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As dúvidas sobre a super ‘estrutura de cupins’ no Nordeste

Área com montes de terra de dois metros e meio de altura no semiárido é do tamanho do Reino Unido, mas sua origem é alvo de controvérsia

 

Numa área do tamanho aproximado do Reino Unido, centenas de milhares de montes de terra formam no semiárido brasileiro uma grandiosa estrutura natural chamados de murundus. Seus autores, segundo um time de pesquisadores, são pequenos insetos de um centímetro: os cupins, responsáveis por criar “a maior e mais extensa estrutura animal jamais encontrada”.

Nos últimos 3.820 anos, os pequenos Syntermes dirus, espécie encontrada na região, teriam desenvolvido no Nordeste do Brasil, um gigantesco complexo que pesquisadores de universidades brasileiras, britânicas e americanas decidiram explicar num estudo publicado em 19 de novembro de 2018 na revista “Current Biology”.

O trabalho, elaborado por um pesquisador do departamento de biologia da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, em parceria com outros três órgãos estrangeiros, identificou um padrão nessas formações: todas possuem formato cilíndrico, com 2,5 metros de altura e 9 metros de diâmetro, em média.

O que são os murundus

Diferentemente do que parece, os murundus não são ninhos. Segundo esse estudo, seriam um amontoado amorfo de solo deixado na superfície pelos cupins durante a escavação de uma complexa teia de túneis subterrâneos feitos para facilitar a busca por folhas caídas no chão (os cupins se alimentam de madeira e matéria orgânica). Em outras palavras: são entulhos.

A palavra murundu é um brasileirismo que significa “uma quantidade de qualquer coisa”, uma “porção”, um “monte”, segundo o dicionário Houaiss. Os murundus do semiárido são formados por solo cuja idade varia de 690 a 3.820 anos, segundo a pesquisa, o que sugere que eles têm sido construído silenciosamente há milênios.

Como cada um desses montículos é composto por 50 metros cúbicos de terra, estima-se que os cupins tenham escavado ao longo de todos esses anos 10 quilômetros cúbicos de terra, volume suficiente para construir 4.000 pirâmides de Gizé, no Egito, como afirmam os pesquisadores.

As estruturas subterrâneas

As pilhas de terra, no geral, não têm estruturas internas. As novas possuem um túnel central que desce em direção ao solo e se conecta com uma rede de túneis, cada um com mais de 10 centímetros de diâmetro.

Esses túneis acessam galerias subterrâneas estreitas onde pesquisadores encontraram folhas secas e ninhadas de cupins. Segundo o trabalho, mesmo após uma extensiva busca, não foram achadas as câmaras reais, onde ficam as rainhas, as principais reprodutoras da colônia. Esses insetos vivem numa sociedade extremamente organizada. 

A rotina dos cupins

De acordo com o estudo, grupos de 10 a 50 cupins trabalhadores e soldados emergem do solo todas as noites, entre os murundus, em busca de comida. Eles abrem pequenas passagens de cerca de 8 milímetros no solo, e essas fendas são sempre fechadas após as expedições.

Os murundus ficam separados entre si por uma distância de 20 metros, formando um padrão possível de ser identificado por imagens de satélites. Essa distribuição espacial está relacionada, afirma a pesquisa, ao modo como os cupins demarcam trilhas, por meio da liberação de substâncias químicas, os feromônios, expelidos por meio de glândulas (a substância também serve como forma de atração sexual).

Esse mapa de feromônios traçado pelos insetos serve também para que eles possam minimizar o tempo de cada viagem das colônias aos montes de terra, afirma o estudo.   

Como existem 1.800 murundus a cada quilômetro quadrado numa região que abarca a Bahia e um pedaço de Minas Gerais, estima-se que existam, ao todo, 200 milhões de montículos pela caatinga, formação vegetal típica do Nordeste marcada pelo clima árido e pela presença de arbustos de pequeno porte.

Devido à característica ácida do solo, que não favorece a agricultura na região, os montes de terra ficaram preservados da ação humana nos últimos anos, afirmam os pesquisadores.

Ao jornal El País, o entomologista (que estuda insetos) da Universidade de Salford, no Reino Unido, e coautor do estudo, Stephen Martin, classificou a grandiosidade da estrutura: “É, de longe, a maior e mais extensa estrutura animal jamais encontrada”.

As controvérsias sobre a hipótese

A origem dos murundus pela atividade dos cupins não é, porém, aceita por todos os estudiosos do assunto, como o biólogo Mário Diniz de Araújo Neto, da UnB (Universidade de Brasília).

Uma corrente de especialistas diz que “a origem biológica não explica o fato de a estrutura interna dos murundus não apresentar uma organização tipicamente biológica”.

Segundo alguns autores, as estruturas teriam surgido da erosão pela água e do acúmulo de sedimentos. A formação se daria pela alta concentração de dióxido de ferro e alumínio em sua estrutura, que são resistentes às inundações. A água das chuvas, quando cai, carrega o resto do terreno, enquanto os murundus permanecem preservados.

Mas mesmo essa explicação enfrenta resistência, pois não explica os murundus existentes na região de São Gotardo, em Minas Gerais, cujo relevo (depressão fechada) apresenta características diferentes das observadas em outras regiões (vales do tipo vereda). A origem das estruturas permanece, portanto, incerta.

Pesquisador já sofria contestações

Em reportagem publicada em julho de 2017, a revista Piauí acompanhou Roy Richard Funch, biólogo americano que vive no Brasil desde os anos 1970 e, à época, vinha realizando os estudos para tentar comprovar que os murundus são obra dos cupins.

Funch, que é coautor do estudo publicado agora, já enfrentava resistência dentro da academia para comprovar a tese. Éder Martins, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e Araújo Neto, da UnB, consideravam sua hipótese datada e não comprovada devido à ausência de ninhos desses insetos embutidos nos murundus.

Apesar da contestação, Funch defendeu sua pesquisa: “A hipótese de que a água criou tudo isso é inconcebível para mim”.

 

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