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Quem são os coletes amarelos que protestam na França

Movimento autodenominado ‘espontâneo, horizontal e apartidário’ avança sobre o governo Macron, com apoio da esquerda populista e da extrema direita

 

Desde o dia 17 de novembro de 2018, os franceses se habituaram a ver em ruas, avenidas e estradas um grupo de pessoas vestidas com coletes amarelos e fitas refletoras, como se fossem agentes de trânsito ou funcionários responsáveis pela limpeza e conservação das vias.

Os “coletes amarelos” (gilet jaunes, em francês) são, na verdade, manifestantes. Eles se multiplicaram aos poucos no último mês. Partiram de zonas rurais e dos subúrbios franceses e avançaram paulatinamente na direção dos centros urbanos, até juntarem mais de 8.000 pessoas na Champs Elysée, a principal avenida de Paris, no sábado (24), numa marcha que terminou em choque com a polícia.

A peça da vestimenta, o colete amarelo – ou, às vezes, verde limão –, virou marca registrada e nome do grupo. Com a hashtag #giletjaune, os manifestantes passaram a convocar protestos cada vez mais numerosos e sintonizar o discurso via redes sociais.

Na França, todos os motoristas são obrigados a levar coletes amarelos dentro de seus automóveis. A ideia é que, em caso de acidente ou pane, o condutor use a vestimenta para se fazer visível e evitar acidentes nas vias públicas. Algo que faz da vestimenta algo fácil de acessar.

O que os coletes amarelos querem

A primeira pauta de reivindicação do grupo é o preço do combustível na França. Por isso, motoristas profissionais, especialmente os caminhoneiros, assumiram a linha de frente de vários protestos.

A gasolina subiu 23% entre outubro de 2017 e outubro de 2018 no país. A variação no preço do combustível está associada a oscilações do mercado internacional, a variações do dólar e, em menor medida, ao custo operacional. Mas o que mais exaspera os manifestantes é a incidência de impostos, que representam entre 56% e 60% dos preços do produto na bomba.

O governo francês está empenhado num plano de redução do uso de combustíveis fósseis por razões ambientais. Para isso, vem subindo os impostos que incidem sobre o setor, como estratégia para financiar alternativas ecologicamente corretas.

A pauta, que começou pelos combustíveis, evoluiu para uma insatisfação generalizada com o “custo de vida” de maneira geral. E daí para pedidos de destituição do presidente francês, Emmanuel Macron, cuja taxa de aprovação é de 32% e a de reprovação, de 68%.

O caráter ‘espontâneo e horizontal’

Para os brasileiros que viram a trajetória dos protestos de junho de 2013 e a paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018, os “coletes amarelos” têm algo de familiar. Lá, como cá, os movimentos eram identificados como horizontais, espontâneos e apartidários, sem líderes claros, organizados livremente pelas redes sociais.

O discurso da horizontalidade, entretanto, já começa a ceder ao surgimento de pelo menos oito porta-vozes de maior expressão, que falam em nome do grupo. O processo de escolha deles sugere algum tipo de coordenação interna, que não está sujeita a voto ou a qualquer outro tipo de consulta extensiva aos participantes do movimento.

Essa ausência de contornos ideológicos claros tornou possível que todos os opositores de Macron pegassem carona no movimento: da líder de extrema direita Marine Le Pen ao líder da coligação de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon – ambos candidatos derrotados por Macron nas eleições presidenciais de maio de 2017.

Mélenchon se referiu aos “coletes amarelos” como representantes de “um verdadeiro movimento popular de massas”, em contraste com o que ele considera um imobilismo dos setores sindicais tradicionais.

Já Le Pen diz que apoia o movimento “mais que nunca”. Para ela, os coletes amarelos são a expressão de descontentamento de uma classe popular esquecida e ignorada pelas elites francesas, que ela associa a Macron.

A tentativa de diálogo

Na terça-feira (27), Macron reagiu pela primeira vez à pauta do movimento. Ele disse que é preciso manter os ouvidos atentos ao “alarme social” disparado pelos coletes amarelos, sem abdicar do “alarme ambiental” relativo à variação na matriz energética francesa.

A solução intermediária apontada por ele é de dosar a variação do imposto em função da oscilação do preço internacional do petróleo. Assim, o imposto ecológico pode subir ou descer, acompanhando a variação do barril, de maneira a sempre manter um preço final estável na bomba.

Ainda não está claro se a resposta de Macron será considerada satisfatória e suficiente por um movimento cuja pauta, a esta altura, já ultrapassa em muito a questão dos combustíveis.

ESTAVA ERRADO: A manifestação dos coletes amarelos em Champs Elysée mencionada no texto não ocorreu no dia 24, mas no dia 25 de novembro. A correção foi feita às 17h38 de 6 de dezembro de 2018.

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