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Como pintoras surrealistas têm sido redescobertas

Cerca de 64 anos depois da morte de Frida Kahlo, esse é o melhor momento para o surrealismo feminino no mercado de arte

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    Foto: © 2018 Artists Rights Society (ARS), New York
    "Tomorrow Is Never", Kay Sage (1955)
    "Tomorrow Is Never", Kay Sage (1955)
     

    No começo do século 20, enquanto a Europa vivenciava o fim da Primeira Guerra Mundial, surgiu o movimento surrealista, com pinturas que buscavam o rompimento com a realidade, uma reação aos ideais racionalistas do continente pré-guerra.

    No Manifesto Surrealista, publicado por André Breton em 1924, em Paris, definiu-se o surrealismo como um meio de reunir os domínios conscientes e inconscientes. Sonho e fantasia se uniriam ao mundo racional cotidiano em “uma realidade absoluta, um surrealismo”. O movimento teve impacto sobretudo nas artes plásticas até meados dos anos 1950.

    Como aconteceu com grande parte dos movimentos artísticos, os principais nomes do período são em sua maioria homens, como Salvador Dalí, Luis Buñuel e Federico García Lorca. Artistas contemporâneas a eles, como Leonora Carrington, Maruja Mallo e Leonor Fini, foram esquecidas. O principal nome feminino ligado ao movimento é o da mexicana Frida Kahlo.

    Hoje, com o crescente aumento de iniciativas que buscam igualdade de gênero, essas mulheres estão ganhando atenção. Um quadro de Leonora Carrington, “The Giantess” (1947), vendido em 2014 por US$ 1 milhão e passou a valer 3 vezes esse valor nos últimos 4 anos. Um dos nomes mais fortes dessa ascensão é o da americana Kay Sage, que teve em 2014 seu quadro “Le passage” (1956) vendido por US$ 7 milhões, mais de 23 vezes o recorde anterior da própria pintora, de US$ 302 mil.

    Especialistas vêem com olhos positivos essa mudança em um mercado que até 10 ou 15 anos atrás era praticamente de nicho. Em entrevista ao portal Artsy, a historiadora e autora do livro “Women Artists and the Surrealist Movement” (mulheres artistas e o movimento surrealista, em tradução livre), publicado em 1985 e ainda sem edição em português, Whitney Chadwick afirmou que “Essas pintoras desafiaram as fronteiras sexuais e de gênero desde muito cedo. [Só] Agora as mulheres surrealistas estão sendo celebradas como artistas sérias e significativas”. A autora atribui parte dessa nova valorização a “uma abertura do sentimento cultural” sobre a sexualidade feminina.
    Foto: © 2018 Artists Rights Society (ARS), New York
    "Self-Portrait", Leonora Carrington (1937–38)
    "Self-Portrait", Leonora Carrington (1937–38)
     

    E não só o valor dos quadros aumentou, mas também a atenção voltada à vida e obra dessas mulheres. A artista espanhola Maruja Mallo teve seus quadros expostos em Nova York no início de setembro de 2018, na galeria TriBeCa. A argentina Leonor Fini é tema de uma exposição inaugurada no fim de setembro de 2018 no Museum of Sex (Museu do Sexo) também em Nova York. A mostra vai até março de 2019.

    Ainda em entrevista ao Artsy, Julian Dawes, membro de uma das mais antigas casas de leilão de arte, a inglesa Sotheby’s, disse: “Qualquer aquarela de Magritte em bom estado pode ser vendida por US$ 2 milhões, enquanto duas das melhores obras de [Dorothea] Tanning quase não passaram de US$ 1 milhão”.

    O especialista acredita que o mercado global dos artistas surrealistas masculinos se deve muito aos nomes icônicos, como Dalí, enquanto essa mesma fama nunca chegou às artistas femininas. Mas Dawes parece confiante nesse novo movimento, que espera dar finalmente a essas mulheres “um lugar de paridade com os surrealistas masculinos”.

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