inédito na cidade. Nem a prefeitura tem mapeado direito a quantidade de lugares”, afirmou Ribas ao Nexo. Ela lembra que a área musical não conta com um instituto de pesquisa ou agência governamental que organiza esse tipo de informação, como a Ancine faz com o número de salas de cinema no país.

     

    A carência é mais grave quando se fala em música ao vivo, explica Ribas. A música gravada ainda possui contagens de vendas e execuções de órgãos da indústria fonográfica e empresas de internet. “A música ao vivo, que é especialmente importante para pequenos e independentes, onde surge a música, não tem nada”, ressaltou.

    O que a pesquisa mostra

    A primeira fase do projeto, divulgada na edição 2018 da conferência Sim São Paulo, analisou três tipos de espaço: casa de show, local com espaço para show e centro/espaço cultural. A próxima fase do levantamento, que será realizada em 2019, deve pesquisar festas de rua, iniciativas de coletivos independentes, encontros de rua da periferia, turnês, festivais e igrejas.

    Também em 2019, o mercado fonográfico, o mercado de instrumentos e o setor artístico serão incluídos no levantamento.

    Para a primeira fase, foram mapeados 300 lugares;  86 responderam ao questionário. Levantar os locais foi bastante trabalhoso, de acordo com a pesquisadora. “Não existe na cidade de São Paulo onde a gente possa bater e pedir, ‘me dá a lista dos espaços que tocam música ao vivo na cidade’. A prefeitura não tem isso”, afirmou.

    Entre as respostas à pesquisa, apareceram os seguintes resultados

    • A maioria dos espaços (49%) fica na Zona Oeste de São Paulo, que inclui bairros como Pinheiros, Lapa, Barra Funda e Jardins, áreas em que se localizam algumas das casas de show  mais conhecidas da cidade.
    • Espaços com capacidade até 350 pessoas, considerados de pequeno porte, são maioria (65%)
    • Um quarto dos locais tem bicicletário; um quinto conta com fraldário.
    • Os espaços precisam melhorar a acessibilidade: 27% não possuem nenhuma estrutura desse tipo; em média, 58% conta apenas com rampas ou banheiros adaptados. E 93% não empregam pessoas com deficiência em suas equipes.
    • A maior parte do faturamento vem do bar, por meio da venda de bebidas e alimentos (63%). Depois, vem a bilheteria (27%) e locação de espaços (10%).
    • Programação musical gratuita existe em apenas 23% dos espaços. Já nos Centros Culturais, esse índice vai a 48%.

    Inspiração estrangeira

    Uma das inspirações do Data Sim é um projeto realizado em Berlim que busca medir a “pegada criativa” da capital alemã. A iniciativa nasceu da necessidade de gerar dados para argumentar com políticos e empreendedores imobiliários sobre a importância da cultura e da noite para a cidade, que passa por processo de gentrificação em diversos bairros.

    “Só podíamos discutir localmente, sobre uma casa noturna específica, uma área específica, mas não sobre a cidade como um todo”, afirmou Lutz Leichsenring, responsável pelo projeto e também porta-voz da Clubcommission, associação de produtores de eventos culturais, clubes, festas e festivais da cidade, fundada em 2001.

    Outra ação de fora que influenciou o projeto de São Paulo é o relatório London’s Grassroots Music Venues Rescue Plan (plano de resgate para os locais de música de base de Londres, em tradução livre). O documento pede medidas direcionadas a questões de planejamento, licenciamento, taxas de negócios, promoção e turismo musical. A criação de novos locais para shows e campanhas promocionais também faz parte das demandas do relatório.

     

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