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A simbologia de prestar continência ao assessor americano

Saudação feita por Bolsonaro tem origem histórica incerta, mas é entendida como sinal de ‘respeito e apreço’ em decretos e manuais militares

     

    Jair Bolsonaro recebeu na quinta-feira (29) em sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton. Ao recepcionar o americano, o presidente eleito do Brasil colocou-se em posição de sentido e fez um rápido gesto, levando a mão direita espalmada à têmpora direita.

    A saudação, conhecida como prestar continência, é própria do meio militar. Bolsonaro é capitão reformado do Exército Brasileiro. Bolton, por sua vez, foi membro da Guarda Nacional em Maryland de 1970 a 1974. Em seguida, o americano foi membro da reserva do Exército, de 1974 a 1976.

    A relação entre eles, no entanto, é civil. Bolsonaro recebeu Bolton na condição de futuro chefe de Estado – ele assume em 1º de janeiro de 2019. Bolton, por sua vez, foi enviado pelo presidente americano, Donald Trump, para participar da cúpula do G20, em Buenos Aires, e fez escala no Rio para parabenizar Bolsonaro pessoalmente pela vitória nas eleições de 28 de outubro de 2018.

    O café da manhã, marcado pela informalidade e pela ausência de protocolo, teve ainda um mal entendido: o general reformado Fernando Azevedo e Silva, indicado por Bolsonaro para comandar o Ministério da Defesa, estendeu a mão a Bolton, que, em vez de cumprimentá-lo, estendeu de volta uma caneca vazia, esperando ser servido. Ao perceber a gafe, todos riram. No momento seguinte, Bolton e Azevedo e Silva se cumprimentaram apertando as mãos.

     

    Como funciona a continência no meio militar

    O gesto de prestar continência é regulado no Brasil pelo Decreto nº 2.243, de 3 de junho de 1997. O documento cita a palavra continência 12 vezes, aplicada a situações específicas, como cerimônias comemorativas ou fúnebres das Forças Armadas. Não há referência a militares da reserva e reformados.

    Na ativa, o gesto parte de um militar subordinado para um militar de patente superior, que, por sua vez, pode corresponder com o mesmo gesto ou não. Já em relação a símbolos nacionais, como o hino ou a bandeira, todos os militares são obrigados a prestar continência.

    Como funciona a continência no meio civil

     

    O gesto não existe regularmente entre civis. Logo, não há disposição legal sobre ele. O que acontece no caso de Bolsonaro se encaixa no que o Centro de Comunicação Social do Exército classificou, em resposta ao Nexo, como “uso informal”.

    O órgão diz que é comum que militares da reserva e reformados façam a saudação “como um bom dia ou boa tarde, como um sinal de cordialidade e respeito”.

    Qual o debate da continência no caso concreto

    A questão, no caso de Bolsonaro, é se há ou não no gesto um sinal de submissão do presidente eleito do Brasil em relação ao enviado americano.

    O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), opositor de Bolsonaro, por exemplo, classificou o episódio como um “capachismo” e “genuflexão vergonhosa”.

    A crítica é que, por analogia com a prática militar, Bolsonaro estaria no papel de subordinado de Bolton por ter tomado a iniciativa de fazer o gesto e por não ter sido correspondido em seguida.

    Na mesma semana, um dos filhos de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, vestiu um boné com a inscrição “Trump 2020” ao cumprir agenda oficial em Washington. A inscrição mostra apoio a uma possível candidatura à reeleição de Trump no futuro, que não é sequer mencionada pelo republicano nos EUA.

    Em outubro de 2017, Bolsonaro prestou continência para uma enorme bandeira dos EUA projetada no telão de um restaurante brasileiro em Deerfield Beach, no estado americano da Flórida.

    “A minha continência à bandeira americana”, disse Bolsonaro, virando-se na direção da bandeira dos EUA, antes de puxar o coro de seus seguidores, com o punho cerrado e erguido no ar: “USA! USA!”

     

    Qual a história da continência

    As Forças Armadas, no Brasil, apresentam pelo menos duas versões para a origem da continência militar.

    O Arquivo Histórico do Exército enviou ao Nexo em agosto de 2016 trecho da edição 25 da revista “Nação Armada”, de dezembro de 1941, que explica – em linguagem muito mais de almanaque do que de livro de história – que o gesto teve origem no século 16, durante um torneio naval no qual estava presente a rainha da Inglaterra, Isabel 1ª. O militar encarregado do cerimonial teria ordenado que os participantes cobrissem os olhos com a mão direita “para não serem ofuscados pela beleza da rainha”, dando origem à continência.

    A outra versão é a de que “o objetivo da continência era saudar reis [na Idade Média], normalmente antes de grandes batalhas de cavaleiros”, disse ao Nexo o coronel da reserva Carlos Eduardo Franco Azevedo, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos, na Eceme (Escola de Comando e Estado Maior do Exército).

    “Nessa saudação, os guerreiros faziam uma reverência ao soberano, erguendo com a mão direita a viseira do elmo que fazia parte da armadura medieval", explicou Azevedo. “Além disso, era ainda uma forma de demonstrar 'paz' aos adversários, uma vez que sempre se fazia com a mão que segurava a espada.”

    Perguntado especificamente sobre o episódio entre Bolsonaro e Bolton, o professor respondeu que “prestar continência a uma autoridade estrangeira é um ato de respeito e amizade”. Ele disse também que “muitos líderes têm por hábito, inclusive, prestar continência a subordinados, demonstrando o apreço que têm pelos mesmos.”

    Trump e Obama já foram cobrados no passado

    O debate sobre saudações presidenciais não é exclusividade de Bolsonaro ou do Brasil de hoje. Exemplo disso é o que aconteceu com o atual presidente americano e com seu antecessor, Barack Obama. Ambos foram questionados – por razões opostas e em ocasiões diferentes – ao saudar o imperador do Japão Akihito.

    Quando Obama visitou Akihito em 2009, foi criticado por curvar as costas excessivamente ao imperador, o que foi visto como submissão. Em 2017, Trump não se curvou. Ele apenas estendeu a mão. Foi tomado por arrogante.

    Mais recentemente, em junho de 2018, Trump também prestou continência, para um militar norte-coreano, durante o histórico encontro que manteve com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, em Singapura. O gesto foi explorado midiaticamente pela TV estatal de Puongyang como um sinal de submissão de Trump ao regime.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Bolsonaro venceu a eleição presidencial em 7 de outubro, quando na verdade essa foi a data do primeiro turno. A vitória veio mesmo em 28 de outubro, no segundo turno. A informação foi corrigida às 18h37 de 29 de novembro de 2018. O texto também informava que o encontro de Obama com Akihito ocorreu em 2007. Foi em 2009. Esta informação foi corrigida às 19h57 do dia 30 de novembro de 2018.

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