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O que este relatório mostra sobre a desigualdade em SP

Documento com 53 indicadores dos 96 distritos da capital revela disparidades em educação, saúde e violência contra a mulher entre o centro e as periferias

 

A Rede Nossa São Paulo, que desde 2007 reúne mais de 700 organizações da sociedade civil em defesa de uma agenda e de um conjunto de metas para o desenvolvimento sustentável e da democracia participativa na capital paulista, divulgou nesta quarta-feira, 28 de novembro, o Mapa da Desigualdade de 2018.

Elaborado desde 2012, o documento traz 53 indicadores dos 96 distritos de São Paulo, com base em fontes públicas oficiais, e revela as disparidades entre diferentes regiões da cidade.

Na comparação de 19 indicadores de 2017 com os dados levantados no primeiro relatório, divulgado em 2013, a capital piorou em nove deles, melhorou em oito e ficou igual em dois deles.

O Nexo destacou alguns dos resultados em seis áreas.

Cultura

  • Um terço dos distritos de São Paulo não possui livros infanto-juvenis disponíveis em instituições públicas. No distrito da Consolação (região central), existem 11 livros para cada criança e jovem de 7 a 14 anos de idade. No Capão Redondo (zona sul), a mesma taxa é de apenas 0,02
  • Em metade da capital, não são oferecidos equipamentos culturais para a população. Na Barra Funda e na República (ambas no centro), são 8,35 cinemas e 5,92 teatros para cada 10 mil habitantes, respectivamente. No Capão Redondo (zona sul) e em Sapopemba (zona leste), a proporção é 0,04 cinemas e 0,04 teatros, em cada um

Educação

  • Em Lajeado (zona leste), 98% da demanda por creches municipais para crianças de 0 a 3 anos é atendida. No distrito da Sé (centro), o atendimento é de 44%. Embora a taxa seja maior na periferia, a população dos distritos mais afastados busca creches centrais porque é nessa região que ela trabalha. Há diferenças também na velocidade de atendimento. Na República (centro), pais e mães levam oito dias para conseguir uma vaga. Em Pedreira (zona sul) são 401 dias
  • No Jardim Ângela (zona sul), 89,3% das matrículas em educação básica são em escolas públicas. No Jardim Paulista (zona oeste), esse número é de apenas 6,8%

Habitação

  • Em Pinheiros (zona oeste), 0,8% dos domicílios estão em favelas. No distrito da Vila Andrade (zona sul), onde fica a favela de Paraisópolis, são 49% dos domicílios. A desigualdade é de 605 vezes entre os dois distritos

Saúde

  • Em Parelheiros (extremo sul da capital), 17% dos bebês nascidos vivos são de mães com 19 anos ou menos. A mesma taxa é de 0,7% no Jardim Paulista (zona oeste)
  • Entre os extremos, a diferença de expectativa de vida chega a 23 anos. Ela é de 81 anos no Jardim Paulista (zona oeste), e de 58 na Cidade Tiradentes (zona leste)

  • Na Bela Vista (região central), existem 48 leitos hospitalares em instituições públicas e particulares para cada 1.000 habitantes; em São Rafael (zona leste), são 0,03

Violência contra a mulher

  • No Jardim Paulista (zona oeste), foram notificados 0,55 casos de agressão a mulheres de 20 a 59 anos de idade, para cada 10 mil delas. No Jardim São Luís (zona sul), foram 100 registros, 180 vezes a mais

Trabalho e renda

  • Na Barra Funda (centro), existem 59 postos de trabalho para cada 10 mil habitantes com 15 anos ou mais. Em Cidade Tiradentes (zona leste), a taxa é de 0,2
  • Na Consolação (centro), as mulheres ganham 39% a menos do que os homens. No distrito do Jaguara (zona oeste), elas ganham 15% a mais, em média. Na Brasilândia e na Vila Nova Cachoeirinha (ambas na zona norte), a diferença salarial é de 2%, a mais baixa da cidade

O Nexo fez três perguntas ao sociólogo Paulo Silvino Ribeiro, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, sobre os índices de desigualdade.

O relatório da Oxfam divulgado em 26 de novembro de 2018 mostra que a desigualdade parou de cair no Brasil após 15 anos. De que forma essa tendência se manifesta na cidade?

PAULO SILVINO RIBEIRO Tem um dado fundamental que é o imenso fosso existente, do ponto de vista da expectativa de vida, entre quem está em Cidade Ademar e quem está no Jardim Paulista. Essa diferença continua absolutamente abissal. Quando você pega os dados cruzados de longevidade, educação, renda, isso também fica claro. De fato, a redução da desigualdade se projeta em São Paulo. Tem um dado que não está só na pesquisa da Rede Nossa São Paulo, mas que é um dado empírico que nós, que trabalhamos no centro de São Paulo, percebemos, que é o aumento considerável das pessoas em situação de rua. Elas são a prova empírica de que a desigualdade em São Paulo é muito grande e, ao que tudo indica, tende a crescer se continuarmos com governos conservadores que não façam políticas públicas voltadas ao menos abastados ou que façam políticas atabalhoadas, como a gente viu em relação ao ex-prefeito João Doria [PSDB], quando do seu enfrentamento da questão das drogas que foi extremamente infeliz.

Desde o primeiro mapa da desigualdade da cidade, de 2013, até o atual, o que mais chama a atenção em relação às diferenças entre os distritos?

PAULO SILVINO RIBEIRO  Há vários outros aspectos que mostram as diferenças entre os distritos. As notificações de violência contra a mulher têm uma diferença abissal entre distritos mais ricos e outros mais pobres. Há uma diferença abissal entre equipamentos públicos voltados à cultura: há uma grande concentração no centro e uma ausência plena nas regiões periféricas. Os dados indicam diferenças de matrículas escolares entre um bairro e outro. Eles estão sempre apontando para aquelas variáveis fundamentais que a gente usa para pensar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Longevidade, renda e escolaridade indicam bastante a diferença existente. Volto a dizer: a expectativa de vida talvez seja a pior de todas as diferenças. 

Do ponto de vista do novo governo eleito, que promete uma guinada liberal na economia do país, o que se pode esperar em relação à desigualdade e como as políticas do novo governo podem impactar em São Paulo? A manutenção do teto dos gastos públicos pode ter qual efeito para a cidade?

PAULO SILVINO RIBEIRO A manutenção do teto de gastos é um dos mais tacanhos obstáculos à redução da desigualdade. O crescimento do neoliberalismo autoritário é um movimento em toda América Latina, não apenas aqui. Com a eleição de liberais, reitera-se esse quadro latinoamericano dramático para a desigualdade. Precisa-se de um Estado mais forte, com políticas públicas de promoção da igualdade. Esses governos defendem Estados mínimos e desconhecem (ou ignoram) os mecanismos reais de produção e reprodução da desigualdade. Portanto, a chance de agravamento da desigualdade é muito provável.

 

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